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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

A Confiança É a Chave

Já só os alunos dão ânimo aos professores.

17.05.20

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Há muito que a confiança é a chave da sociedade da informação e a covid-19 reforçou esse atributo. Os governante enunciam com ênfase o substantivo, numa fase de incertezas científicas e em que os contraditórios políticos são difíceis; até no caso extremo de falta de credibilidade do presidente dos EUA, embora Obama declare que a "pandemia enterrou a ideia de que os responsáveis sabem o que fazem". Em regra, a sensata tolerância com quem governa reserva as discussões; com óbvia excepção para os vitais sistemas de saúde.

Mas a confiança, a exemplo da autonomia e da responsabilidade, não se decreta apenas; acima de tudo, exerce-se e educa-se. E se a confiança nos professores é decisiva para a robustez da democracia, apreciei os casos escolares italiano e britânico. Os primeiros inscreveram uma lição de confiança à sociedade: decretaram passagens administrativas, sem que isso impedisse que alunos e professores se ligassem no ensino por internet sem a "cenoura" da avaliação. Já os britânicos sublinharam as classificações do final do 2º período, depositando em cada um dos professores a possibilidade de alteração no final do ano lectivo. Em Portugal, e para lá da depreciação que passou a elogio enternecedor, basta ler o elenco de orientações imprecisas emanadas pelo ministério da educação para se concluir que a iniludível desconfiança nos professores fez escola. 

Mas se italianos e britânicos adaptaram o acesso ao superior, o processo semelhante em Portugal pautou-se pelo "lobismo" tradicional e pelas informações imprecisas e contraditórias sobre as aulas presenciais: os alunos frequentam todas as disciplinas com exame no 11º e 12º anos ou apenas aquelas em que se inscreveram para exame? A frequência é voluntária ou existem faltas por assiduidade e quais os efeitos?

E num processo que requer massa crítica, a tão essencial confiança é uma preocupação de somente meia-dúzia (em cerca de 800) dos órgãos máximos das escolas (o descrédito do modelo de gestão imposto em 2009 está documentado e a democracia representativa tornou-se numa miragem que apenas concretiza a desconfiança nos professores e os interesses partidários), com destaque para o último parágrafo de um bom documento: "tendo em conta estes condicionalismos, o Conselho Geral entende que o regresso às aulas e a realização de exames nacionais deverão ser suspensos." Ainda nesta linha, o presidente do Conselho das Escolas Médicas, Fausto Pinto, declarou que "o regresso às aulas presenciais é um risco desnecessário e explica que os dados da evolução da pandemia da Covid-19 não transmitem segurança para a reabertura das escolas." Não é, portanto, num clima de confiança que os professores vão regressar às aulas presenciais (creches e secundárias), com a agravante de leccionarem num sistema que tudo tem feito para desautorizar o seu exercício. A chave para os professores portugueses está patente nos estudos mais recentes: "já só os alunos dão ânimo aos professores"