Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

de 24 para 26

23.02.14

 

 

 

Quantas vezes lemos ou ouvimos uma ideia que parece que está a ler a nossa mente? Cruzei-me outra vez com o fenómeno, mesmo que naturalmente banal, quando ouvia na antena 2 uma reportagem sobre as "correntes d´escritas 2014". Escutei sensivelmente o seguinte: " houve, na nossa democracia, inúmeras pessoas que se sentiam cómodas, nos valores e nas convicções, na ditadura em 24 de Abril de 1974 e que a 26 eram revolucionárias. Isso criou um problema. Mantiveram as convicções e os valores pelo tempo fora e até fizeram uma espécie de escola".

 

Tinha 14 para 15 anos no 25 de Abril de 1974 e fiz nos anos que se seguiram alguma aprendizagem política: teórica e empírica, digamos assim, e não apenas através da passagem da ditadura para a democracia. Vivia em Moçambique, onde nasci, e participei em acesos debates a propósito do racismo, do colonialismo, do imperialismo e por aí fora. Depressa percebi as tais passagens de 24 para 26 com navegação sem alteração de valores ou convicções e foi exactamente o que fui encontrando em Portugal a partir de 1976. A confusa associação entre democracia e prosperidade ou entre democracia e oportunidade de negócio com desprezo pelo bem comum, atravessou os partidos políticos e beneficiou da mentalidade (associação de convicções e valores) de 24 que "legalizou" a corrupção que nos consome a democracia. A ideia de bem comum não prevaleceu.

 

Era evitável o fenómeno de 24 para 26? Como é que isso se tinha concretizado? Não foi exactamente essa passagem que garantiu a paz democrática durante 40 anos? São perguntas com resposta difícil.

 

Contudo, a ideia de arco da governação que uma determinada direita não se cansa de repetir mais parece um forma de exclusão dos valores e das convicções do 25 de Abril de 1974. Não milito em nenhuma organização de fora do arco (onde também há muito desse 24), mas intuo que a queda a que chegámos permite-nos afirmar que o estado vigente garante o 24 que está alojado nas organizações que compõe o tal arco e basta olharmos para os aparelhos partidários dos partidos que, à vez, governam.