Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

O Expresso antecipa-se?

31.12.17

 

 

 

Parece que o PR vetará, diz o Expresso, a lei de financiamento dos partidos. Percebe-se. Os aparelhos partidários não andam com boas contas e é sensato o veto à ausência de limite para os donativos. Mas as "más contas" que se alastraram pelo país incluem a sobreposição dos interesses dos aparelhos e isso é demasiado visível. Como alguém dizia num debate na RTP3, "a justiça e a lei são desprezadas, mesmo em casos de dolo cometidos por personagens que sirvam os aparelhos".

 
Para quem não se interessa pelo direito, fica uma definição de dolo num dicionário online:
"nome masculino; 1. atitude conscientemente tomada no sentido de se vir a cometer um ato criminoso ou uma infração; 2. qualquer sugestão ou artifício com a intenção ou consciência de introduzir ou manter em erro autor da declaração; 3. má-fé; 4. fraude; embuste; 5. astúcia; 6. engano; traição; Do grego dólos, «astúcia», pelo latim dolu-, «astúcia; fraude; ardil»."
 

Captura de Tela 2017-12-31 às 21.16.39

 

 

Suburbicon

29.12.17

do financiamento da democracia

28.12.17

 

 

 

Falemos de coisas óbvias: as organizações políticas, como os partidos, são imprescindíveis à democracia que as deve financiar com transparência; qualquer desvio nos métodos alimenta os inimigos da democracia e indigna os seus defensores. O que foi dito sobre a indignação exclui os arrependidos em modo depois da hora difícil de escrutinar.

 

democracia

 

 

horas escolares

26.12.17
 
 
 
 

(a intemporalidade das reedições)

 
 
 
Primeiro que tudo – e convém esclarecer – horas escolares é uma questão pessoal. Não consigo resumos para tão pouco tempo. Sou pouco dado a coisas rápidas. Sonhei viver uma eternidade acompanhado das pessoas que mais amo. A angústia da luta contra o tempo desgosta-me. Feitios. Acima de tudo, confesso, gosto da solidão do meu pensamento. Aprecio a elaboração de ideias. É um prazer indizível. É francamente o meu jogo predilecto.

Falar das horas escolares, engloba a minha, já confessada, sedução pelo tempo. Pela sua inexorável voracidade. Mais do que a impossibilidade do eterno retorno, as aulas escolares sempre me pareceram um saltitar de jaula em jaula. Ensinámos, ensinamos e ensinaremos de acordo com os tempos que correm. Com tanta pressa, pela superficialidade ficaremos. Escolarizados e condenados, mas não sages.

Todos querem ter um lugar ao sol na composição dos programas escolares. Tanto há para ensinar. Incontestável e legítima ambição. Da intuição à retórica, tudo justifica a necessidade de tempos escolares.

Desde as associações científicas de professores aos sindicatos de docentes, passando pelos membros dos governos ou das respectivas oposições, todos advogaram a favor da redução do número de aulas escolares. Fez escola e foi consensual. O resultado de todas essas consultas e discussões teve, quase sempre, como resultado a manutenção de quase tudo ou o regresso a fórmulas determinadas pelos picos económicos ou ideológicos. Os argumentos repetiram-se. Até podemos imaginar um lapidar diálogo. Diz o docente da disciplina x: “Têm que reduzir o número de aulas escolares, nem sei como é que os alunos aguentam isto”. Responde o docente da disciplina y: “Sim, sim. Mas nas aulas da disciplina z, pois nas minhas, ou nas tuas, seria o caos, não te esqueças”. Tarefa inumana para o decisor.

Por tudo isto, ser criança em tempo escolar implicará uma percepção alargada e cheia de inúmeras imagens. A sua relação com os mestres será efémera. Curtos – muitos e intermitentes - períodos de concentração serão os segredos de uma boa aprendizagem: entretanto, pouco ou nada se sabe sobre a forma como cada um aprende. A figura do mestre perder-se-á na razão da sua multiplicidade.
A criança necessitará de recorrer a fontes mais velozes, associará ao desperdício de tempo a ideia do pecado original. Terá saudades do futuro?

Na ânsia do minimalismo economicista, projectado desde as nanoteconologias à magreza corporal, nada escapa a esse círculo estonteante. O “zapismo” da vida leva-nos a esta angústia. Andamos tanto para não sairmos do mesmo sítio (e, no entanto, a ciência avança, todos os dias).

