Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

bosses

03.11.13

 

 

 

 

 

 

 



Bosses (chefões) é uma expressão muito usada na África Austral. Houve uns tempos em que aquelas sociedades imaginaram menos desigualdades e o termo parecia condenado ao desuso. Mas não. Regressou. Dizem-me que os moçambicanos, por exemplo, voltam a baixar a cabeça e a dobrar muito a coluna vertebral a uns poucos dos seus que se associam a outros poucos que regressam. Digamos que bosses e regressos andam de mãos dadas.

 

Estou sempre atento a imagens de Maputo. Já sabemos que a sociedade moçambicana está sobreaquecida, outro regresso, e que por lá se fez uma grande manifestação contra a insegurança dos raptos e a guerrilha que volta a estalar entre a Frelimo e a Renamo. Vi, nessas filmagens recentes, a zona da baixa de Maputo que escolhi para imagem. Bastou googlar Boss e Maputo para a encontrar. Os moçambicanos até podem ser classificados como uns doces (estas classificações são risíveis, claro), mas as imagens das desigualdades chocantes vão ficando gravadas e um dia não cabem na memória adocicada.

 

Não sei se o que se passou hoje, e que está documentado na imagem abaixo, é da mesma família. Foi na Avenida da República e em plena Lisboa. Se fosse na Avenida da Liberdade teria mais certezas. Talvez não seja familiar, mas se Portugal continuar a recuperar bosses e desigualdades poderá voltar a sentir na pele coisas "impensáveis".

 

 

 

 

 

editorial (20)

03.11.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Republico este Editorial escrito em 30 de Junho de 2013. Comecei a escrever o Editorial (21) e, como habitualmente, reli o anterior. Decidi republicá-lo e deixar o próximo para outra altura.

 

 

Escrever vinte editoriais em quase dez anos de blogue (este é o post 6821) dá uma média de dois pontos da situação por ano. Esta dedução não é rigorosa, uma vez que nos últimos anos fazia um balanço em jeito prospectivo por mês. Só que o último foi no longínquo 1 de Fevereiro de 2013 porque tenho respirado muito fundo para sobrevoar os meus estado de alma como verá a seguir.

 

Quem tem um blogue expõe-se. A escrita é um exercício de risco a que me habituei. Nos assuntos do sistema escolar não escapo à espécie de centralidade do espaço da minha localização física e, não raramente, vejo-me envolvido em turbilhões. Já nem me ocupa um segundo o estatuto de local-ghost. Escrevi noutras vezes e repito: "(...)como é a consciência que comanda as emoções e racionaliza as decisões, saio mais construído do que quando entro. As coisas pequenas ocupam o lugar da indiferença.(...)". E deixo passar o tempo, sempre o tempo, num dos exercícios que mais respeito: a quase infinita paciência.

 

A mistura do virtual com o real é um facto que se acentua. Já sabíamos da praga dos boatos, mas agora temos de aturar as invenções em forma de nickname que preenchem o vazio de quem não tem vida própria e faz do voyeurismo o único exercício de alteridade.

 

Há muito que me habituei às campanhas profissionais, mas o que vou registando é a impaciência dos que, nada tendo a apontar, se incomodam por não correspondermos ao que nos exigiam. Se isso até é de algum modo compreensível, o que se torna insuportável, mas também risível, é que demorem tanto a entender de vez quem faz da liberdade, no sentido pessoal e social, um modo de vida. Agrava-se quando sentimos que o que escrevi noutro editorial, "(...)Não me dispo do aconchego aos meus, nem da minha pele, como todos nós e procuro que não sejam atingidos pelas ondas de choque(...)", é uma evidência desrespeitada pelo grau zero da condição humana. E nunca me peçam detalhes porque, como sempre, só registo o que interessa.

 

Seria mais cómodo que a linha editorial de um blogue se restringisse ao puro prazer de escrever e de editar posts sem conteúdos relacionados com causas e com temas denominados de cidadania. No meu caso seria, mas não era a mesma coisa.