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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

escolas e supermercados

30.11.13

 

 

 

Estamos a criar escolas para ricos e escolas para pobres?


Quem diria que Maria Filomena Mónica responderia com um sim e até com conhecimento dos graves detalhes. Se há cerca de um ano lhe dissessem isso talvez considerasse um exagero; ela e muitos mais.

 

Ora leia o que recebi por email e que foi publicado no primeiro caderno, página 25, do Expresso de 30 de Novembro de 2013.

 

 

 

 

à volta da prova (2)

30.11.13

 

 

 

 

 

O histórico denominador comum do estado a que chegou a formação de professores do ensino não superior (os PENS) é conhecido: o desprezo das instituições do ensino superior (as IES), e do MEC, por essas carreiras. É injusto generalizar, mas é importante sublinhar que essa falta de estima foi sempre proporcional ao grau de ensino, com o primeiro ciclo e o pré-escolar em lugares de destaque.

 

Os erros históricos foram sempre denunciados.

 

Um colega e amigo, o Luís S., nasceu em Chaves e licenciou-se em História (1983, salvo erro) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Foi um activista da associação de estudantes e tentou que a licenciatura integrasse a profissionalização em ensino para concorrer para os quadros de uma escola de Chaves onde queria viver. Esforço inglório. O conselho científico da faculdade e o MEC foram passando a bola desresponsabilizadora e nada aconteceu. O primeiro argumentava que a sua vocação era a investigação e o segundo que não tinha competências para o impor às universidades.

 

O Luís S. concorria todos os anos à profissionalização (já com escassíssimas vagas) e viu poucos anos depois um ex-aluno seu do secundário entrar no quadro, sem culpa nenhuma, obviamente, à sua frente porque se licenciou com estágio na Universidade do Minho.

 

O Luís S., um professor já em mobilidade especial, manteve-se activista e consegui, uma década depois, um lugar de efectivo provisório, no Alentejo, que exigia a aprovação, em regime de telescola, pasme-se, numas seis cadeiras, algumas tão desmioladas como o exemplo de prova de acesso que pulula por aí, na Universidade Aberta (imagine-se um licenciado em História a ter a múltipla escolha para a distância das torneiras a sei lá o quê num laboratório de ciências experimentais ou a questões dos direitos das mulheres recheadas de preconceitos para a resposta certa).

 

Já com nomeação definitiva, viu-se ultrapassado por mais umas centenas de professores com estágio integrado porque o MEC decidiu que o tempo de serviço como professor provisório seria reduzido de um valor por ano na graduação profissional para meio valor (situação que continua a provocar injustiças a esses professores). Essa decisão visou beneficiar as pessoas formadas pelas inúmeras instituições (a ganância explica boa parte dos "cogumelos") que nasceram para formar professores e que integraram a profissionalização na formação inicial. Se o meu amigo tivesse nascido uma década depois, arriscava-se, mesmo com a profissionalização em ensino integrada na licenciatura, a ser contratado durante vinte anos consecutivos e teria agora que fazer a tal prova de acesso à carreira. Valha-nos não sei o quê. 

 

Não. Não se estranhe o silêncio ou a berraria apressada das IES (e repito: é injusto generalizar) nem a terraplenagem em forma de berço do actual MEC. Essa gente sabe muito pouco do país real e do seu interior. A culpa é dos PENS.

 

No próximo post sobre o assunto detalharei algum histórico sobre a formação de professores para o pré-escolar e para os 1º e 2º ciclos. É até neste último que o Luís S. é efectivo e continua a sofrer os atropelos referidos. Mas se fosse no 3º ciclo ou no secundário as injustiças eram quase iguais.

 

E, como referi noutro dia, o MEC lá vai conseguindo que se tergiverse e que não se discuta o essencial.

 

 

à volta da prova (1)

29.11.13

 

 

 

 

 

 

Leio algumas coisas sobre a prova de acesso para professores que me inquietam. Assiste-se a um arremesso de pedras impulsionado por esqueletos armazenados. Meti um (1) no título porque tenciono voltar ao assunto.

