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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

da poesia de eleição

30.04.16

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil. Exige leitura repetida. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno, que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

  

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)

Da febre do despacho na organização escolar

29.04.16

 

 

 

Impressiona a febre do despacho na nossa organização escolar. Por mau centralismo ou por tiques de caciquismo nas propaladas ideias de autonomia e desconcentração, o que se evidencia no estado febril crónico é a desconfiança, a irresponsabilidade e, em sentido mais profundo, o facto de estarmos nos primeiros passos da gestão escolar propriamente dita.

 

Há vozes preocupadas com o "regresso" de Lurdes Rodrigues. Encontrei outro sinal desses tempos de muito má memória. Leio a proposta de despacho para a organização do ano lectivo 2016/17 que o Governo enviou aos sindicatos e detecto a "presença" do pesadelo Valter Lemos.

 

Ora leia:

 

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Do momento e dos estudos comparados em educação

28.04.16

 

 

 

Não posso estar mais de acordo com este post do Paulo Guinote sobre o assunto em título. Os estudos comparados em educação são muito difíceis e exigem muita prudência nas conclusões. A escolha da escola, e a natureza desta, parece ser mais um dos algoritmos do momento. A indisciplina escolar é outro clássico. O nosso sistema escolar caminha de forma circular e muitos erros (sim, erros crassos, cratos e rodrigueanos) são cometidos em nome de "verdades" não comprovados. Há uma década que a voragem se instalou e foi premonitória para o estado de desorientação em que estamos.


A formulação que a seguir volto a apresentar, e que escrevi há uns dois anos, parece-me sempre oportuna.


A história dos sistemas escolares evidencia: sociedades com mais ambição escolar e com meios económicos que a sustentem atingem taxas mais elevadas de sucesso escolar. É irrefutável. Podíamos até atribuir a essa condição uma percentagem próxima dos 90%. Ou seja: se conseguíssemos sujeitar 100 crianças a uma escolaridade em duas sociedades de sinal contrário, os resultados seriam reveladores. Deixemos esta responsabilidade nos 60% para que sobre espaço para os outros níveis.

Se testássemos 100 alunos em escolas com organizações de níveis opostos mas na mesma sociedade, esperar-se-iam resultados diferentes. Todavia, essa diferença não seria tão acentuada como no primeiro caso. As condições de realização do ensino (clima escolar, disciplina, número de alunos por turma e na escola, autonomia da escola, desenho curricular, meios de ensino) devem influenciar em 30% e são mais significativas do que o conjunto dos professores.

Se 100 alunos cumprissem duas escolaridades com 100 professores diferentes, os resultados deveriam oscilar muito pouco. É neste sentido, abrangente, histórico e generalista que se deve considerar os 10% atribuídos aos professores.

É também por isso que pode ser um logro absoluto que uma sociedade com baixos níveis de escolaridade consuma as suas energias à volta do desempenho dos 10% ou sequer se convença que basta mudar o conteúdo físico ou contratual dos 30% para que tudo se resolva. A componente sociedade é decisiva e se fecharmos bem os olhos podemos até considerar que 60% é um número por defeito. Mas mais: por paradoxal que pareça, sem os 10% nada acontece e não há ensino.

Do tribunal constitucional e da espiral descendente

27.04.16

 

 

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A espiral recessiva foi atenuada pela acção do tribunal constitucional. A história lá se encarregará de explicar. Talvez ajude a leitura seguinte:

 

"(...)O mesmo é válido na crise decorrente, em que uma das reações espontâneas à mesma é recorrer a uma diretriz de senso comum: "As dívidas têm de ser pagas!", "Não se pode gastar mais do que se produz!" ou algo parecido - e isto, claro está, é a pior escolha que se pode fazer, uma vez que, deste modo, se é imediatamente apanhado numa espiral descendente.(...)"

