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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Da História e dos Direitos

31.05.19

 

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Sempre foi questionável a noção de que a economia é uma ciência independente da filosofia moral e política. A foto, e a sua história, remete-nos para a complexidade do problema: há sempre uns quantos que aspiram enriquecer à custa do trabalho dos outros e o difícil, e belo, exercício democrático consiste em contrariar a natureza humana. Michael Sandel, em "O que o dinheiro não pode comprar", coloca a questão actual assim:

"Quanto mais os mercados invadem esferas não económicas da vida, mais se vêem enredados em questões morais.(...)Se algumas pessoas gostam de ópera e outras de combates de cães ou lutas na lama, precisamos de facto de nos abster de tecer juízos morais e atribuir peso igual a essas preferências no cálculo utilitarista?(...)Quando os mercados corroem normas não mercantis, o economista (ou qualquer outra pessoa) tem de decidir se isso representa uma perda que deveria preocupar-nos.(...)"

Daí à importância das redes públicas de escolas, como um valor inquestionável das democracias, vai um pequeno passo. Será, contudo, insuficiente, se permitirmos que os mercados invadam desde cedo a vida escolar. Lewis Hine foi um fotógrafo, um dos primeiros, comprometido com a denúncia das condições de trabalho. A foto (Cotton Mill Girl) é de 1908 e foi seleccionada pela "Time como uma das 100 fotografias mais influentes da história".

É uma Qualquer Praga!

29.05.19

Da Culpa da Geração Erasmus

28.05.19

 

 

A tal geração Erasmus votou em números muito reduzidos (é o que se diz por aí) para espanto de alguns que se apressaram a culpar a escola. Acusam os jovens adultos de ingratidão (como se empregos com um mínimo de qualidade estivessem ao virar da esquina). Não me parece uma conclusão rigorosa. O que podemos afirmar com segurança, é que os números da abstenção nas eleições europeias terão uma qualquer relação com uma sociedade que exacerbou o individualismo. Nesse sentido, é importante interrogar: que escola é que existiu na última década e meia? (a tal que adoece os jovens?) Se se educa pelo exemplo, qual é o ambiente democrático das nossas escolas há cerca de uma década?

Também seria interessante encontrar respostas para o seguinte: como é que a sociedade educa os jovens? (segundo a OCDE e a Universidade do Minho, os nossos adolescentes revelam uma "falta de autonomia assustadora", com tendência a aumentar, e são os mais ansiosos da OCDE)

Burnout na lista da OMS

28.05.19

 

 

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"O burnout – síndrome do esgotamento profissional – já entrou oficialmente na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS).(...)"

Há muito que se percebeu que existe um esgotamento das capacidades volitivas. O corpo reage. A energia psicológica não é inesgotável. Os muito difíceis estudos empíricos neste domínio deram passos e foram fundamentais para comprovarem os efeitos da saturação da vontade. O psicólogo Roy Baumeister é citado com importantes contributos. Criou o conceito "depleção do ego". É como se a vontade fosse um músculo que deixa de ser irrigado; acelera a queda de açúcar e cria um efeito geral de fadiga. Estes estudos foram usados para explicar o burnout dos professores que tomam dezenas de decisões diárias debaixo de forte ansiedade. Daí ao esgotamento é um passo frequente com o prolongamento das carreiras associado a um indicador fundamental: o número de horas de sono. Ou seja, abandonámos o tempo das incertezas em relação ao burnout, com os professores, o tal caso da nação, como um dos principais casos de estudo por terem sido alvo, na última década e meia, de uma acentuada degradação da carreira (e não apenas em Portugal; obviamente).

Uma curta nota sobre a manifestação do burnout em idades cada vez menos avançadas: É também por isso que se contraria a precocidade na especialização desportiva. Os modelos de formação bem sucedidos são graduais na exposição aos quadros competitivos e "exigem" que as políticas de competição escolar (as mais diversas e não apenas as desportivas) destinadas às crianças e jovens sejam diferentes das aplicadas aos adultos. Em geral, quem começa muito cedo a competir como se de um adulto se tratasse atinge a saturação volitiva quando era esperado um rendimento que maximizasse as potencialidades. 

