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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

há dias assim, realmente

29.01.14

 

 

 

Eram 19h00, fui buscar o carro à oficina e o rádio estava na TSf com um debate sobre as praxes. Não me era estranha a voz feminina que proclamava coisas acertadas sobre a indignação com a violência física e psicológica entre jovens, de adultos para jovens ou entre adultos. O discurso era até especializado na faceta psicológica dos abusos. O moderador moderou e nomeou Lurdes Rodrigues, essa inesquecível promotora do bullying de um governo sobre um grupo profissional, que instigou a violência psicológica entre pares e que deixou escola. Há dias assim, realmente.

 

 

 

eduardo prado coelho (reedição)

29.01.14


 

Tive o privilégio de passar um bom bocado da tarde na praia da Foz do Arelho. Mais um dia limpo neste Outubro cheio de sol, embora um bocado ventoso: a forte corrente de ar convidou-me a reduzir para metade a caminhada junto ao mar e empurrou-me para uma das esplanadas. Tinha comigo o livro de Hannah Arendt "Entre o passado e o futuro, oito exercícios sobre o pensamento político" e o jornal Público: dei comigo à procura do "fio do horizonte" do saudoso Eduardo Prado Coelho.

 

Devo confessar que não há dia em que pegue no jornal e não me lembre de Eduardo Prado Coelho, mas, e desta vez, foi mesmo na convicção que começaria a leitura do jornal pela página três do caderno P2. Em vão, como se sabe.

Não sei encontrar explicações precisas para estes fenómenos, mas tenho bem presente que cruzei-me diversas vezes nestes mesmos locais com Eduardo Prado Coelho: observava o escritor, sempre rodeado de livros e a escrever ou a caminhar de um modo muito característico ou a realizar umas curtas corridas (sempre nas pontas dos pés, num jeito que evidenciava uma conhecida desabituação): hoje, a praia estava vazia e a esplanada também; talvez por isso, nem sei, desejei que o tempo recuasse.

Tenho por Eduardo Prado Coelho uma enorme admiração. Assisti a conferências, li alguns dos seus livros e saboreei imensas crónicas  na imprensa escrita.

Lembro-me bem da primeira vez que falei com ele. Não me recordo do ano mas tenho a certeza que foi no início da década de noventa do século passado.

 

Desafiei um amigo e fomos assistir a duas conferências sobre corporeidade na Faculdade de Motricidade Humana, na Cruz Quebrada. Os conferencistas prometiam - e ultrapassaram largamente as minhas mais optimistas expectativas - : Eduardo Prado Coelho e José Bragança de Miranda.

O edifício da faculdade está integrado numa zona verde lindíssima e a manhã estava calma.
Chegámos cedo: o átrio do anfiteatro encontrava-se, ainda, quase vazio mas Eduardo Prado Coelho já lá estava. O meu amigo conhecia-o e iniciámos uma interessante conversa a propósito dos estudos que esse meu companheiro estava a desenvolver. Por momentos, recordo-me de ter pensado: vai ser muito curioso ouvir Eduardo Prado Coelho - não devia medir mais do que um metro e cinquenta, mas pesava muito acima do recomendado para a sua altura - conferenciar numa escola, que estuda, entre muitas outras coisas, o modo de se obter a excelência no desempenho corporal.

 

Foi só esperar um bocado. Quando Eduardo Prado Coelho partiu para o que tinha a dizer, tive o privilégio de ouvir, com uma voz deliciosa e com uma ímpar sabedoria, a conferência mais marcante sobre o tema: encheu a sala, durante cerca de duas horas, com uma suavidade arrebatadora.
 

(texto escrito em 27 de Outubro de 2007)