É tudo curto, rápido e impreciso. Devorar o “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust, sete volumes, cerca de 4000 páginas em “times new roman” 09, ficará fora de qualquer programa escolar. É pena. A eternidade toda, paradoxalmente, em sete volumosos volumes.

Volta a ser, novamente, uma questão do universo pessoal. A única revisão curricular – e com as mais variadas posições horárias - está dentro de cada um de nós: um postulado para a eternidade, digo eu.
 
 
 


(Este texto não é inédito.
Publiquei-o numa revista da especialidade,
algures em 2000, 2001 ou 2002)

Da hiperburocracia escolar como causa do burnout

25.12.17

 

 

 

 

Pouco antes da mudança de milénio, o sistema escolar português começou a eliminar os tradicionais livros de ponto através de aplicações informáticas desenvolvidas, na maioria dos casos, por empresas comerciais. A prática generalizou-se e é consensual que cresceu a hiperburocracia digital (conjunto de procedimentos "exteriores" à sala de aula) como forte contributo para um dos problemas de saúde mais frequente nos professores: o burnout. Podia ser diferente? Podia.

Analisemos as três variáveis do livro de ponto: sumários, faltas de alunos e de professores. Como ponto prévio, sublinha-se que a passagem do analógico para o digital deve obedecer a outra filosofia de gestão. Provocar-se-á hiperburocracia se o pensamento analógico se sobrepuser na transferência e haverá produção de conhecimento e melhoria da atmosfera organizacional se o pensamento digital for conhecedor da gestão da informação. A passagem referida deve substituir a ideia de "acrescentar ou manter procedimentos" pela de "eliminar procedimentos".

Analisemos cada uma das três variáveis com um pressuposto: o registo de faltas de alunos e professores não tem qualquer relação com os sumários no pensamento digital. 

O sumário tem um valor didáctico e histórico e o pensamento analógico acrescentou-lhe um tempo de registo - momento de abertura e de conclusão, por exemplo - sem base docimológica. O tempo do pensamento analógico deve ser eliminado. No pensamento digital, o tempo de registo deve ficar ao critério do professor e do seu grupo disciplinar, que devem ainda decidir por um tipo de registo mais alargado no tempo (aula, semanal, mensal, por período lectivo, ou no final de unidades de ensino). Importa que a organização conheça os conteúdos efectivamente leccionados. Não é tolerável que a passagem acrescente constrangimentos procedimentais que retirem tempo e tranquilidade aos professores para as tarefas do ensino.

O pensamento digital regista faltas de professores e de alunos; a presença é, obviamente, a consequência do não registo da falta. Os registos podem ser feitos em tempo de aula e por WEB ou podem ser  lançadas por um assistente operacional ou administrativo.

Este pequeno exemplo pode ser extrapolado para dezenas de procedimentos que hiperburocratizam a vida deste tipo de organizações. Não basta mudar os instrumentos, é necessário pensar a filosofia de gestão.

O Velho e o Mar (4)

24.12.17

 

 

 

 

14163678_OWvne

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(1ª edição em 25 de Dezembro de 2012)

 

 

 

O romance "O Velho e o Mar"” (The old man and the sea), de Ernest Hemingway (1952), é uma obra-prima. 

Li-o pela primeira vez na adolescência, na época do "Moby Dick", de Herman Melville - o autor do também fascinante “Bartleby” -, e julgo que nunca mais o voltei a ler. 

 

É a história de um velho e pobre pescador que tinha uma forte amizade com um rapaz. Há muito que não conseguia pescar. Certo dia, pescou o maior peixe da sua vida. Voltou a terra apenas com o esqueleto do enorme espadarte porque não conseguiu impedir o furioso ataque de esfomeados tubarões. Reencontrei-me com a história e fiquei com a ideia que está tudo ali. 

Não resisto a transcrever-vos um pedaço da tradução de Jorge de Sena:


- Que tens para comer? – perguntou o rapaz. 
- Um tacho de arroz de peixe. Queres? – perguntou o velho. 
- Não. Como em casa. Queres que eu acenda o lume? 
- Não. Acendo-o eu depois. Ou como o arroz frio.
- Posso levar a rede? 
- Claro que podes.

 

Não havia rede, o rapaz lembrava-se de quando a tinham vendido, mas todos os dias representavam esta cena. Também não havia tacho de arroz, o que o rapaz também sabia. 

Pág. 1/4