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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

palavras vãs

12.02.14

 

 

 

 

 

Depois do aumento do número de alunos por turma, dos cortes curriculares a eito verificados em 2011 e do aumento da componente lectiva dos professores, falar de autonomia só não é uma palavra vã quando se corrigirem as variáveis enunciadas, quando terminar a contagem ao minuto dos horários escolares e quando se permitir à gestão das escolas ou agrupamentos uma distribuição racional e pedagógica do serviço docente.

 

Por exemplo, criar novas disciplinas esbarra de imediato nas palavras seguintes e mais ainda se não acontecer o que foi referido no parágrafo anterior.

 

“Esta liberdade de gestão da carga lectiva deve ter sempre em conta o cumprimento integral das metas curriculares e programas, bem como a carga horária lectiva total semanal e anual estabelecida para cada ano na matriz nacional”, ressalvou o governante.

 

 

 

analfabetismo motor e não só

12.02.14

 

 

 

 

 

 

É interessante a entrevista a Carlos Neto, presidente da Faculdade de Motricidade Humana. Até a ideia inicial do depoimento que classifica o recreio como "o lugar que resta" já não é válida. O tempo do recreio diminuiu muito e mesmo esse é vigiado por adultos.

 

"(...)O recreio da escola é o único local que resta às crianças para brincarem livremente. Um lugar onde estão por elas, entre elas, sem adultos a preencher-lhes o tempo. Os pais têm cada vez mais medo e mais medos. Têm medo que os filhos se magoem, que sejam roubados, que sejam atropelados, que sejam violados, que sejam raptados.(...)O tempo que pertence por direito às crianças, para fazerem o que lhes apetece, está a ser roubado pelos adultos e os miúdos estão a ser transformados em "crianças de agenda", num corrupio entre a escola, onde passam o dia inteiro, e as actividades fora dela, alerta Carlos Neto. Alberto Nídio, sociólogo da infância, descreve assim o que acontece no resto do tempo destas crianças:"Depois chega a noite e têm que fazer os deveres. Aos sábados, têm escuteiros, catequese, piscina. E aos domingos ainda têm que sair com os pais.(...)"

 

 

As cidades eliminaram há muito a ideia do espaço aberto para as crianças. Os parques minúsculos e normalizados que restam restringem as brincadeiras.

 

Carlos Neto categoriza como analfabetismo motor o cerne da sua investigação.

 

"(...)As crianças correm e tropeçam nos próprios pés, não andam para trás de olhos fechados sem perder o equilíbrio, têm um sentido de orientação limitado. Brincar na rua é em muitas cidades do mundo uma espécie em vias de extinção. O tempo espontâneo, do imprevisível, da aventura, do risco, do confronto com o espaço físico, natural, deu lugar ao tempo organizado, planeado, uniformizado(…)com implicações graves na esfera do desenvolvimento motor, emocional e social.(...)"

 

A situação é mais grave no sul da Europa. No centro e no norte do continente, e segundo os investigadores, os horários escolares prevêem várias horas diárias de brincadeira livre. Como se sabe, em Portugal os horários das crianças recordam os operários fabris com oito horas diárias na escola a que se seguem trabalhos de casa. Têm sido décadas de construção deste modelo. Ao analfabetismo motor referido associou-se a obesidade como outro problema grave de saúde pública. O tempo vai passando e não observamos forma, nem vontade, de contrariar as evidências.