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Correntes

em busca do pensamento livre

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As tentações da reacção

17.10.16

 

 

 

"AS TENTAÇÕES DA REAÇÃO

 

Confesso que me parece impossível levar a sério as conversas da direita sobre o orçamento para 2017. Depois de quatro orçamentos e oito retificativos, de três chumbos do constitucional e de todas, mas todas, as previsões macroeconómicas erradas dos últimos quatro anos, a direita devia ficar de dieta de açúcar político durante pelo menos uma legislatura. Taxar-lhes a adição açucarada era o mínimo.

Interessa-me mais o interior da própria vaca voadora, as matizes das suas contradições e tensões. E nessas contradições, a menor não é a de ver o governo, ao mais alto nível, a assistir com aparente êxtase ao perorar de Maria de Lurdes Rodrigues sobre educação, anteontem, no ISCTE (a propósito dos 30 anos da Lei de Bases do Sistema Educativo), nada fresca mas rediviva, defendendo a municipalização da educação e criticando, novamente, e ainda que em modo sonâmbulo, os sindicatos, tidos como adversários da autonomia das escolas. Mas, mais importante ainda que essa crítica típica e politicamente doente, MLR não se coíbe de corroborar a ladainha reacionária da necessidade de revisão da Lei de Bases do Sistema Educativo, de que é mentor maior o ex-ministro da educação do PSD e atual presidente do Conselho Nacional da Educação David Justino… e tudo contra a direita.

MLR é uma reacionária científica no que diz respeito à organização da Escola Pública. Defende uma escola hierarquizada e autoritária (todo o poder concentrado num diretor escolar e categorias de professores organizadas hierarquicamente), panoticamente vigiada por um sistema totalitário de mensuração industrial e taylorista (estado de permanente mensuração e classificação produtiva dos professores), sem sindicatos ou entropia reinvindicativa (redução ao mínimo envergonhado do reconhecimento das organizações sindicais dos professores), com professores domesticados ao serviço da dominância política local (municipalização), seja ela a pequena ou alta burguesia paternalista, seja a pequena burguesia partidária, aliadas em forma de suposta legitimidade democrática, pilotando ferreamente a escola tornada espaço de amestramento e homogeneização (os pais e as forças “mortas” locais num conselho geral com poderes eletivos).

Do que aqui se trata é de toda uma inversão linguística de que MLR é notável cultora. A melhor forma de defender a escola pública da direita seria, para a ex-ministra da educação, transformar a escola pública num espaço social, cultural e organizacional… de direita.

Que o PS e o governo, ao mais alto nível, lá tenha estado a escutá-la atentamente, e que ambos se deem a um discurso híbrido e instável sobre a municipalização, a autonomia e a democracia nas escolas, é muito, muito mau augúrio e até perturbador, revelando que, passados estes anos todos sobre a Grande Destruidora, o PS não parece ter percebido verdadeiramente o que se passou, nomeadamente que os professores portugueses não se deixaram derrotar ou transformar, pelo menos completamente, em “lupenprofessorado”. E por isso fizeram o PS perder as eleições. Já aconteceu e pode tornar a acontecer. Não é uma ameaça. É uma constatação e uma previsão."

 

Francisco Teixeira

 

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