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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

e lembrei-me de kafka

07.05.17

 

 

 

 



(1ª edição em 10 de Junho de 2007)

 
Iniciava o exercício, e o privilégio, de gestão de uma escola portuguesa: decorria o ano de mil novecentos e noventa e sete e o estabelecimento de ensino integrava um território de intervenção prioritário: ou seja, a escola estava rodeada por problemas sociais graves e isso inundava o seu projecto educativo.

Havia que arregaçar as mangas e consumir as energias todas no essencial.

Certo dia, recebo uma assistente social que, e ao que a memória me diz, representava os serviços sociais do ministério da justiça. Vinha com a firme determinação de ajudar a resolver um problema relacionado com uma família com as características da zona envolvente: a uma pobreza chocante, associava-se uma habitação degradada e só com um quarto; tinham sete filhos, salvo erro.

As minhas tarefas exigiam-me um alucinante desdobramento. Para ganharmos tempo, propus que os visitássemos: fomos a pé, a distância era curta, e conversámos sobre as soluções.

Estávamos em plena segunda-feira. Aproximámo-nos da habitação e quando nos preparávamos para bater à porta demos com um papel com a seguinte inscrição: "só recebemos assistentes sociais às 5ª feiras das 13.00 às 14.00".

Ficámos estarrecidos e sem palavras. Lá nos recompusemos, trocámos algumas opiniões sobre o futuro e partimos.

Mas não me esqueci da intrigante determinação. Tempos depois, encontro o pai da familia e interrogo-o: "fui a sua casa com uma assistente social mas o senhor não estava. Mas porque é que só recebe os assistentes sociais naquele dia?"

Respondeu-me prontamente:"sabe, o problema é o seguinte: passo a vida a receber assistentes sociais que vêm das mais variadas instituições; fazem-me inquéritos e mais inquéritos, querem saber tudo, devassam a minha vida toda e depois nunca acontece nada. E já lá vão uns anos nisto. Também tenho direito à minha privacidade. Sou pobre, eu sei, mas mereço algum respeito".

Teve, em mim, um efeito simultâneo: uma lição de vida e um redobrar de energias.

Macron e a esperança europeia

07.05.17

 

 

 

É inegável que a eleição de Macron representa a esperança numa alternativa que mantenha o estado social e a paz na Europa. A globalização associada aos offshores colocou as multinacionais num plano financeiro impossível de controlar nos territórios limitados dos governos; mesmo nos blocos como a Europa. A revolução tecnológica acentuou o domínio do financeiro em simultâneo com a afirmação das ideologias que capitalizaram numa Europa instabilizada pelos fluxos migratórios. O europeísmo entrou em crise. Como disse o filósofo francês Dominique Wolton, "a finança capturou a economia e a economia capturou a política". A Europa procura uma alternativa política para sobreviver e Macron renova a sentimento que há cinco anos acompanhou a eleição de Hollande. Desta vez, a decadência europeia está mais evidente depois da vitória do Brexit (e de Trump nos EUA?), agravada com os fracassos do citado Hollande, mas também de Renzi na Itália ou de Tsipras na Grécia. Contudo, existe a esperança portuguesa e adensa-se a expectativa com o que pode acontecer na Alemanha. Macron pode ser um passo em frente.