 

Para começar escolhi um post de 25 de Julho de 2012 que intitulei como "berço" e que tem tudo a ver com a discussão à volta da injusta, e inútil, prova de acesso. É que parece que há alguns que nasceram letrados, preenchidos por algoritmos e incapazes de assumirem erros históricos.

 


"Quando percebi que o actual MEC pensa em criar duas vias no final do 4º ano de escolaridade, para crianças com 10 anos idade, li-a como um requiem à esperança e um sério retrocesso civilizacional. Sabemos, e não ignoramos, a crise que atravessamos. Mas se associarmos este sinal ao que se tem passado com a estrutura curricular e com uma série de variáveis da organização do ano lectivo, concluímos que não só suspendemos a democracia como nos tornámos ingratos e regressámos ao berço-é-tudo.

 

Nos últimos anos têm sido raros os que se mostram convictos na defesa do nosso sistema escolar. Se os médicos têm indicadores que os consideram na vanguarda do profissionalismo, é bom que se sublinhe que foram formados no sistema escolar público. Se o CERN tem mais de uma centena de físicos de primeira água, é bom que se repita o sublinhado. Se tanto nos gabamos com a qualidade dos nossos cobiçados cérebros, não podemos fugir à verdade. Se ainda temos taxas de abandono escolar precoce que nos envergonham como sociedade, não temos outro remédio para além de continuar.

 

Mas não. O discurso da última década instituiu a ingratidão. Se não somos filhos de analfabetos, somos netos com toda a certeza. A democracia iluminou-nos, mas a ganância não é compatível com o conhecimento das humanidades e isso é trágico. Dos 1 a 2 por cento que se embriagam com o seu berço, só uma minoria coloca a democracia acima do egoísmo. Os sobrantes 98 a 99 por cento navegam como desesperados militantes em busca da entrada no pequeno elevador da oligarquia. A uns e a outros, a democracia pagará com lágrimas."

 



portugal e a metáfora do burro - um exemplo com reconhecimento em grande escala

29.11.13

 

 

 

 

 

 

 

A edição europeia do International The New York Times destaca hoje o burro mirandês


"Em Portugal, um burro de carga vive de subsídios". O burro mirandês, actualmente em risco de extinção, serve de metáfora para a situação económica, financeira e social do país que sobrevive de "subsídios europeus".(...)"Hoje não é fácil ser burro". Segue para a descrição da função tradicional do burro mirandês - a de ajudar os agricultores de Miranda - e para a eventual extinção da espécie tipicamente portuguesa, entretanto substituída por maquinaria moderna e tractores no cultivo dos campos.(...)"Depois de décadas de negligência e, dizem alguns, desentendimentos, o destino do burro começa a assemelhar-se ao dos humanos," que surge imediatamente esclarecida, "ameaçados pelo declínio da população e com a sobrevivência dependente, sim, de subsídios da União Europeia".(...)Raphael Minder cita o socialista e ex presidente da Junta de Freguesia e Ifanes do concelho de Miranda do Douro, Orlando Vaqueiro, para sustentar a ideia de que "Hoje não é fácil ser burro" em Portugal: "Precisamos dos subsídios para manter os burros, mas o resultado é que todos se tornam completamente dependentes deles, portanto não há espírito de inovação nem desejo de modernizar ou produzir mais".


Esta metáfora recorda-me um frase inesquecível de um professor da EBI de Santo Onofre, que começou como TEIP em 1993, quando os resultados das políticas educativas evidenciavam a queda do número de alunos de uma escola pública de referência que mantinha, e mantém, boa parte dos profissionais que a elevaram: "Compramos um burro e dizemos que oferecemos ensino equestre".

 

A lógica de mercado puro e duro na Educação, associada à ideia dos privados que se subsidiam exclusivamente no orçamento de Estado, explica o estudo de caso em que se transformaram essas escolas públicas e que de alguma forma foi detectado noutras áreas no artigo pouco rigoroso e algo injusto da edição europeia do International The New York Times.


 

desconstruir diariamente?

