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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

homem médio

28.02.18

 

 

 

 

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Contactei com a formulação em título nos conselhos, sensatos para aquele contexto, diga-se, para sobreviver nos comandos: não te distingas, sê discreto e passa o mais possível despercebido. Vem isto a propósito da necessidade de reforma do estado social e da conversão à absolutização da estatística.

A sugestão para o tempo militar não subscreveu os modelos do tipo BPN ou BES. Nem as instâncias internacionais de supervisão detectaram milhares de milhões em fuga porque só tiveram olhos para a média; para o homem médio.

Para Quételet "(...)o homem médio é para a nação o que o centro gravidade é para um corpo(...)". Há quem diga que se deve levar muito a sério esta metáfora. O homem médio pode resumir todas as forças vivas de um país, coligando-as numa espécie de massa única.

Os modelos assentes na obstinação estatística, e que socorreram a troika, advogam uma excelência da média como tal, seja na ordem do bem ou do belo: "(...)O mais belo dos rostos é aquele que se obtém ao tomar a média dos traços da totalidade de uma população, do mesmo modo que a conduta mais sábia é aquela que melhor se aproxima do conjunto de comportamentos do homem médio(...)", disse ainda Quételet quando reflectia sobre a génese dos totalitarismos. Ou seja, é fundamental que as políticas olhem para além da média antes que esta se desloque para o extremo de mais baixos rendimentos.

 

2ª edição.

 

Europa com falta de professores

27.02.18

 

 

 

 


A OCDE concluiu que há professores na Europa a precisar de tutorias e há quem pense de imediato em Portugal e no regresso dos professores titulares. Discordo. Há países onde já não há professores, tal os tratos a que o grupo profissional tem sido alvo. No Reino Unido e na Alemanha, por exemplo e lido assim de repente, precisam de tutorias porque há pessoas sem formação académica, e muito menos profissional, que recorrem ao ensino "apenas" para terem um salário. Em Portugal, como em França ou Espanha, ainda não é tanto assim. Mas não tarda. Por cá, lá abrirão os telejornais com a falta de professores porque o estatuto da carreira se degradou. Quase que não existem alunos no não superior candidatos aos cursos de formação de professores e os excessos no tempo para a aposentação provocam baixas médicas em catadupa e uma atmosfera de substituições temporárias pouco apelativa.

da utilidade do inútil

26.02.18

 

 

 

Nota: "(...)O fármaco da dura austeridade, como observaram vários economistas, em vez de curar o doente, enfraquece-o de modo ainda mais implacável. Sem se interrogarem sobre os motivos que levaram as empresas e os Estados a endividarem-se - estranhamente, o rigor não faz mossa à corrupção que prolifera e aos chorudos ordenados de ex-políticos, administradores, banqueiros e conselheiros! -, os múltiplos orquestrares desta deriva recessiva não estão nada perturbados com o facto de serem sobretudo a classe média e os mais cadenciados a pagar(...). Não significa que se fuja estupidamente à responsabilidade da situação. Mas também não é possível ignorar a destruição sistemática de qualquer forma de compreensão e de solidariedade, pois os bancos e os credores exigem sem piedade, como Shylosk em O Mercador de Veneza, o arratável de carne viva a quem não consegue regularizar a dívida.(...)". Nuccio Ordine (2013:07), "A utilidade do inútil", Faktoria de Livros.

e o pacto inclui a Educação

25.02.18

 

 

 

Rio inscreveu a educação no pacto e antecipou o texto: "o Governo reverteu tudo de Crato". Não é verdade. O Governo reverteu uma parte dos "privados" escolares, o concurso "BCE" dos professores e atenuou a obsessão métrica nos alunos mais pequenos. Portanto, uma pequeníssima parte. Falta reverter quase tudo, desde logo o retrocesso civilizacional do afunilamento curricular (ainda mais severo nos petizes). Ou seja, o PSD não pactua apenas o regresso da roda livre dos "privados" escolares, da "BCE" dos professores e da industria da medição quase à nascença. Rio quer mais. Pactuará as malfeitorias de Lurdes Rodrigues e o início da queda que a antecedeu, com David Justino a tecer o fio pactuante. Aliás, e olhando para o que existe, nem é preciso pactuar. Adopte-se a sábia prospecção do cartoonista nas últimas legislativas: óculos 3D para os eleitores verem eclipses antes de votar.

 

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 Luís Afonso

 

O não na agenda educativa

24.02.18

 

 

 

"A formação da personalidade apoia-se na sua negação", é uma verdade educativa intemporal. Por mais que os destinatários reajam (e é bom que o façam), o "não" é desejado, necessário e útil.

