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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

não comentam ou estão contra os professores

11.06.13

 

 

 

 

 

Por mais que os professores militantes socialistas se esforcem por justificar, é evidente a negação mental dos dirigentes do PS, actuais e anteriores, quando se trata de professores como grupo profissional: não comentam ou estão contra.

 

Até me pode ter escapado alguma declaração favorável às acções recentes dos professores. Mário Soares, que em qualquer intervenção exige a demissão do Governo, referiu-se ontem à "fúria dos professores por causa do dinheiro"; quis dar razão aos professores, mas não sabe, naturalmente, do assunto.

 

Dos primeiros da estrutura, Seguro mantém o mesmo silêncio do tempo de Lurdes Rodrigues (não sei se continua, ao que se dizia, crítico veemente em off), António Costa é contra as greves às avaliações e aos exames e baralha-se na argumentação, Assis vai mais longe e parece um "Rosalino" a bombardear argumentos ultraliberais, Lurdes Rodrigues é a favor duma escola pública sem a praga de professores livres (diz que que não faz sentido "a discussão sobre a mobilidade ou dispensa de professores", mas legislou-a) e Sócrates conseguiu, no Domingo na RTP1, não emitir uma linha sobre as greves de professores embora tenha sido suficientemente maquiavélico: o Governo quer é despedir funcionários públicos.

 

Há um qualquer buraco negro que suga a escola pública das mentes até dos mais acérrimos acusadores da actual maioria. Escapam apenas as que não dependem dos "votozinhos-mais-poderosos", as dos desprendidos e as dos Marcelos Rebelos de Sousa (os professores têm toda a razão, mas deviam fazer uma greve simbólica; não consigo descortinar o alcance da sua bi-táctica e, se calhar, nem ele).

 

Os tais professores militantes socialistas sentirão, naturalmente, uma certa desorientação.

as greves prejudicam a escola pública?

11.06.13

 

 

 

 

É evidente que há muito que tudo isto prejudica a imagem da escola pública. Nuno Crato acabou de usar este argumento nas televisões e é a suprema ironia. O ministro tem-se esforçado no prejuízo dessa imagem e parece desorientado; naturalmente. Mas mais do que a imagem, as políticas de Nuno Crato estão a destruir literalmente o que resta do ensino público.

 

Vai recorrer da decisão do colégio arbitral e só podemos concluir: o direito, a democracia e o Tribunal Constitucional têm dificultado a revolução ultraliberal em curso. Nuno Crato continua a afirmar a razão dos professores e alargou-a a toda a função pública.

 

 

da blogosfera - parlamento global

11.06.13

 

 

 

Do verdadeiro prejuízo

 


"(...)E assim, senhores deputados, senhores ministros, meus caros concidadãos, estamos a caminhar para um futuro muito mais prejudicial para muitos mais alunos do que aqueles que vão fazer agora exame. Caminhamos para um futuro sem professores. E aqueles que houver, serão os menos qualificados, incapazes de entrar num curso “melhor”. Que ensino será, então, o nosso, com esses professores? Que será, então, dos nossos alunos?

 

Percebem agora o perigo do caminho que se está a seguir? Quem anda, afinal, a causar verdadeiramente prejuízo aos alunos?"




COLÉGIO ARBITRAL DECIDIU NÃO DECRETAR SERVIÇOS MÍNIMOS

11.06.13

 

 

"Foram goradas as expectativas de Passos Coelho e de Nuno Crato", diz o Público. Os professores, por decisão do tribunal arbitral, não terão de cumprir serviços mínimos no primeiro exame do secundário.

 

Para além disso e conforme se previa, a greve às avaliações está a ter uma adesão esmagadora e colocará em causa variáveis fundamentais da organização escolar.

willkommen mr. chance

11.06.13

 

 

 

 

Estava, na última sexta-feira, à conversa com a CJ e o LR quando a CJ introduziu um tema que desconhecíamos: Vitor Gaspar justificara a ausência de investimentos com a meteorologia. Ficámos incrédulos e o riso acentuou-se quando o LR se recordou de uma estória semelhante: "O Willkommen Mr. Chance (de 1979 e vai em alemão porque sim)" com Peter Sellers.

