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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Rui Zink e a Escola

14.08.20

 

"Foi professor de liceu e acumula muitos anos como professor universitário. Como carateriza o sistema de ensino em Portugal, em termos das suas principais debilidades?
Ao nível do liceu, tenho a perceção que há uma excessiva burocratização e desautorização do professor. A ferida aberta pela ex-ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, ainda não foi fechada. Há uma arrogância e uma petulância que contribuiu para o esvaziamento do poder e bem estar dos professores. Fui professor de liceu durante quatro anos e adotava estratégias didáticas que hoje seriam inaceitáveis. Não sou saudoso do tempo em que o professor podia dar reguadas nos alunos, mas convém que a figura do professor tenha instrumentos de autoridade. O que eu vejo é que neste momento existe um esvaziamento da função do professor.

O professor está desamparado na sua retaguarda?
É importante que exista um Conselho Diretivo forte, que esteja entrosado e do lado dos professores. Se não houver, os professores sentem-se abandonados, com uma sensação de medo e depressão. Se o professor não estiver bem, a aula não funciona.

Os recentes casos de violência contra docentes são sinais do mau estar?
A epidemia de violência contra os professores tem de acabar. E para isso é preciso punir. Um pai que agrida um professor deve passar dois dias no calabouço. E perante um professor abandonado e um grupo de adolescentes com demasiado poder, não é de estranhar que tenhamos comportamentos fascistas. Em bando, todos nós podemos virar matilha.

A escola pública tem vindo a perder peso e prestígio para a escola privada?
Eu parto desta premissa: «diz-me onde o ministro põe os seus filhos a estudar e dir-te-ei quem és.» O esvaziamento do ensino numa era democrática beneficia quem tem dinheiro para colocar os filhos a estudar noutros estabelecimentos. Eu possibilitei aos meus filhos estudarem no estrangeiro porque o maior benefício que lhes podia dar era eles serem cosmopolitas e terem mundo. Custou dinheiro? Sim, mas eu não sou ministro da educação. Não pense que estou de má fé, mas em teoria já viu que a melhor forma de eu facilitar a vida dos meus filhos é baixar a qualidade de ensino dos seus futuros concorrentes, para os meus filhos serem os únicos a ter 18 valores? Se eu puder ser ministro de um governo que tem muito amor pela educação, então eu tenho a «arma» certa. Nos meus momentos mais tristes, suspeito que há um complô interpartidário - ou intercasta - para baixar o nível do ensino e para deprimir os professores. E professores deprimidos não podem ser bons.

Quem é que protagoniza esse «complô interpartidário»?
É uma espécie de Maçonaria ou Opus Dei secreta.

Foi um dos elementos do mítico programa da SIC, "A Noite da má língua", em 1994. Que recordações guarda?
Quando entrei, eu senti-me como o Ringo Starr, dos Beatles, porque o Lennon e o McCartney eram o Miguel Esteves Cardoso e o Manuel Serrão. Sabia que não tinha o talento dos outros, mas percebi que ou trabalhávamos em equipa ou morria. Antes de eu entrar havia muita crispação e o ambiente - coincidência ou não - melhorou, inclusive com a entrada da Rita Blanco."