Outra verdade prende-se com a necessidade do "não" escolar aos encarregados de educação (não educacional, organizacional e curricular, obviamente) e que a lógica do "cliente tem sempre razão" tem eliminado. É evidente que haverá encarregados de educação mais "tudólogos" ou necessitados da sensatez do não escolar, que confundem o "outro" com o "igual" na educação das crianças e jovens e que desvalorizam a importância destas questões para a saúde da democracia como sublinharam Hannah Arendt e muitos outros. A gravidade acentua-se se a desinformação atingir autoridades escolares.

 

3ª edição.

 

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"a vida real pessoal e pedagógica não é uma declaração jornalística..."

23.02.18

 

 

 

Contributo de Mário Silva.

 

"A vida real pessoal e pedagógica não é uma declaração jornalística...
 
Uma professora ficou sem voz e este facto permitiu refletir sobre 3 condições: 
1- uma ferramenta profissional essencial; 
2- a manutenção de uma crueldade social; 
3- a falácia da flexibilidade curricular.
 
1- Um docente sem voz não pode ensinar. Pode não ter membros, estar paraplégico ou até tetraplégico, que tendo voz, pode ensinar. O som é  uma ferramenta essencial no ensino.
2- O docente não tem voz mas mantém-se funcional em todos os outros aspetos; contudo, como não tem a ferramenta essencial, tem de declarar incapacidade temporária, para recuperar algo que demora aproximadamente 5 dias a ficar normal. No modelo social atual, implicaria apresentar atestado médico, sendo descontado integralmente 3 dias de salário e uma percentagem nos restantes, agravando o já degradado rendimento mensal. 
3- Para não perder um rendimento não desprezável, foi pedida uma coadjuvação voluntária. Na aula de uma turma do secundário, a coadjuvante servia de porta-voz, orientando a aprendizagem de acordo com o modelo de flexibilidade curricular que se quer generalizar. Neste modelo, o conceito de aprendizagem significativa é o cerne do processo; mas implica uma disponibilidade tanto dos alunos como de tempo letivo. O plano de aula desenvolveu-se de modo a que começou a mobilizar aprendizagens de outras áreas do conhecimento; apesar da produtividade, em determinado momento a colega sussurrou ao ouvido da coadjuvante: ”Já estou atrasada no programa relativamente ao outro colega que tem outra turma. Temos de abreviar”. E nesse momento, constata-se a falácia da flexibilidade curricular quando se tem a grilheta do programa obrigatório do exame nacional para cumprir, algo essencial ao destino dos alunos mas irrelevante para a aprendizagem significativa...
Essa falácia torna-se mais evidente quando os futuros alunos universitários constatarem que nesse modelo de ensino impera o expositivismo 'puro e duro', tendo de se desenrascarem sozinhos, sem terem acesso a serviços de apoio educativo, ocorrendo inevitavelmente um choque intelectual negativo."
 
E assim, as declarações dos pretensos modificadores de métodos de trabalho pedagógico em conferências de imprensa, artigos de opinião ou vídeos de divulgação, revelam-se desfasadas do que acontece no quotidiano real...
 
Mário Silva

para além de ausente, é imatura

22.02.18

do desporto e da escola

21.02.18

 

 

 

 

 

"O sistema escolar tem que ser competitivo como o futebol, em que somos dos melhores", disse o "especialista" na TSF. Defendeu que os mecanismos de selecção usados no 12º ano (exames a x disciplinas, rankings de escolas, pautas públicas de classificações e quadros de mérito) devem ser plasmados nos anos anteriores. Dá ideia que a preparação de top performers só não chegou ao pré-escolar porque os "especialistas" atrasaram-se a objectivar a construção em Lego para determinarem a restante parafernália. Ainda bem que mudou o Governo e que, ao contrário do que disse Rui Rio ("não ficou nada de Crato"), reverteu o inferno da medição que Crato impôs de supetão aos mais pequenos. Lamenta-se que tenha sido apenas isso, mais a questão dos "privados escolares" e da bce dos professores. Falta muito desvario para reverter e não só de Crato.

O que se pratica nos modelos de formação desportiva comprovadamente bem sucedidos é o contrário do que disse o "especialista". A sensatez exige alargar a base da pirâmide e tentar perceber os "talentos" depois dos 14 anos. Antes desta idade, há jogos com resultados mas sem classificações de equipas. Sempre que começa um jogo estão todos em "igualdade de circunstâncias". Há um tempo mínimo e máximo de participação de cada jogador e chega-se a impor um limite máximo de pontos (no basquetebol, por exemplo) que implica a substituição do jogador.