 

Já vai ver o vídeo, e ler um resumo do filme, e perceber como um jardineiro isolado do mundo real, compulsivo no zapping televisivo, lento e monocórdico no discurso e que falava literalmente de jardins, conseguia impressionar os poderosos deste mundo que "liam" os seus discursos como metáforas (o LR disse-me há pouco que são mais alegorias com uma ou outra metáfora, o que no caso Gaspariano é ainda mais perigoso) políticas.

 

E não é que a seta vermelha que encontrei no Público do dia seguinte fez a mesma associação? Asseguro que foi uma coincidência, mas é muito significativo.

 

 

 

 

 

 

"Imaginemos que um homem foi criado, desde que se lembra, na casa de um homem rico, em Washington, DC, onde aprendeu a cuidar dos jardins e a aguardar que as refeições lhe fossem servidas por uma empregada, Louise, sendo esta a sua rotina, dia após dia, ano após ano, até aos seus cinquenta anos. Sem autorização para sair da propriedade, sem documentos para comprovar a sua existência legal, esse homem vive completamente a sua identidade de jardineiro, conhecendo o mundo apenas através dos inúmeros televisores com que o misterioso “senhor idoso” dono da casa, ao longo dos anos, o presenteou. Habituado a observar e a imitar o que vê, mas não a agir nem a interagir com pessoas, controla a realidade mudando de canal constantemente, mantendo uma expressão neutra e um discurso pausado, vazio e monocórdico. Agora imaginemos que o “senhor idoso” morre, que a empregada Louise se vai embora e que a casa é fechada, à ordem dos advogados encarregados de fazerem o inventário. E que quando os advogados chegam, encontram aquele homem na sala, sentado à mesa, a mudar os canais do televisor enquanto espera que a Louise lhe sirva o almoço. “Being There”, título original do romance de Jerzy Kosinski e desta longa-metragem, é o título certo e um grande título.

 

Finalmente despejado, aquele homem, Chance, pisa a rua, aos cinquenta anos, pela primeira vez na sua vida. À primeira vista, nada de mal se nota nele. Pelo contrário, está bem vestido, talvez demasiado bem vestido e certamente num estilo demasiado clássico, com aquele chapéu de feltro cinzento, aquela mala de crocodilo, o sobretudo e o guarda-chuva, mas, se o seguirmos com o olhar enquanto o vemos passar e o observarmos melhor quando ele está de costas, revelam-se-nos as calças curtas de mais que descompõem grosseiramente a ilusão de boa apresentação das restantes roupas do “senhor idoso” que ele era autorizado a vestir. Gelamos pela redefinição de solidão dada por aqueles passos sem destino, por aquelas perguntas patéticas, pelas tentativas de mudar a realidade desagradável com o telecomando de televisor que trazia no bolso.

 

Mais pungente ainda se torna tudo isto se soubermos que o actor que interpreta esta quase não-entidade, esta espécie de cidadania de grau zero de consciência, é Peter Sellers, celebrizado por figuras incrivelmente cómicas como Harry em “O Quinteto Era de Cordas” (1955), Clare Quilty em “Lolita” (1962), o Doutor Estranho Amor no filme com o mesmo nome (1964), o detective chinês Sidney Wang em “Um Cadáver de Sobremesa” (1976) e, sobretudo, o inspector Jacques Clouseau na série de filmes da Pantera Cor-de-Rosa (1963-1978).

 

Por esta composição, Peter Sellers recebeu a sua terceira nomeação para um Óscar (a primeira foi para o de melhor curta-metragem, a segunda foi para o de melhor actor principal em “Doutor Estranho Amor”), novamente para o de melhor actor principal, mas pela sua única interpretação num filme dramático, avaliada por muitos críticos como tendo sido a melhor de toda a sua carreira. Não só não ganhou o Óscar (em nenhuma das ocasiões) como, cerca de dois anos depois de concluída a rodagem de “Bem-Vindo Mr. Chance”, morreria em consequência de ataque cardíaco, aos 54 anos.

 

É natural que o excelente cómico tenha ofuscado o actor dramático desta obra estranha de um Chance, "gardner" (jardineiro) transformado acidentalmente em Chauncey Gardiner, a cujo discurso vazio os poderosos acrescentam sentido, mas quer a vitória de um, quer a derrota do outro são peças preciosas para o cinéfilo dos filmes sem idade."