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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

a propósito do sistema dos EUA

11.11.16

 

 

 

Deixei o seguinte o comentário no facebook: "Que grande confusão neste post. São assuntos bem distintos. Estou surpreendido com o seu "hilariante". Parece que HC já vai com mais de 2 milhões de votos. Isso não merece ser discutido? Estamos no fim da história? Que relação é que isso tem com o desejo da geringonça ser bem sucedida. A geringonça teve mais votos do que a PàF, que concorreu coligada. O partido, sem coligações, com mais votos populares foi o que forma o Governo. E podia não ter sido, obviamente. Mas foi."

democracia representativa versus democracia directa

10.11.16

 

 

 

Não é a primeira vez que, nos EUA, vence o menos votado. Foi assim com outro republicano em 2000. George W. Bush obteve 47,9% e Al Gore 48,4% dos votos. Trump tem menos 233 mil votos do que Hillary Clinton. Não é um sistema de um homem um voto. É um sistema representativo (o detalhe tornaria o post enorme) que elege 538 grandes delegados nos 50 estados. Robert Schapiro, professor de Ciência Política na Universidade de Columbia, fala de um "sistema eleitoral abstruso. Uma alteração ao modelo do colégio eleitoral obrigaria a uma mudança da sacrossanta Constituição dos Estados Unidos, uma tarefa delicada. Este resultado questiona até que ponto é que o nosso sistema é democrático". A constituição dos EUA foi alterada 27 vezes desde 1789. A construção da democracia contraria o fim da história. Os detalhes são fundamentais. O voto directo deve substituir o representativo, com excepções do domínio da impossibilidade; obviamente. Visto a esta distância, dá ideia que o modelo foi construído a pensar numa sociedade de um só sentido.

PS: no mínimo, espera-se que o legado de Trump não seja tão trágico como o de Bush. Mas dá ideia que os humoristas não se vão queixar com uma alavancagem semelhante.

 

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É a democracia, mesmo que

09.11.16

 

 

 

 

"Varrer para debaixo do tapete" foi uma expressão acertada que ouvi de madrugada para caracterizar a descida valorativa dos arcos governativos nas democracias ocidentais. Não há tapete que encubra tamanha ganância e promiscuidade; dito assim para ser brando. É um dia triste. As pessoas que não frequentam as oligarquias estão saturadas de tanta defesa de um qualquer institucional e o quarto poder já provou que determina presidentes como quem aconselha sabonetes; com uma vantagem para os sabonetes presidentes: só precisam de aparecer muito, mesmo que ridicularizados ou trocando de opinião como quem muda de camisa. O problema pode estar mais nos dias seguintes.

PS: repito a imagem que usei num post de anteontem e nem é pela dificuldade na escolha de um shampoo+amaciador elucidativo. Repito a citação de Dominique Wolton nesse post: "a finança comeu a política".

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do dia seguinte

08.11.16

 

 

 

Sabemos que a diplomacia internacional se exerce no espírito das guerras. Podemos dizer o mesmo de algumas campanhas eleitorais. A eleição presidencial nos EUA é sempre disputada. Obama concretizou um momento histórico inesquecívelmas o tempo em exercício foi insuficiente para "resolver" a grave situação que encontrou no médio oriente. O pragmatismo das campanhas eleitorais tem exigências, mas gostaria que o dia seguinte não continuasse a alimentar a indústria do terror. No caso da desejada, e esperada, vitória de Hillary Clinton, espera-se que o Partido Republicano ouça as suas vozes democratas.

Ou seja, "a finança comeu a política"

07.11.16

 

 

O filósofo francês Dominique Wolton concluiu: "a finança comeu a economia e a economia comeu a política". Ou seja, se A é superior a B e B superior a C, logo, A é superior a C. É este o problema que se tem colocado nas eleições presidenciais nos EUAHillary Clinton está, como todos os políticos do sistema, tão ligada a um A que caiu em desgraça com a crise financeira de 2008, que qualquer Trump mantém a expectativa em relação ao resultado final. Mesmo que Hillary Clinton vença, como se deseja, Trump alarga um perigoso caminho. Há uma relação directa entre finança e tecnologia que explica estes fenómenos. Dominique Wolton "anda irritado com a aldeia global, dominada pela ditadura da tecnologia, denuncia as indústrias imperialistas do século XX" e alerta: "Se quisermos salvar a democracia, é preciso que a política regule a técnica". Não sei se Hillary Clinton tem desprendimento para o desafio, já que a "sua" finança, que comeu a técnica, comeu a "sua" política.