28.11.13

 

 

 

 

Muito francamente: isto já não vai lá com o esforço de alguns em desmontar diariamente as constantes epifanias do MEC. Não me perguntem o modus operandi. Não tenho as possibilidades visionárias de Mário Soares ou do Papa Francisco, mas compreendo-os. O comando virtual, e sem limites, do mundo financeiro não deixará pedra sobre pedra.

 

Há anos a fio que a torrente legislativa obriga os professores a desconstruírem o desmiolo. Estamos num novo pico. É a prova dos professores contratados, é a lei sobre a mobilidade e a requalificação que faz tábua rasa do que foi negociado no verão e são as vigências do aumento dos alunos por turma e da redução da carga curricular dos alunos. E podia estar aqui a noite toda a indicar os inúmeros atropelos organizacionais conducentes ao vergonhoso aumento do abandono escolar e à insuportável desesperança dos professores.


Repito: devemos desistir de desconstruir diariamente? Não digo isso. Mas só assim não vamos lá. Apesar do que se evitou (essas acções de luta são hoje reconhecidas como sensatas por quase todos), são mais as comprovadas negatividades que continuam por aí e que mereceram históricas manifestações e greves (e mesmo lutas jurídicas).




quem divide

28.11.13

 

 

 

 

"Uns exportam, outros manifestam-se", disse o irrevogável vice-primeiro-ministro no enésimo sound bite do seu frenético magistério.

 

Percebeu-se desde o início que este Governo colocaria os portugueses em confronto passando a mensagem de que quem se manifesta não produz. A crescente crispação das últimas semanas é a inevitável resposta dos adversários do Governo onde se inclui o derradeiro documento papal que parece dirigido à opus dei.

 

O além da troika é imperdoável e os convites à emigração e ao empobrecimento dilacerantes.

 

Há muito que se adivinham sérios problemas demográficos e percebe-se o silêncio embaraçoso dos governantes. Mas seria sei lá o quê reduzir aos últimos dois anos essa anunciada descida ao inferno.

 

A quebra da natalidade agravou-se com os jovens que "exportámos", 120 mil no último ano mais os imigrantes que regressaram aos países de origem, e pelas políticas que eliminaram a preocupação com a demografia. E até nisso a frase inicial do irrevogável é imperdoável. Ouvi-a e seguiram-se imagens de professores contratados (entre os 25 e os 45) em manifestação. São os sobreviventes da "exportação" em massa e do maior despedimento colectivo da história perpetrado por este Governo tão orgulhoso do feito histórico. Dizer-lhes que não produzem é acusá-los de parasitismo e isso só pode ter origem na mente de um governante incendiário e altamente perturbado com os resultados das suas, outrora abençoadas, correrias histéricas.

 

 

editorial (21)

27.11.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O blogue fará 10 anos em 25 de Abril de 2014 e este é o post 7206. Regista 21901 comentários. Agradeço essa generosidade, sentimento que é extensivo a quem passa por aqui sem o fazer. Quando olho para a coluna das etiquetas impressiono-me com o número de posts de algumas. O blogue derivou para as políticas educativas e isso estava longe das intenções iniciais.

 

Gosto de escrever. Ajuda-me a racionalizar o mundo e a soltar a alma. É um risco que me acompanhou antes do blogue e de que não desistirei depois dele.

 

Os blogues são uns clássicos das redes sociais. Sempre tentei não entrar numa espécie de obrigatoriedade e apenas os picos do exercício de cidadania exigiram alguns excessos. 

 

Reduzi a divulgação do blogue nas redes sociais e não repetirei alguns procedimentos. Vou estar por aqui, partilharei de forma automática alguns posts no facebook (encerrei a página "Correntes" e mantenho a pessoal) e fechei o twitter. Passei a ser muito parco no uso do email e do sms e deixei de responder às provocações. Só troco emails ou sms´s com quem conheça ou me inspire confiança.

 

"Gabo-me mais do livros que li do que tudo o que possa escrever". Esta frase de Jorge Luís Borges é um dos meus lemas. Nem sempre leio o que queria e quando o faço menos os posts saem com mais dificuldade. Bem sei que desenvolvi alguma técnica de escrever depressa ao longo destes anos que simplifica o imediatismo das análises, mas isso não invalida uma confissão: dos 7206 posts escolhia umas dezenas.