 

Zizek (2014:45),
em "Problemas no paraíso"

Sintaxe e semântica

27.04.16

 

 

 

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O texto de John Searle que se encontra no livro "Mente, Cérebro e Ciência" pode ajudar a explicar o desinvestimento (que também se expressa nas inutilidades que o poder central exporta incessantemente) na escola pública em Portugal.

Fica-se com a ideia que os sucessivos governantes não conhecem a semântica que envolve as escolas portuguesas: ficam, quando muito, pela sintaxe.

Ora leia. 


"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.
Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês? Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].
Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).

Globalização e capitalismo

26.04.16

 

 

"(...)Actualmente, um verdadeiro conservador é aquele que admite sem reservas os antagonismos e becos sem saída dos capitalismos globais, aquele que recusa o simples progressismo e que está atento à face negativa do progresso. Neste sentido, só um radical de esquerda pode ser um verdadeiro conservador.(...)"

 

Slavoj Zizek (2014:34),

em "Problemas no paraíso".

 

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Um bom retrato do 25 de Abril

25.04.16

 

 

 

"Em Portugal sabiam tudo, não tinham dúvidas e nem sequer podíamos fazer perguntas. Cheguei a Londres, fui investigar com os melhores do mundo e eles nada sabiam, estavam cheios de dúvidas e ávidos de quem os questionasse", foi mais ao menos assim que a investigadora da área de medicina descreveu a mudança da Faculdade de Medicina de Lisboa para o mais conceituado centro de investigação, na Grã-Bretanha, durante a ditadura portuguesa (finais dos anos sessenta).

 

É um retrato significativo. O país das trevas, do analfabetismo, da pobreza e dos sabichões, poucos, que constituíam a "elite", não desapareceu. Mais de quarenta anos depois, e com avanços inquestionáveis, Portugal ainda tem que gramar com a presença, por vezes devastadora, dos que sabem tudo. É evidente que evoluíram e até revelam uma ignorância: a atmosfera descrita pela investigadora.

 

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são 11x11 e no fim ganha a Alemanha

24.04.16

 

 

As elevadas taxas de insucesso escolar evergonham-nos e aumentaram nos últimos anos. O empobrecimento só podia dar nisto. Choca saber que, em 2014, 11 mil crianças reprovaram no 2º ano de escolaridade, o tal que o inferno da medição vai passar a aferir depois de inúmeros seminários, colóquios e horas mediáticas.

 

director-geral de uma tal de EPIS (empresários pela inclusão) que se dedica há muito ao apoio social a estudantes, também se choca e escreveu para o Expresso. E não se indigna com a fuga aos impostos através dos Panamás Leaks nem sequer com o empobrecimento. Toca ao de leve nos problemas das famílias e das comunidades e conclui no género "são 11x11 e no fim ganha a Alemanha": "É, pois, urgente transformar a escola dos seis aos dez anos". Não defendo um qualquer modelo de escola como fim da história, mas já se torna sei lá o quê ler vezes sem fim as mesmas coreografadas, e circulares, conclusões.

 

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Expresso, 1º caderno de 23 de Abril de 2016

"On bullshit”"

23.04.16

 

 

"On bullshit”" é o título do livro do filósofo americano Harry Frankfurt. Na tradução portuguesa ficou "a conversa da treta”". Apesar da enorme quantidade do fenómeno, não há, diz o autor, estudos profundos sobre o tema. 

Não existe uma teoria geral do “bullshit”, o que é paradoxal considerando a sua ubiquidade. Reconhece-se que é uma ameaça mais insidiosa para a verdade do que a mentira, uma vez que não tem qualquer preocupação com o rigor. O “bullshit” é objecto de uma estranha tolerância, enquanto que a mentira é vista sem benevolência. “A principal razão para o seu aumento é o facto da sociedade exigir que todos tenham opinião sobre tudo, mesmo sobre aquilo que desconhecem. É evidente que o mundo da comunicação social, e das redes sociais, constitui um abundante caldo de cultura “bullshit “”.  

 

 

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