E podíamos estar o dia todo a elencar os domínios da formação. As vantagens, para além das óbvias, incluem os factores de ordem psicológica (da sua saturação), de aprendizagem técnica e táctica, de superação numa possível alta competição e de aprendizagens "para a vida".

As origens ideológicas do egoísmo emergente

20.02.18

 

 

 

Contributo de Mário Silva.

 

"As origens ideológicas do egoísmo emergente.

A influência de Ayn Rand no pensamento político nos EUA e outros países continua a ser forte e atual.

Egoísmo é uma palavra muito recente na história das civilizações. Vem da palavra latina “ego” para “eu” e constituiu pela primeira vez em 1751 uma entrada na Enciclopédia Francesa do Iluminismo. O significado inicial de egoísmo qualifica o comportamento das pessoas que se citam e falam muito delas próprias, das suas virtudes, da sua vida e do que lhes acontece. Este tipo de comportamento constituía uma forma de “vaidade, de soberba, de pequenez de espírito e, por vezes, de má educação”. Em Inglaterra, a palavra selfish só começou a ser usada no século XVII pelos Presbiterianos.

O egoísmo pode ser considerado de um ponto de vista descritivo ou normativo. No primeiro caso, temos a tese do egoísmo psicológico, segundo a qual a motivação de qualquer ação humana é sempre satisfazer o seu próprio interesse, mesmo quando alguns a possam interpretar como um exemplo de altruísmo. No segundo, o egoísmo ético é uma tese normativa na qual a condição necessária e suficiente para uma ação humana ser moralmente correta é maximizar o interesse próprio (Shaver, 2015). A defi nição de egoísmo racional obtém-se substituindo na definição anterior a expressão moralmente correta por racional. No Cristianismo e na tradição moral que legou ao Ocidente, ajudar os outros, especialmente os pobres, os famintos, os doentes e os abandonados, ou seja, praticar aquilo que mais tarde, em 1852, Auguste Comte designou por altruísmo, é considerado uma virtude redentora. Ao longo da história do Ocidente vários filósofos e teólogos salientaram ser racional o homem procurar o que lhe é útil e dá felicidade. Thomas Hobbes, na sua teoria sobre a natureza e a moralidade humanas, fortaleceu a afirmação do egoísmo na cultura Ocidental. Segundo ele, o homem é essencialmente uma criatura selfish, quezilenta e agressiva, pelo que apenas um Estado forte pode evitar uma “guerra de todos contra todos”. Hobbes foi o primeiro a defender que todo o comportamento humano é, em última análise, selfish, ou seja, a defender a teoria do egoísmo psicológico.

Alissa Rosenbaum, que mais tarde adotou o nome de Ayn Rand, nasceu em São Petersburgo numa família judia burguesa no ano de 1905. Desde muito cedo revelou uma extraordinária aptidão para escrever peças de teatro e novelas. Aos 12 anos assistiu à Revolução Russa e passados poucos anos os dirigentes bolcheviques confiscaram o negócio e os bens da família Rosenbaum, que fugiu para a Crimeia, onde viveu com grandes dificuldades e passou fome. Aos 20 anos conseguiu um visto para visitar familiares em Chicago e ao ver Manhattan do barco chorou, reconhecendo mais tarde serem “lágrimas de esplendor”. A sua visão política do mundo consolidou-se após a Grande Depressão de 1929, ao considerar as políticas de reformas financeiras e de programas de desenvolvimento do New Deal como uma forma de “coletivismo”, logo uma perigosa imitação do bolchevismo ao qual se opunha visceralmente.

As teorias que desenvolveu podem ser interpretadas como um esforço de justificação moral de uma política que literalmente inverte o Marxismo. Neste, os trabalhadores produzem todo o valor enquanto os capitalistas sugam os resultados do seu trabalho. Na análise de Ayn Rand, exposta nos seus livros de grande sucesso The Fountainhead (1943) e Atlas Shrugged (1957) (publicado pela primeira vez em Portugal em 2017 sob o título A Revolta de Atlas), os capitalistas são empresários com qualidades notabilíssimas de liderança, iniciativa e inteligência que criam riqueza para toda a sociedade, enquanto os trabalhadores das respetivas empresas beneficiam dessa riqueza, e viveriam muito pior se abandonados a eles próprios.

Ayn Rand organizou as suas ideias em torno de um conjunto de princípios a que pretendeu dar a respeitabilidade de uma teoria filosófica, com o nome de Objetivismo. A ideia central é a defesa de uma forma de egoísmo ético-racional que é a conjunção do egoísmo ético com o egoísmo racional, dado que no Objetivismo o egoísmo não pode ser justificado plenamente sem uma análise epistemológica baseada na razão. No seu livro The Virtue of Selfi shness (1964), explica detalhadamente o tipo de egoísmo normativo que defende e incita a sociedade a praticá-lo. Rand diz que “o Homem existe para si próprio e que a procura da sua própria felicidade constitui o seu propósito moral mais importante, pelo que não deve sacrificar-se pelos outros, nem sacrificar os outros para si próprio”.