 

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O sucesso escolar e o curto prazo

06.11.16

 

 

 

 

A relação entre a qualidade das escolas e a ambição escolar dos alunos é directa e proporcional. Embora seja difícil encontrar estudos empíricos concludentes, uma vez que as variáveis em causa requerem avaliações sistemáticas e modelos consolidados, podemos afirmar que o grupo de alunos é decisivo para os indicadores de qualidade de uma escola ou de um sistema escolar.

 

A ambição escolar parece ser mais determinante do que as condições socioeconómicas, apesar de serem igualmente decisivas. Num país como Portugal, que, depois de quarenta anos de democracia, apresenta taxas elevadas de insucesso e abandono escolares, é natural que a desorientação, e a constante alteração de políticas, seja simultaneamente causa e consequência e se transforme numa espécie de autofagia.

 

Há um refúgio justificativo no longo prazo e com razão. Encontramos uma boa explicação se nos compararmos com países que eliminaram o analfabetismo no século XIX e mesmo que essas sociedades tenham registado oscilações nas condições socioeconómicas, a ambição escolar é assumida, intergeracional e constante. Contudo, esse aconchego da consciência não deve ignorar o curto prazo. Em meia dúzia de anos, numa escola ou no sistema escolar, é possível erguer algo de significativo ou destruir o que se construiu.

 

A par da ambição escolar dos alunos, podemos situar a confiança nos professores. Se esse requisito relacional é um metabolismo basal nas sociedades em que se generalizou a ambição escolar, torna-se ainda mais decisivo nas sociedades como a nossa onde se exigem cuidados redobrados. E não se pense que há aqui qualquer espécie de corporativismo.

 

A desconfiança nos professores é intuída pelos alunos (mais grave ainda em alunos muito novos e é também por isso que a gestão escolar é muito diferente numa universidade se comparada com um jardim de infância ou com outro ciclo do não superior), desautoriza as salas de aula, prejudica o ensino, afecta todos os alunos e origina a escolha das escolas pelos que têm ambição escolar.

 

A segregação social dificulta a eliminação do abandono escolar. A miscigenação dos diversos níveis de ambição escolar é tão determinante para a qualidade dos sistemas escolares como é em sentido lato para o crescimento da decisiva classe média que fortalece a democracia.

 

Em Portugal, regrediu-se acentuadamente na confiança nos professores. Foi um choque de desconfiança. Se a avaliação de professores e o estatuto do aluno estão na memória colectiva, e com efeitos que ninguém se atreverá a refutar, o modelo de gestão escolar seguiu o mesmo caminho.

 

1ª edição em 10 de Maio de 2012

da falta de tempo para brincar

05.11.16

 

 

 

 

Se não fizer isso conseguirá entrar na universidade? As duvidas na resposta a esta interrogação condicionam, demasiado cedo, os sistemas educativos. Aos seis anos começa a corrida de obstáculos que impede, desde logo, a eliminação do abandono escolar precoce. Com excepção dos países onde não se restringe o acesso ao superior, e em que o secundário é transversalmente estimulante, a regra nos restantes assume as interrogações: e se não fizer muitos trabalhos de casa desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não fizer exames a eito desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não tiver explicações desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não for desafiado por quadros de honra desde cedo conseguirá aceder ao superior? E se não tiver o tempo todo ocupado desde cedo conseguirá aceder ao superior? Para agravar a condição portuguesa, a sociedade ausente apresenta inúmeras famílias pobres que nem imaginam essa desinformada ambição escolar enquanto os informados do costume (alguém, com propriedade e humor, classificou-os de descomplexados competitivos) discutem ciclicamente a falta de tempo para os petizes brincarem.

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O Passageiro

04.11.16

 

 

 

 

Venho do imperdível e dilacerante romance de Han Kang, "A Vegetariana", e entro no prometedor "O Passageiro Walter Benjamin" de Ricardo Cano Gaviria. A literaratura é exigente mas inigualável. A construção da imagem do que vamos lendo é mesmo um exercício maior e isto escrito por um pequeno cinéfilo que vem de um duríssimo, mas não menos imperdível, "Julieta" de Pedro Almodóvar.

 

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