 

Nem tudo são rosas na blogosfera. Inquieto-me com a localização dos posts. É um fenómeno antigo e inevitável. Um leitor consegue fazer leituras que nunca nos passaram pela mente. Como sou professor e escrevo muito sobre Educação, há a tentação para inferir que me estou a dirigir a alguma instituição em concreto. É injusto. Se há algo que me caracteriza, é alguma coragem para dizer o que penso sem tibiezas; mas com respeito. Também me inquieto com as invenções. Mas, muito francamente: é peditório esgotado e desconfio que não é nada de novo. Parece-me que já nasci assim e sei muito bem que não é fácil o estatuto de "estar por conta própria" que é impensado para o mainstream

 

E repito o último parágrafo do editorial anterior: Seria mais cómodo que a linha editorial de um blogue se restringisse ao puro prazer de escrever e de editar posts sem conteúdos relacionados com causas e com temas denominados de cidadania. No meu caso seria, mas não era a mesma coisa.

 

 

 

mais negativo do que o tempo

26.11.13

 

 

 

Está muito frio, mas os graus que medem as políticas educativas devem estar uns graus abaixo do tempo e ultrapassam, com toda a certeza, a compreensão da termodinâmica ou da física estatística. Foi assim com os titulares, com os avaliadores, com os objectivos individuais, com as greves, com a participação na gestão escolar e por aí fora e é agora com os professores contratados (as históricas cobaias). O conselho para a inscrição na prova muda todas as semanas. 

 

A vida dos professores está há anos no fio da navalha que os divide e humilha. A génese do vexame está na insuportável desconfiança que considera os professores o problema maior do sistema escolar.

 

 

 

 

 

 

 

 

gémeos e afinidades

26.11.13

 

 

 

 

 

Não adianta lançar o argumento da razão antes do tempo, mas não custa avivar as memórias: quem esperava rupturas em domínios essenciais da educação - "no fundamental, domina a preservação do socratismo, a começar pela farsa da hiperburocracia acrescentada do aumento de alunos por turma e dos achamentos curriculares" -, estava justamente indignado com o que se passava e via esperança no bater de asas das primeiras gaivotas.

 

Seria surpreendente se a actual maioria percebesse a transcendência vital - até por questões financeiras que passam pelas reformas antecipadas que pagaremos fortemente daqui a uma década ou nem isso - da escola pública, como também me surpreenderia se o "novo" PS rompesse de vez com a trágica herança. 

 

Qual dos irmãos gémeos chegará primeiro à razão? Isso não sei. Talvez nunca lá cheguem e até admito esse realismo.

 

Prevejo que a sobrevivência da democracia passará pela coragem em assumir o inevitável. Quanto mais difíceis são os tempos, mais se impõem os atributos da mobilização e da cooperação; e a quentíssima primavera de 2014 está já aí.

 


(Já usei parte deste texto noutro post)

repitamos

26.11.13

 

 

 

 

A história não se repetirá exactamente, mas há uma ou outra semelhança entre o que vivemos e o PREC. Desde logo por causa da colectivização em curso, mesmo que de sinal contrário.

 

Há um aspecto que não sei se se repete: na actualidade há cada vez mais pessoas sem qualquer rendimento e que caem no registo "não-há-mais-nada-a-perder" e não me lembro se no PREC a situação era sequer parecida.


Mas houve, nas manifestações mais mediatizadas, uma tónica comum: no PREC tínhamos os MRPP, os AOC, os UDP e por aí fora que eram instrumentalizados, até internacionalmente, e que apareciam para criarem confusão e desmobilizarem as pessoas. É bom observar por onde andam principalmente os primeiros, os tais do MRPP, e isso leva-nos a pensar que haverá uns infiltrados preparados para fazerem o jogo do costume e com treinadores com décadas de experiência.

 

 

 

(Já usei parte deste texto noutro post)

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