A maioria dos filósofos contemporâneos rejeitam ou ignoram o Objetivismo devido à incoerência e confusão das suas ideias. Contudo,esta desvalorização não constituiu nenhum obstáculo para a divulgação e impacto que teve na sociedade americana. Pelo contrário, o Objetivismo permitiu defender o capitalismo radical como um sistema ético no qual os empresários de sucesso lideram o progresso da sociedade em benefício de todos.

Apesar do Objetivismo ter ficado limitado a um grupo restrito de seguidores do culto em Ayn Rand, conhecido ironicamente por “O Coletivo”, o facto importante é que a sua influência no pensamento político nos EUA, Reino Unido e outros países continua a ser forte. Atualmente, os livros de Ayn Rand são estudados, juntamente com os de Thomas Hobbes e Edmund Burke, em cursos de ciência política e economia em várias universidades dos EUA e através do mundo. No Reino Unido, o programa da disciplina pré-universitária de Política (A-Level Poltics) incluiu em 2016, pela primeira vez, a leitura dos livros de Ayn Rand.

Há um elevado número de políticos dos EUA, principalmente republicanos, que testemunham grande admiração pelos livros de Ayn Rand e afirmam terem sido influenciados pelas suas ideias. É o caso de Alan Greenspan, o economista que pertenceu ao “Coletivo”, foi presidente da Reserva Federal de 1987 a 2006 e que muitos consideram ter sido um dos principais responsáveis pela crise financeira de 2008-2009, devido às suas políticas de desregulação dos mercados financeiros. Num livro autobiográfico escreveu estar grato a Ayn Rand “pela influência que teve na minha vida. Eu era intelectualmente limitado até a encontrar”.

Na essência da visão do mundo defendida por Ayn Rand está a tentativa de promover o individualismo humano para construir uma elite de “super-homens” que lideram o progresso da civilização humana. Esta forma extrema de individualismo representa uma perigosa tentativa de contrariar a natureza social do homem, que potencialmente poderá conduzir a comportamentos individuais e coletivos auto-destruidores.

Ayn Rand cativa erroneamente os seus leitores acariciando-lhes o ego o convencendo-os que, cada um deles, seja quais forem as suas qualidades, pode ser um super-homem de sucesso se defender exclusivamente os seus interesses. Porém, considerar que o altruísmo não defende os interesses próprios é negar a felicidade e o bem-estar que resultam de ajudar os outros, especialmente os fracos e doentes, os pobres, os desalojados e os perseguidos. É negar que seja no nosso próprio interesse a contribuição, o empenhamento e, por vezes, o sacrifício feito na construção de uma sociedade mais justa e equitativa para bem de todos. Este tipo de negacionismo fundamenta e favorece a fuga ao pagamento de impostos, a utilização dos off shores, a desregulamentação financeira, a luta contra a progressividade dos impostos e as formas cada vez mais variadas, sofisticadas e ubíquas de corrupção que proliferam em todo o mundo. Favorece ainda a ascensão do 1% que já possui cerca de metade da riqueza mundial. Estamos perante um negacionismo que se está a fortalecer, especialmente nos EUA com o atual governo, e que conduz à sociedade do egoísmo. Prevalece a perceção de que os que praticam o egoísmo têm maior sucesso na conquista da prosperidade económica.

É pois muito provável que o desenvolvimento e o enobrecimento do egoísmo tenha constituído uma forma de adaptação na fase atual da evolução cultural dominada pelo consumismo e pela tecnologia. O egoísmo promove e está frequentemente associado à cupidez ou ganância, comportamento que está bem identificado desde tempos muito mais recuados do que o egoísmo. O egoísmo e a ganância são indissociáveis do atual paradigma civilizacional e, na prática, contribuíram para o seu sucesso e para a sua insustentabilidade. Como é possível termos um mundo sustentável do ponto de vista social, económico e ambiental se o egoísmo e a ganância forem os valores emergentes?

Maravilhados pelo sucesso, desvalorizamos a insustentabilidade, e corremos como se quiséssemos atingir os limites do egoísmo e da ganância, sem nos apercebermos de que essa ilusão destrói progressivamente o respeito, a convivência e a cooperação com os outros e finalmente acaba por destruir as regras da democracia e da paz."

Filipe Duarte Santos,

Professor da Universidade de Lisboa

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