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Correntes

em busca do pensamento livre

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Da queda nos testes internacionais

05.12.17

 

 

 

O Público informa que a "avaliação internacional mostra que alunos do 4.º ano estão pior na leitura. Entre 2011 e 2016, a média dos alunos portugueses desceu 13 pontos na avaliação da literacia em leitura feita pelo PIRLS. É a segunda maior queda em 50 países analisados. Metas e mudanças na avaliação poderão ter influenciado o desempenho dos estudantes."

Há nesta conclusão uma responsabilização das obsessões cratianas. Os retrocessos civilizacionais (medir as palavras lidas por minuto, por exemplo) fundamentados nas epifanias de Nuno Crato, provocaram afunilamentos curriculares que originaram o que escrevi há dias: para um aluno do 3º ano para cima, é tão óbvio ter explicações como ir à escola.

É precipitado concluir nestas matérias. Há, contudo, uma explicação que não me canso de repetir:

A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades, na mesma sociedade e organização, com 100 professores diferentes, os resultados oscilariam muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

É também por isso que é um logro que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que tudo se resolve mudando o conteúdo físico dos 30%. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% não há ensino.

 

 

Nota: no período 2011 a 2016 houve, objectivamente, muito menos sociedade.

Do dia seguinte de Mário Centeno

05.12.17

 

 

 

 

Com a possibilidade de Mário Centeno presidir ao Eurogrupo, os analistas apressaram-se na desvalorização associada à impossibilidade de o Governo dar asas às ideias iniciais. A concretização da presidência desorientou-os; e não são os únicos. Mas mais: quem contraria os seus raciocínios, é de imediato arrumado na prateleira dos ingénuos. Ou seja, advogam o imobilismo e o fim da história. Esse cinismo nem se deve confundir com desistência, porque, em regra, defendem os interesses beliscados com o algoritmo inicial de Centeno. De qualquer dos modos, é em Bruxelas que muito se decide. Há que tentar. Algo mudou. No mínimo, os tempos de crise não são tão acentuados. O facto do Governo alemão precisar do SPD e prescindir dos liberais pode fazer alguma diferença. Veremos os próximos capítulos.