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Correntes

em busca do pensamento livre

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contributos - "educar para um futuro pior"

14.05.15

 

 

 

Educar para um futuro pior

 

Cortesia de CVC. Colo o texto todo de Raquel Matos para sublinhar tão interessante argumentação.

 

 

"Enquanto professora universitária e mãe de três crianças dos 6 aos 12 anos, partilho a minha preocupação com as crenças e políticas de educação que se têm vindo a instalar em Portugal.

1. Há uma pressão enorme para o sucesso, desde cada vez mais cedo, por parte de pais, professores e diretores de escolas.

2. Esse sucesso é entendido como ‘ter boas notas’ e espera-se que todas as crianças tenham as melhores classificações. Ou seja, desafia-se o conceito de curva normal e as noções de média, mediana e moda que, tanto quanto sei, ainda se aplicam em estatística.

3. As crianças são, desde muito cedo, orientadas para o resultado sem serem motivadas para aprender.

4. Os programas das disciplinas têm-se tornado mais extensos e pouco sensíveis aos ritmos de aprendizagem.

5. As cargas letivas têm aumentado, porque os agentes escolares estão focados em garantir uma boa classificação das escolas nos famosos rankings e porque se assume que o melhor para crianças e jovens é estarem mais tempo na escola e terem pouco tempo livre.

6. Defende-se que fins de semana, férias e feriados são para estudar; que logo no segundo ano do ensino básico, as crianças devem preparar-se exaustivamente para os exames para que… não me ocorre outro motivo que não seja a boa classificação das escolas nos rankings ou o prazer dos pais em compararem as boas notas dos seus filhos com as notas dos colegas. Para a criança de 7 anos que passa os fins de semana a estudar em vez de descansar e brincar, não consigo antever que impacto positivo podem as classificações nestes exames ter no seu bem-estar e desenvolvimento, ou no seu futuro.

7. Na verdade, tenho dúvidas de que a orientação para as classificações elevadas possa garantir um futuro melhor. Percebo que o acesso ao ensino superior fica facilitado. Mas quem garante que estes jovens vão sair-se bem neste nível de ensino? Às universidades chegam, cada vez mais, jovens ansiosos (no sentido clinico do termo), focados no resultado e indiferentes ao processo. Importa-lhes conseguir uma boa nota sem ler um livro, sem participar em conferências e, se possível, sem assistir a muitas aulas. Porque não estão motivados para aprender. Porque o que sempre importou, dos 6 aos 18, foram as classificações.

8. Na entrada para o mercado de trabalho fala-se da importância das competências transversais. Na universidade entende-se então que é preciso diversificar as estratégias de formação e desenvolvimento dos jovens adultos. Por exemplo, formá-los para o pensamento crítico, depois de passarem anos num sistema de ensino que não o valoriza; ou proporcionar-lhes experiências que promovam competências sociais, quando até então pouco se apostou em mostrar-lhes que o valor das pessoas é um bem essencial.

Perante este cenário pergunto o que aconteceria se as cargas letivas não aumentassem, se não houvesse trabalho extra para favorecer as colocações em rankings, se se apostasse na motivação para aprender, se se promovesse o ensino artístico, se a relação entre alunos e professores não se cingisse à busca das melhores classificações, se pais e crianças estivessem mais tempo juntos. Não consigo pensar em consequências negativas. Porque seria uma aposta no que importa, que são as pessoas; são as crianças e jovens fantásticos, os pais, mães e professores atentos e dedicados.

Voltando à estatística, quero acreditar que a maioria partilha destas ideias e que estão nas margens da curva normal aqueles que continuam a apostar numa cultura de educação que não promove o desenvolvimento e o bem-estar dos nossos filhos, nem um futuro melhor."

 

Raquel Matos.

 

Docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto. A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico.

faltarão professores

14.05.15

 

 

 

Sabe-se que "um em cada três professores está à beira de um esgotamento e 37% com problemas de voz". São mais sinais do plano inclinado da profissão de professor a que se acrescenta o clima de indisciplina que transparece como vigente para a opinião pública.

 

Há menos de um ano, N. Crato disse, como "conclusão prática", que a existência de 26.500 candidatos para 2.000 lugares no último concurso de vinculação para professores contratados tranquilizava o MEC, e que, por isso, não haveria falta de professores nos tempos mais próximos. Subentendeu-se que o MEC pode continuar a tratar para além da troika os que estão em funções ou os que aspiram a isso. Sublinhou o argumento nas últimas entrevistas (há muito que não fala, realmente) a propósito do número elevado de professores em "fuga" através das rescisões.

 

Alguns dos que acreditaram em N. Crato tomaram como verdadeiro o seu discurso em nome da elevação do "professor". Imagino, e nota-se bem, a desilusão. A única medida de "elevação" que se conhece do ministro é, na sua tortuosa lógica, a prova de ingresso para os professores contratados. No resto, e mesmo nas questões muito remotamente financeiras, N. Crato nivela por baixo, com desconhecimento e recheado de preconceitos contra a escola pública.

 

Voltando aos 26.500 candidatos, e sem querer maçar os leitores com detalhes, é bom que se saiba que há grupos de recrutamento, como se diz agora, que a breve prazo não terão candidatos desempregados e muito menos alunos no ensino superior ou nos cursos do ensino secundário que indiquem essa preferência.