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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

mas queriam que a troika fosse "prá-vida"?

04.05.14

 

 

 

 

Mas a permanência da troika não era de três anos? Como a resposta é sim, é até admirável que se discuta sei lá o quê. Temos excedente e liquidez como nunca? Pudera. Na anterior entrada do FMI, passou-se meio subsídio de Natal para certificados de aforro e as contas entraram nos eixos. É verdade que a corrupção não tinha esta dimensão nem o Estado estava tão capturado pelos aparelhos partidários e é por isso que agora foram necessários três anos. Se não melhorarmos nesses aspectos, a próxima será de dez e com bancarrota.

 

Nunca tivemos FMI por tanto tempo e ainda por cima com um Governo que se afirmava para além da devastação. Até custa ouvir comentadores e opinadores a afirmarem que não houve cortes no Estado. Só na Educação, e na última década, fecharam quase 4 mil escolas (sim, leu bem), reduziu-se em 60 mil (sim, leu bem) o número de professores do não superior na escola pública (grosso modo, eram 160 mil em 2005, 100 mil em 2014 e um corte de quase 40 mil com a troika) e cortes salariais que em milhares de casos atingem 6000 euros anuais líquidos (sim leu bem; atingem, porque com tanta conversa de campanha eleitoral ainda alguém se convence que os cortes não estão em vigor sabe-se lá até quando).

 

 

 

 

 

 

Dos top performers e do fim da história

04.05.14

 

 

 

 

Já tropeçamos com o uso inchado da designação Top Performers (melhores desempenhos) e o futuro da classificação parece arrebatador como selo de qualidade infinita. Ainda há meses, e a propósito da subida de Portugal no PISA, um dos SE do MEC referia a obra dos nossos Top Performers que nos colocava algures no anelar Saturno.

 

Os Top Perfomers com significado no mercado total (TPSMT) fazem constar que dedicam horas e exclusividade ao treino intensivíssimo de operações lógicas: chegar vertiginosamente ao resultado é o desafio da vida. Há já quem associe o brutal preço da desigualdade ao desempenho insensível e de casino a um género de TPSMT como produto do mercado e da meritocracia (e, obviamente, também da falsificação), outrora os supra dos TPSMT; e não há na crítica qualquer menosprezo pelo esforço e pelo estudo livre e empenhado, apenas se olha para o estado do mundo e para a importância da insubstituível dimensão plural da humanidade.

 

O fim-de-semana encheu as primeiras páginas dos jornais com a batota dos privados nas notas de acesso ao ensino superior. Há quem advogue a escolha dos alunos pelas escolas do ensino superior (talvez agora, e com a ubiquidade da crise, os superiores se dêem ao trabalho) e se atenue a prevalência do mercado neste domínio tão determinante para as desigualdades.

 

Quem anda no terreno não se surpreendeu com as conclusões do estudo. São conhecidas e inúmeras as ficções. É conhecida a história do jovem que não aguentou e desabafou junto da antiga professora da escola pública: "O meu 20 a matemática no exame do 12º ano feito no colégio estava todo no quadro. Por favor, nunca diga que fui eu quem contou". É uma história arrepiante, relativamente recente e que compromete uma série de actores; o peso na consciência do infractor deixa marcas. Ficção ou não, este género de narrativa é vulgar. É todo um estado a que chegámos, que não pode ser ignorado e que exige medidas.

 

Estamos cansados de ouvir que "dos fracos não reza a história" como caminho para a meritocracia aplicada aos filhos dos outros. Este anuncio do fim da história é pouco rigoroso. Até na selva, e mesmo considerando as necessidades da cadeia alimentar, a cooperação é um valor precioso para a sobrevivência, para a superação do mal e para a felicidade da espécie.

 

 

 

 

Primeira página do Expresso.

 

 

 

Primeira página do Público.