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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

sócrates sobre o relatório PISA

08.12.13

 

 

 

Estou a ouvir o monólogo de José Sócrates na RTP1.

 

Como já se esperava, aparece a reivindicar os resultados muito bons da escola pública em 2009 que estagnaram ou baixaram em 2012. Nomeou o plano tecnológico para os alunos do 1º ciclo, as actividades de enriquecimento curricular destinadas a crianças dessas idades, a formação dos professores do 1º ciclo ou o plano da matemática que se generalizou apenas em 2009. Ou seja, omitiu que os alunos que realizaram os testes PISA em 2009 ou 2012 tinham cerca de 15 anos (em ambas as datas, obviamente) e que não beneficiaram de qualquer dessas medidas.

 

Mas mais: a escola pública que produziu esses resultados desde 1998, fê-lo sem o monstro da avaliação de professores, sem as divisões absurdas na carreira dos professores, sem o estatuto do aluno que instituiu a desfaçatez burocrática como desconfiança na palavra e na autoridade dos professores e sem o modelo de gestão das escolas que foi instituído em 2009.

 

Sócrates podia argumentar a seu favor, em termos de políticas e não destes resultados, com a educação de adultos, mas a má propaganda deu cabo desse bom programa. Sócrates podia argumentar, em termos de políticas e não destes resultados, com a requalificação das escolas, mas o pato-bravismo deu cabo desse bom programa. Sócrates podia argumentar, em termos de políticas e destes resultados, com a manutenção da carga curricular ou com o número de alunos por turma que herdou de Guterres, mas a má consciência não lhe permite fazer isso.

 

Sócrates desmontou bem o modelo sueco tão caro aos fanáticos do Governo actual e leu a declaração do ministro sueco que põe fim, e bem, ao devaneio. Só que Sócrates devia ter dito que foi no seu consulado que os privados que se financiam na totalidade no orçamento do Estado tiveram os maiores financiamentos da história. Podia até dizer que o corrigiu com Isabel Alçada. É verdade. Corrigiu, mas já foi tarde.

 

 

da velocidade e da história

08.12.13

 

 

 

 

Vivemos tempos tão velozes que nem as "narrativas históricas" escapam à voracidade. Bastam uns dois a três anos para que o revisionismo histórico se tente impor com a adulteração dos factos e a manipulação dos dados disponíveis. Não é nada de novo, mas o que apenas me surpreende é a velocidade com que se vão ajustando os discursos à volta dos testes PISA; tomando como exemplo esses relatórios por continuarem na agenda mediática.

 

Sobre Mandela passa-se algo comum, embora com um horizonte temporal mais distendido e com um impacto social e político incomparavelmente diferente. A velocidade com que se tenta canonizar o político é perigosa para a luta em defesa da democracia e dos direitos humanos. Desconhecer que Mandela foi um homem com defeitos e virtudes é injusto para o próprio. Mandela foi um político guerrilheiro e que lutou com as armas à sua disposição. Para além disso, e como sublinhei aqui, é fundamental perceber quem Mandela combateu e os motivos que o levaram a optar pela luta armada em detrimento da não violência. Tudo isso mais eleva o seu comportamento apaziguador que permitiu à África do Sul chegar à actualidade sem um banho de sangue generalizado.

 

É isso que leio no texto espantoso (o melhor que li sobre o assunto), que vai ao osso, de Roberto Carneiro hoje no Público, de que destaco um pedaço sobre as Comissões de Verdade e Reconciliação (CVR).


 

"(...)Faço o relato de um desses "julgamentos".

Um fazendeiro boer, homem rude e grotescamente inescrupuloso, fazia, do alto do seu 1,90 m de altura, uma descrição sádica do que fizera aos familiares de um jovem adolescente, com idade não superior a 16-17 anos, único sobrevivente do massacre levado a cabo na propriedade do primeiro.

"É verdade. Matei o teu pai à paulada. Quanto mais ele gemia, mais forte lhe acertava com o maço, na certeza de que o calaria. A tua mãe, que assistiu à morte do teu pai, cortei-a às postas, com que alimentei os porcos na pocilga. Às tuas duas irmãs, violei-as repetidamente e chamei os meus colaboradores directos para assistirem, e banquetearem-se de seguida com os corpos jovens e apetitosos que lhes oferecia, após o que as matei sumariamente, a seu pedido, em nome da preservação das suas honras."

E, continuava, por aí fora, caprichando numa prosa ignóbil, perante o nojo dos jurados, que, entre estupefactos e revoltados com tão animalesca descrição, se viam compelidos a escutar, indefesos, o incrível rol de barbáries e de violências em catadupa.

Findo o martírio de uma narrativa digna de uma besta repugnante, o presidente da CVR vira-se para o jovem negro, silencioso, por cujas faces rolavam grossas pérolas salgadas de um mar revolto que lhe invadia as entranhas, e interpela-o:

"Tens alguma coisa a dizer?"

"Sim", afoita-se o jovem, subitamente recomposto por uma notável serenidade.

Olhando de frente o sabujo criminoso, olhos nos olhos, diz-lhe numa candura de voz que nos deixou, a todos nós, gélidos: "Perdoo-te! (I forgive you!)"

Foi a estupefação generalizada na sala de audiências.

Encerrada a sessão pública, dirigi-me ao jovem que se mantinha cabisbaixo, a um canto, confortado por outros jovens amigos que, na circunstância, o procuravam animar após a duríssima prova a que se submetera. 

Num impulso irrefletido, interpelei o jovem: "Como foste tu capaz de perdoar àquele animal, àquela besta destituída de princípios de moral, àquela vergonha da espécie humana?" 

Respondeu-me ele: "O senhor é estrangeiro, não é? 

E, perante o meu assentimento de cabeça, rematou lesto: "Pois é. Não pode compreender. É que cada um de nós, sul-africanos, transporta dentro de si um pequeno Nelson Mandela". 

Dei-me subitamente conta, só então, de como a grandeza de alma do Madiba tinha modelado o espírito sul-africano elevando a capacidade de perdoar – de que ele dera testemunho eloquente – à condição estruturante da filosofia de vida do seu povo sofrido. E, mais, pelo exemplo superior, soubera fazer sentir a uma população ressentida, e ávida de vingança, que só no perdão se encontra a verdadeira e duradoura redenção humana! 

Escusado será esclarecer, que os jurados, longe do espírito reconciliador do Madiba, votaram por unanimidade a não-concessão de amnistia ao repugnante réu…"





ó lâmpada

08.12.13

 

 

 

 

 

 

 

A  lâmpada



Uma lâmpada cheia de azeite vangloriava-se,

uma noite, perante os que passavam ao pé de si,

que era superior à estrela da manhã,

pois projectava uma luz mais forte que todas.

De repente, sacudida por um sopro de vento

que se levantou, apagou-se. Alguém, que a reacendeu,

disse-lhe: "Brilha, mas deixa-te estar calada, ó lâmpada;

a luz dos astros, essa, não morre".


Bábrio

 



Antologia da Poesia Grega Clássica.

Tradução e notas de Albano Martins.

Lisboa, Portugália Editora, 2009. p. 465.

(1ª edição em 28 de Novembro de 2010)