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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

E Jaime Neves entregou-me o "crachá" de Comando (na imagem)

20.07.18

 

 

 

Reedição a propósito dos

desenvolvimentos

das recentes mortes 

de instruendos

dos Comandos. 

 

 

As praxes nos cursos de Comandos eram toleradas; os excessos nem tanto. Mas eram, e são, espaços incontroláveis. E é exactamente nesse domínio, na coacção constante, violenta e não programada, sobre os jovens instruendos, que tudo começa como é retratado na muito boa peça do Público que tem um título realista: "O instrutor dos Comandos avisou-nos: vou tornar-me num animal." É uma escalada em que "farei pior do que me fizeram".

 

Fui pedir uma autorização para sair do país e acabei incorporado obrigatoriamente nos Comandos dois meses depois. Foi tudo muito rápido. Seriam dois anos "desperdiçados" numa idade, e condição, que não permitia tempo perdido. A burocracia entre Moçambique e Portugal não funcionou e o meu pai ainda me tentou ajudar no adiamento com um sobrinho que era Conselheiro da Revolução e com o próprio Jaime Neves que era um seu velho conhecido de Moçambique. Não foi boa ideia :). Numa recruta, devemos passar o mais despercebidos possível. Ainda por cima, os instruendos dos cursos de oficiais respondiam a inquéritos políticos e marquei uma posição semelhante à actual. Os candidatos a oficias e sargentos eram exactamente isso numa organização verticalizada. Os "outros", eram a tal "carne para canhão" e talvez isso explique a clubite desinformada, e em muitos casos desumana, sempre que há um pico mediático sobre o assunto. Mas todos (oficiais, sargentos e praças) formam as imprescindíveis tropas de elite ao serviço de "elites" que não saem dos salões e dos que sabem tudo o que deve ser feito com os filhos dos outros.

 

Lembro-me do momento da imagem (o lenço preto saiu com o vento; o meu amigo Gomes, que se vê a meu lado cheio de brio, já não estava grande coisa :)). É interessante que se leia a legenda. O comandante Jaime Neves, como me confirmou depois, fez questão de me entregar o crachá de Comando. O ambiente no regimento era pluralista, suficientemente profissional e com os excessos decorrentes da "inacção" de militares especialistas em combate.

 

Já fiz, ao longo dos anos, vários posts sobre os Comandos. Encontra-os aquiFica ainda muito para escrever, naturalmente.

 

Fiz um resumo das passagens mais significativas:

 

Lembrei-me do serviço militar. Vinte e poucos anos, muito poucos mesmo, e zero tiros no currículo. De uma hora para a outra raparam-me os caracóis, encheram-me de fardas e de sei lá mais o quê e disseram-me: vais ser comando; a honra suprema de um jovem português. Chamavam-me de Prudêncio, o meu último nome, coisa que até aí me parecia exclusivo do meu pai. Fui obrigado a fazer uma tropa de voluntários com detalhes engraçados: perguntavam-me: - és voluntário?; respondia: - não. Mas nos papéis punham a cruz no sim e quando mais refilasse pior: aprendi rápido e sentenciei: - se tem de ser, vamos a isso.

Depois foi aquilo que se sabe. Mesmo com uma estrela aos ombros, já que ali éramos todos iguais, valha-lhes isso, a dureza e a brutalidade diárias sucederam-se até o horror se instalar. Lembro-me, entre tantas outras coisas tremendas, de saborear um naco de pão duro barrado com pelos da barba e sangue, de rebolar em tronco nu num escarpado cheio de silvas ou de me deitar em terrenos cravejados de balas acabadas de cair. Violência acumulada em meses e meses sem fim. Valeu-me a ausência da guerra. Não sei o que faria dos "inimigos".

Fui Comando. Por obrigação numa tropa para voluntários (começou nessa altura a objecção de consciência). Condicionado a dar o melhor para ser oficial e não ir parar a soldado sem graduação e sem especialidade. Éramos 87 no curso de oficiais e sobraram 7. Na prova mediatizada (prova de choque) éramos cerca de 500: ao segundo dia estavam cerca de 250 na enfermaria improvisada. Era tal a violência e alienação, que se traficavam tampinhas de cantil com água a 500 escudos a unidade (cerca de 100 euros com "equivalência" ao custo de vida actual). Um amigo de escola (o Jaime Naldinho), queria que lhe espetasse um prego da tenda na mão para ser evacuado. Como recusei (ele ficaria com mais uma lesão para a vida), correu atrás de mim acusando-me de estar feito com os inimigos (já não bastava o esforço daqueles dias loucos e infernais que me provocaram uma indigestão inédita por ter ingerido lama em quantidade imprudente; estive para desertar a meio do curso). Dei instrução e pertenci à companhia operacional 112. Foram 18 meses inesquecíveis. Aprendi muito em diversos domínios; também na "arte da guerra" que até aí me era completamente estranha. Havia muitos exageros. Nestes cursos morreram dois ou três instruendos e alguns ficaram com lesões para a vida. Era uma coisa estúpida derivada de mau planeamento, de praxes insanas ou de insuficiências no equipamento. Não havia a mediatização actual. Era uma revolta muda.

 

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Encontrei a imagem (é de um DN de Dezembro de 1980) ontem num baú de recordações.

dos modismos e do perfil do aluno

20.07.18

 

 

 

 

Fui parar a uma entrevista de Agosto de 2016 de quem coordenou o perfil do aluno no final do 12º ano.

 

Lembrei-me deste post.

 

Começa assim:  

 

A febre reformista no sistema escolar em Portugal não é nova: é mesmo imparável. O que é engraçado, e com o passar do tempo, é que vemos recuperar ideias antigas como se de grandes novidades se tratassem. Parece um percurso circular.

Escrevia, algures em 1998, uns textos para uma revista sobre educação e o coordenador pediu-me que inscrevesse algumas ideias sobre o assunto. Lembrei-me dos remédios. Fui ler a literatura do “Benuron” - medicamento para todas as dores e para todas as maleitas gripais e constipais - peguei no seu modelo organizativo e fui andando. Foi uma noite bem passada. Quase 16 anos depois, e aproveitando as competências do blogue, publico-as de novo. Só dois detalhes antes de começar: se em 1998 era possível este grau de má burocracia e eduquês, não é de admirar que com mais 17 anos intensivos isto tivesse chegado a este estado.

 

Republico apenas o perfil do aluno. Para os restantes medicamentos terá que ir ao original no link referido.

 

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Perfil do aluno. 

Registo da patente: equipa coordenadora dos programas escolares na reforma Roberto Carneiro em 1989. 

Composição: registo preciso e rigoroso do estado do produto aluno somados x anos de laboração. 

Indicações terapêuticas: impede desvios acentuados nos complexos processos de apreciação global dos alunos; facilita a criação de mecanismos rigorosos de análise transversal do desempenho de humanos sujeitos ao agressivo contexto escolar. 

Contra-indicações: pode provocar ligeiras dores de cabeça quando verificada a sua articulação com os programas escolares das disciplinas dos anos terminais de ciclo. 

Precauções especiais de utilização: não deve ser aplicado a alunos muito curiosos nem aos que se posicionem de frente ou de costas. 

Prazo de validade: um ciclo escolar, precisamente.