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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Das utopias e do risco

25.10.17

 

 

 

 

Com todos os riscos de quem retira do contexto uma passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,

"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".

A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias e no combate às desigualdades atravessar todas as gerações, a decadência entranha-se; como a história, de resto, já nos explicou.

Quando o irreal se torna irrelevante

24.10.17

 

 

 

 

Um discurso que não apreende, ou desconhece, o real torna-se irrelevante. Se o autor for um governante e repetir a insignificância, a impaciência dominará os governados. Nas fases sobreaquecidas, como a que vivemos, os discursos sem sala de aula transformam bons conceitos escolares em objectos de arremesso e crispação. 

Os pontos?!

22.10.17

 

 

 

 

O Governo eliminará nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.

É consensual que a sucessão de "reformas estruturais" deixou o Estado, e a sociedade, sem norte. A avaliação do desempenho é um espelho dos desajustamentos. As avaliações no Estado (SIADAP) são um fingimento indesmentível e em 95% das empresas não existe.

Qual é, então, a questão técnica que exclui os professores? São os pontos, diz o Governo. Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa. Só que a menção é obtida, com quotas, numa escala de 0 a 10 pontos (por exemplo: 7.51 pontos é bom e 8.53 pontos é muito bom) e o professor muda de categoria ao fim de x anos (como nas restantes carreiras). Era preferível o Governo pedir desculpa aos professores por imitar os anteriores. Se a história da exclusão raramente nos falou de "perseguidos" por serem muitos, desta vez é mais surpreendente; ao fim de dois anos, regista-se a imutabilidade também nas questões não financeiras vigentes desde 2007.

 

 

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Página 13 da edição impressa do Público de 15 de Fevereiro de 2014.

O estudo que concluiu que a avaliação do desempenho não era praticada em 95% das empresas foi publicado uma semana antes, salvo erro.

Os sindicatos usaram, e bem, o argumento.

das coisas que deviam ser óbvias

22.10.17

dos trípticos escolares

20.10.17

 

 

 

 

Numa das fases escolares sobreaquecidas, uns "teóricos da conspiração" ligavam o crescimento repentino das cooperativas de ensino à privatização do sistema e à criação (2007) da ParqueEscolar.EPE (PEEPE); sumariando, o Grupo GPS, o Grupo LENA (que requalificou a maioria das escolas) e a PEEPE (com o território e o edificado de mais de 300 escolas). Ou seja, e segundo os conspiradores, bastaria a "reforma estrutural" de privatização da PEEPE - criada para boas contas orçamentais (o PR à época falava de boa moeda) -, para que o processo se expusesse à luz do dia como festa orçamental. 

Os "reformadores" mais mediáticos classificavam os "conspiradores" (que, ao que me recordo, se diziam defensores da não proletarização dos profissionais da educação) de avessos ao empreendedorismo de ponta, de despesistas lunáticos e de excessos de cidadania por exposição a zonas de conforto.

 

PS: tenho ideia que os teóricos conspiradores usavam o argumento de cluster (ou aglomerado territorial) que vai tendo fundamento. 

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Paula Rego.
Tríptico "Família".
Exposição "old meets new".
Casa das Histórias Paula Rego.
Cascais. 

Uma atmosfera agressiva

19.10.17

 

 

 

Há uma agressividade estrutural que passa pela irritação dos sectores mais à direita com os indicadores económicos e financeiros apresentados por um Governo com este suporte parlamentar e há uma agressividade conjuntural decorrente das eleições autárquicas onde o PS sacrificou (Porto e Matosinhos são exemplos) os entendimentos locais para obter uma leitura nacional que legitimasse uma governação que não venceu as legislativas. É, portanto, uma oportunidade para todo o tipo de exageros quando há catástrofes, principalmente para os espíritos fanáticos e altruístas; que são transversais. A leitura de Amos Oz ajuda a perceber. Num dos seus livros, "contra o fanatismo", pode ler-se:


"A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar... O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta"

das "reformas estruturais"

18.10.17

 

 

 

 

Já não consigo ouvir os repetidores da urgência das "reformas estruturais". Foram tantos os reformadores que o Estado ficou sem norte. Quem os ouve, até julga que aterraram ontem. No caso das escolas, que conheço melhor e que foram alvo de reformas do outro mundo, só não caem em calamidade visível porque a natureza é outra e a mediatização também. Aliás, se em vez de autarquias tentadas a "gerirem" empresas, escolas, hospitais e tribunais, elegêssemos autarcas com competências, responsabilidades e instrumentos para a gestão do território, talvez a agenda mediática não desolasse tanto. É evidente que essa municipalização obedecia ao questionamento de uma qualquer, e poderosa, norma-travão-oligárquica que explica tragédias visíveis e um sem número de invisíveis.

 

Nota: as incontestáveis alterações do clima não explicam a desertificação do interior nem o abandono da floresta e da agricultura. Num momento destes, seria bom que os protagonistas políticos olhassem para a história das suas organizações.

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PATRÍCIA DE MELO MOREIRA / AFP / GETTY IMAGES