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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

Professores na "nuvem humana"?

27.12.18

 

 

"Podemos chegar a um futuro em que uma parte da força de trabalho desenvolverá diferentes tarefas para assegurar o seu rendimento - pode-se ser um motorista da Uber, um shopper do Instacart, um anfitrião do Airbnb e um Taskrabbit", Klaus Schwab (2017:46), "A Quarta Revolução Industrial". 

Ou seja, é pertinente a interrogação (bem fundamentada) que coloca os professores contratados neste nível de precariedade. Aliás, o facto da profissão de professor não aparecer nos quadros de probabilidades das profissões mais ou menos propensas à automatização suprime ainda mais qualquer certeza sobre o futuro.

Mais à frente, o autor diz que

"(...)as vantagens para as empresas e, em particular, para as startups em rápido crescimento na economia global são claras. À medida que as plataformas de nuvem humana classificam os trabalhadores como independentes, ficam livres(...)dos aborrecimentos e regulamentos de empregos.(...)Para as pessoas que estão na nuvem,(...)será este o início de uma nova e flexível revolução do trabalho que capacitará qualquer indivíduo que tenha ligação à internet e que eliminará a falta de competências? Ou poderá desencadear o início de uma corrida inexorável para o fundo num mundo de exploração do trabalho virtual não regulamentado? Se o resultado for o último(...)será que isto poderá conduzir a uma poderosa fonte de instabilidade social e política?(...)"

O contorcionismo à volta do tempo de serviço

26.12.18

 

 

 

O contorcionismo à volta do tempo de serviço dos professores explica-se no que levamos de milénio: é o grupo profissional mais numeroso na administração pública e, pela natureza das funções, o alvo mais apetecível da inveja social. A segunda variável parece mesmo inultrapassável, embora não se confirme nos inquéritos confidenciais sobre o crédito das profissões onde os professores ocupam os lugares cimeiros. Tem ainda duas características que irritam o mainstream: sindicatos institucionais com voz (qualquer sindicalista combativo, a exemplo de Mário Nogueira, é de imediato trucidado) e muitos profissionais incómodos e informados. A saga do tempo de serviço tem mais um episódio com o "veto presidencial". O Governo reagiu "ainda na ressaca dos excessos natalícios".

Currículo sem busca do tempo perdido

26.12.18

 

 

 

A disciplina imposta pelo euro norteia o Governo. Apesar do positivo ímpeto inicial, as políticas da educação mantêm o essencial dos governos anteriores. Digamos que é explicado, como na imagem, por uma lei da física (força da gravidade): nem um salto inspirado na obra maior de Gaudi resiste à queda para o lugar comum. Apenas mais um ponto: nas mudanças curriculares, percebe-se a intenção, mesmo que ténue, de contrariar o "fim da história"; contudo, a escolha da imagem deveu-se à introdução de mais disciplinas na mesma carga horária e quase sem tocar no "coração" do que vem de trás. E lembrei-me de um texto que escrevi, algures em 2000 ou 2001, para uma revista sobre educação a propósito de uma mudança curricular. Para também respeitar o espartilho do euro, da dívida bancária e das ideias de escola, carreiras e currículos, ajustei-o.

 

Horas escolares.
 
Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.

Das associações científicas de professores aos sindicatos, e passando pelos membros dos governos ou das oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se.(...)

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.

 

O texto original, não ajustado, está aqui. 

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Imagem:

William Snyder

Barcelona; 1992;

Jogos Olímpicos.

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