Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

o guião dos eufemismos

31.10.13

 

 

 

 

 

Li o guião dos eufemismos e concluí que se usou um "recurso estilístico suavizador de ideias (desagradáveis ou grosseiras) por meio de expressões mais agradáveis".

 

Apesar de serem cerca de cem páginas, li até ao fim. Talvez porque usaram linhas muitos espaçadas, amplas margens, generosos cabeçalhos e rodapés e um tamanho de letra bem grande a pensar numa população já idosa que usa óculos para ler.

 

O guião assume-se como um ponto de partida, mas também concluí que essa opção é encarada por quem se interessa por estas coisas como uma partida mesmo: mas uma partida desta plêiade que, muito sinceramente, não se percebe como chegou ao Governo do país. Ou até se entende, pelo menos se olharmos para o estado a que chegámos.

 

 

 Fiz quatro imagens sobre as propostas para a Educação. Colei-as e fiz os comentários respectivos.

 

 

 

 

Um dos problemas mais graves da administração portuguesa é a dupla desconfiança dos cidadãos: num poder central que inferniza com má burocracia a vida das pessoas e das organizações e que foi capturado pelo poder financeiro e pelos aparelhos partidários e num poder local onde vezes demais impera o caciquismo e uma péssima gestão do território.

 

Esta proposta requer, desde logo, que se clarifiquem dois aspectos nucleares da carreira dos professores: o seu estatuto e sua contratação. A contratação deve obedecer à total transparência pública que é exactamente o contrário do que é praticado nas cooperativas de ensino que apoiam os mentores deste guião e nas autarquias que se têm mostrado mais interessadas na gestão das escolas do ensino não superior. Se esta municipalização da Educação avançasse sem os requisitos que referi, bastaria uma década para se instalar mais um caos organizacional e relacional nas escolas.

 

É mesmo sei lá o quê que alguém afirme que as escolas "têm hoje um modelo estabilizado"; é muito desconhecedor.

 

 

 

 

Assinalei com duas setas a vermelho a evidente confusão que vai nas mentes destes proponentes: ao projecto AAO segue-se um projetos DAO. Enfim. Deixemos o mais risível, até porque se publicasse a totalidade do guião enchia-o de setas semelhantes.

 

A consagração de "escolas independentes" é redundante. Se o Estado tem sido uma pessoa de bem, só a independência das suas escolas é que nos garantiu alguma igualdade de oportunidades.

 

A devolução das escolas aos professores é uma ideia antiga que tem sido aproveitada por esta ala do Governo para atingir o objectivo primeiro: alargar o número de escolas das cooperativas de ensino que no modelo proposto teriam sempre um histórico que lhes garantiria a primazia concursal. Pode contrariar-se essa tendência se o legislador garantir a concessão aos professores dos quadros das escolas exigindo que as cooperativas que se venham a criar não tenham qualquer ligação com as que existem. Contudo, estando o país neste estado de sub-financiamento, só se compreende esta proposta se se associar a ideia de precarizar ainda mais a profissão de professor o que até contraria o objectivo de elevar o nível salarial dos funcionários públicos inscrito no guião.

 

 

 

 

Esta ideia é estranha, realmente. Mais parece um qualquer acto desesperado tendente a garantir que só se toque no que existe numa segunda legislatura.

 

 

 

 

O cheque-ensino já foi muito dissecado recentemente.

 

A ideia generosa, praticada noutras latitudes na década de sessenta do século passado, não foi generalizável. O cheque-ensino era entregue a uma minoria de famílias muito carenciadas para que pudessem pagar as propinas em escolas com bons resultados. E a ideia falhou porque existe o factor de mobilidade geográfica associado ao número de vagas nessas escolas. Em Portugal aconteceria o mesmo. O que se pretende então? Financiar as propinas de quem já frequenta escolas privadas, o que aumentaria o orçamento do sistema escolar de uma forma injusta num tempo de cortes a eito.

 

Concluo com o mesmo parágrafo que usei noutro post na noite da propaganda:

 

Não vi a declaração do irrevogável vice-primeiro-ministro, mas mais logo espero ler e comentar. Li as páginas relativas à Educação e percebi que a investida privada (é isso que os encostados ao Estado ambicionam) sobre o sistema escolar é um dos pontos deste documento inspirado numa ideologia radical de direita que é uma subversão do Estado de direito.

 

 

a lição de filosofia de manuel maria carrilho

31.10.13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A lição de Filosofia de Manuel Maria Carrilho



 

Várias gerações, sobretudo depois de o positivismo do séc. XIX se ter afirmado no campo do pensamento, entenderam que a educação, a ciência, a cultura e o conhecimento em geral tornariam as pessoas e as sociedades melhores. A cada conquista educacional, mais uma luz brilharia sobre as trevas. O mal não era algo em si mesmo, como de certa forma defendera Santo Agostinho, mas a consequência da rarefação do bem.

Mais tarde, sobretudo com a II Guerra Mundial, os trabalhos de Hannah Arendt e romances como o de Primo Levi ('Se Isto é um homem') colocaram o mal noutro domínio. Haveria nele uma banalidade, uma possibilidade aberta a qualquer homem. Recentemente, as teorias sobre a convicção, em que trabalhou afincadamente talvez o melhor filósofo português dos últimos 50 anos e precocemente falecido Fernando Gil (irmão do também filósofo José Gil), voltaram a recentrar a questão: por que motivo duas pessoas com a mesma formação e a mesma vivência geram convicções e comportamentos diferentes? Fernando Gil, com quem tive o privilégio de privar, por via do também já falecido comum amigo José Gabriel Viegas (que foi crítico literário no Expresso), fazia-nos e fazia-se várias vezes esta pergunta. O seu livro a 'A Convicção' (de 2000, infelizmente mais conhecido em França) ensaia também respostas a esta pergunta.

Ora Manuel Maria Carrilho é filósofo, tendo sido aliás colega de Fernando Gil como professor na Universidade Nova e ultimamente adversários no campo das ideias. Carrilho também é doutorado em Filosofia, e como Gil também está traduzido em francês. Vem de famílias com conhecimentos e rendimentos elevados (o seu pai foi Governador Civil de Viseu e Presidente da Câmara da cidade). É um favorecido. Conhece o bem e o mal, há muito que deveria estar num estado civilizacional avançado. E, no entanto, as coisas que vai dizendo da sua ex-mulher Bárbara Guimarães (independentemente das razões que possam assistir a qualquer dos lados) são próprias de um primitivo ignaro. São lamentáveis.

Qualquer casal desavindo tem os seus exageros, mas ninguém tem o direito de arrastar publicamente o nome do outro (dos pais do outro - avós de seus próprios filhos) pela lama. Ninguém tem o direito de dizer o que ele disse sobre a vida íntima da ex-mulher. E ele, filósofo, ex-deputado, ex-ministro da Cultura, ex-embaixador, sabe bem a distinção entre o bem e o mal. Opta pelo mal, provando que este também é banal, demonstrando que existe a possibilidade de ele se inscrever em pessoas por mais demãos de camadas de verniz tenham em cima. A lição de Filosofia de Carrilho é que os nossos antepassados podem estar errados. Podem não bastar a civilização e o conhecimento para um homem (ou uma sociedade) praticar o bem.

Cada ser tem as suas possibilidades abertas e o livre arbítrio de escolher um caminho. O caminho de Carrilho, mais do que condenável é lastimoso. Apenas merece aquela compaixão devida aos que já estão condenados por crimes graves.