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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

Não tarda e não haverá professores

25.10.17

 

 

 

Nem há dois meses escrevi assim:

 

"Ficaram professores por colocar? Sim; em poucos grupos de recrutamento é um facto. Uma passagem pelas listas dos professores não colocados, ou de reservas de recrutamento, regista um número reduzido (ou ausência) de candidatos para várias disciplinas. É uma tendência que se agrava e que abrirá telejornais. Com a "eterna" precarização dos professores contratados associada ao estatuto de cobaia na avaliação kafkiana (e de moeda de troca entre governos e sindicatos) e passando por um processo de desconsideração profissional, é natural que os jovens desistam de "ser professor" e que os menos jovens optem por outra actividade no país ou no estrangeiro. PS: se nada se fizer no estatuto dos professores do quadro, as condições de aposentação associadas ao burnout provocarão uma avalanche de insubstituíveis. Aliás, basta que o inverno se imponha."

 

Dá ideia que se acorda para um problema com duas décadas, mas que se acentuou na última com a degradação da carreira. Os alunos consideram os professores, mas não querem seguir a carreira e não frequentam a formação inicial. Da leitura seguinte, salienta-se a posição de um ex-ministro percursor da queda e que insiste nos argumentos que mais influenciaram o plano inclinado.

 

"(...)A renovação do corpo docente poderá tornar-se um problema sério para o país no futuro próximo. De acordo com um estudo realizado para o Conselho Nacional de Educação (CNE), com base no relatório dos testes PISA 2015 da OCDE, apenas 1,5% dos estudantes de 15 anos - a maioria dos quais com desempenhos abaixo da média - admitem ser professores no futuro. E esta crise de vocações para o ensino surge na altura em que se prevê que, face ao forte envelhecimento da classe, dois terços dos atuais professores se reformem nos próximos quinze anos.(...)

David Justino, presidente do Conselho Nacional de Educação,(...) o desinteresse dos alunos está relacionado com a "representação social dos professores", que perdeu relevância devido aos critérios de seleção dos que lecionam nas escolas: "Se nós não fizermos algo que permita que haja alguma seletividade no acesso a professores e critérios de qualidade na sua formação inicial, vamos ter problemas, porque cada vez mais a profissão de professor é vista como desqualificada", considera.

"O atual sistema, sendo aparentemente igualitário, não permite ao Estado fazer a seleção dos melhores", acrescenta, relembrando o estudo "De onde vêm os professores", também do CNE. "Esses dados já são assustadores, porque revelam que uma grande parte das escolas que estão a fornecer os maiores contingentes de professores, nomeadamente para o ensino básico e educadores de infância, não são necessariamente as escolas mais reconhecidas pelos seus méritos", diz.

Mário Nogueira, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), até concorda com a ideia de que a profissão está desqualificada. Mas não por falta de qualidade de parte do efetivo: "Essa é uma opinião do professor David Justino desde o tempo em que era ministro", lembra. "Se as escolas não têm qualidade, fechem-nas", desafia.(...)"

 

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Das utopias e do risco

25.10.17

 

 

 

 

Com todos os riscos de quem retira do contexto uma passagem, não resisto a citar Ulrich Beck (2015:22) "Sociedade de risco mundial - em busca da segurança perdida", Lisboa, Edições 70,

"(...)o risco constitui o modelo de percepção e de pensamento da dinâmica mobilizadora de uma sociedade, confrontada com a abertura, as inseguranças e os bloqueios de um futuro produzido por ela própria e não determinada pela religião, pela tradição ou pelo poder superior da natureza, mas que também perdeu a fé no poder redentor das utopias.(...)".

A perda da "fé no poder redentor das utopias" indicia um risco de decadência se não se circunscrever ao inevitável cinismo com que a maturidade olha para a prevalência do mal. Se a descrença nas utopias e no combate às desigualdades atravessar todas as gerações, a decadência entranha-se; como a história, de resto, já nos explicou.