A Culpa Foi dos Professores

27.05.19

 

 

A culpa foi dos professores: a abstenção foi a mais alta da história porque os professores não foram votar; a direita sofreu uma derrota histórica porque se associou à luta dos professores; o BE subiu porque captou o voto dos professores (afinal, os professores votaram ou não?); o PCP baixou porque os trabalhadores ficaram com ciúmes da insistência dos sindicatos de professores; o PS subiu dois pontos em relação a 2014 porque não cedeu aos professores. Enfim. Ficava mais uma hora em conclusões destas que se ouvem por aí. Dá ideia que o mainstream não quer ler de outro modo a abstenção (os abstencionistas não serão todos desinformados e desinteressados pela política) e os votos nulos e brancos. Por outro lado, esta votação nas legislativas resultava numa configuração parlamentar diferente da actual: vários partidos com um eleito; a direita tradicional sem qualquer deputado em vários distritos; o PAN com eleitos em vários distritos; a possibilidade de outra configuração para uma geringonça 2.

Fórmulas

26.05.19

 

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Em qualquer fórmula governativa, a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores nesta legislatura teria o mesmo destino. A direita evocaria uma impossibilidade financeira e a esquerda uma possibilidade inatingível. A realpolitik ditou: o objectivo da esquerda é impedir a fuga de votos, como ficou claro na assinatura parlamentar de Outubro de 2017 (em que PS, PCP e BE, - e claro Verdes, PAN, PSD E CDS -, e depois em acordo com os sindicatos, acordaram uma recuperação total que sabiam que não se cumpriria; todos sabiam, como sublinhou o PR em Novembro de 2018: "Belém só analisará a questão dos professores depois se ter pronunciado sobre o novo Orçamento de Estado.").

Importa inscrever alguns pontos prévios: foi em Fevereiro de 2014 que se mediatizou a Parvalorem.SA, criada para "nacionalizar" o BPN, por causa da intenção de venda dos Miró; como o nome sugeriu, foi uma espécie de "façamos os populares de parvos" (aliás, quatro anos depois, em Julho de 2018, soube-se que "a Parvalorem (o Estado) atribuiu 23 “viaturas familiares” topo de gama, a 23 ex-gestores do BPN, e paga ainda o combustível, até 300 euros por mês, seguros e parques de estacionamento); este post é apenas para que conste e para que não façam os professores de Parvalorem.SA; publico-o numa hora que não influenciará qualquer voto; as eleições são europeias, mas as conclusões são nacionais se a necessidade o impuser.

Nota: a abstenção terá alguma relação com a generalização de fenómenos "parvalorem.sa"; fui, como sempre, votar; imagem: segundo quadro de um desenho do Antero de 04 de Fevereiro de 2014.

Da Solidão Dos Professores

25.05.19

 

 

Há dias escrevi assim: "(...)Os professores são muitos e os credores do país, através da UE, sublinham a condição de protectorado muito endividado. Nada mudaria se PSD e CDS formassem Governo e BE e PCP syrizavam se não "amadurecessem". Os professores, que estão irremediavelmente sós, ainda respiram, apesar de serem o grande problema da nação e o único motivo que justifica dramáticas eleições antecipadas e coligações de pasmar.(...)"

Digamos de outro modo: em qualquer fórmula governativa, a recuperação do tempo de serviço nesta legislatura teria o mesmo destino. A direita evocaria uma qualquer impossibilidade financeira e a esquerda simularia, e simulou, que estaria favorável. O objectivo da esquerda era apenas impedir a fuga de votos, como se verificou na assinatura parlamentar de Outubro de 2017 (em que PS, PCP e BE, (e claro Verdes, PAN, PSD E CDS) e depois em acordo com os sindicatos, acordaram uma recuperação total que sabiam que não se cumpriria; todos sabiam). A realpolitik explicaria: um voto nos três partidos que sustentam o Governo é um voto no Governo e na sua continuidade. E isto é independente de se acreditar que a actual solução governativa é a mais adequada para o país (melhor do que qualquer maioria absoluta ou Governo de direita) e que deve continuar.

Da Economia

24.05.19

 

 

 

Nota: "(...)O fármaco da dura austeridade, como observaram vários economistas, em vez de curar o doente, enfraquece-o de modo ainda mais implacável. Sem se interrogarem sobre os motivos que levaram as empresas e os Estados a endividarem-se - estranhamente, o rigor não faz mossa à corrupção que prolifera e aos chorudos ordenados de ex-políticos, administradores, banqueiros e conselheiros! -, os múltiplos orquestrares desta deriva recessiva não estão nada perturbados com o facto de serem sobretudo a classe média e os mais cadenciados a pagar(...). Não significa que se fuja estupidamente à responsabilidade da situação. Mas também não é possível ignorar a destruição sistemática de qualquer forma de compreensão e de solidariedade, pois os bancos e os credores exigem sem piedade, como Shylosk em O Mercador de Veneza, o arratável de carne viva a quem não consegue regularizar a dívida.(...)".

 

Nuccio Ordine (2013:07),

"A utilidade do inútil",

Faktoria de Livros.

Pág. 1/6