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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

fmi contamina a troika

29.06.13

 

 

 

 

 

O FMI já se penitenciou, mas para já só na teoria, pelos graves erros austeritaristas e agora é a troika que sai de Lisboa com dúvidas por causa dos professores. Saúdam-se os progressos de quem só tinha certezas. Bem suspeitava que não faltará muito para Portugal agradecer aos professores por mais esta lição de cidadania. Serão mais 115 mil comendadores com a ordem da Espada à Cinta.

 

E aqueles, mesmo no seio dos professores, que diziam que não era preciso lutar porque não haveria mais uma vaga com milhares de despedimentos colectivos e de horários zero, é só lerem com atenção o resto da notícia.

 

 

Para quem não está nas mesas de negociação entra a troika e o Governo e entre este e os sindicatos de professores (SP), fica uma impressão difusa. Já não se percebe quem da troika está do lado dos SP, quem do Governo está do lado da parte da troika que é contra os do Governo que são do lado dos SP, quem do Governo governa a troika para anular os do Governo que parecem ser do lado dos SP e podíamos estar aqui a noite toda em exercícios associativos que chegaríamos sempre á mesma conclusão: a força da razão dos professores uniu como nunca os SP e desorientou a troika e o Governo. E depois não querem que os professores se achem escolhidos tal a evidência dos factos.

 

Como também já sabíamos os professores estão menos isolados, mas mantêm a desconfiança. Habituaram-se a esse tratamento. É claro que continuam a ler coisas que já só merecem um encolher dos ombros. O cronista Tavares do Expresso não desiste de um dos seus pogroms (celebrizados neste notável texto de de JL Sarmento em 27 de Janeiro de 2008), embora, e como se verá seguir, numa versão mais atenuada. É impressionante como o cronista passa por cima do despedimento colectivo de milhares (pelo menos 15 a 20 mil em dois a três anos) de professores contratados (o contratado é um eufemismo que permite despedir pessoas que foram precárias durante dezenas de anos de serviço docente) ao afirmar que não há um funcionário público despedido. A exemplo da semana passada, colo apenas o fim da crónica.

 

 

 

 

 

 

da blogosfera - abrupto

29.06.13

 

 

 

A solidão das lutas

 

 

"Uma coisa os professores devem ter percebido, como os funcionários públicos perceberão, como os estivadores, ou os trabalhadores dos transportes, já tinham percebido. É que se quiserem resistir à avalanche que lhes caiu e cai em cima, estão sozinhos. A boca cheia da solidariedade é apenas isso, mas cada grupo profissional só pode contar consigo próprio para tentar travar a acentuada desqualificação da sua profissão, o reforço do autoritarismo de proximidade, de chefes e directores, os despedimentos colectivos, o aumento por decreto do horário de trabalho, a violação de todos os contratos e direitos. 
Pode contar com a hostilidade de uma parte da população, acirrada pelos inconvenientes das greves, pelo discurso de guerra civil do governo e por uma comunicação social que, mesmo quando é muito da esquerda festiva e cultural, muito simpática com o folclore dos “indignados”, é hostil às lutas, às greves e aos sindicatos. Um dia, uma análise do grupo profissional dos jornalistas, explicará muito sobre como as fraquezas da profissão originam um dos discursos mais masoquistas, muito próximo do discurso do poder.
 A solidão dos que reagem e não se bastam com manifestações de protesto que a mediatização trivializa, só pode ser invertida se os seus actos forem corajosos, unidos e massivos no âmbito profissional. Ou seja, com risco. Se mostrarem força, terão força e arrastarão consigo solidariedades que nunca terão com protestos “simbólicos”. E terão a simpatia de muitos que ou são indiferentes ou egoístas, porque, nesse momento, então sim, as lutas de resistência à iniquidade destes dias de lixo comunicam entre si. Nessa altura, polícias reconhecer-se-ão nos professores, e pessoal da CP e da Carris nos polícias, os professores nos estivadores, os funcionários públicos nos trabalhadores têxteis, os despedidos de uma fábrica nos reformados, os enfermeiros nos jovens à procura do primeiro emprego e nos desempregados de longa duração. O mundo do trabalho no mundo do trabalho."


Uma pessoa até se belisca a ler estas coisas.

do retrocesso civilizacional

28.06.13

 

 

 

 

 

 

A fuga ao estudo das humanidades acentua-se e é um elemento perturbador que indica um retrocesso civilizacional. Se será mais ou menos grave dependerá das tendências do futuro próximo. 

 

Sabe-se que cerca de 40% dos alunos que frequentam os Cursos Científico-Humanísticos não aspiram ao ensino superior. Em 2009, que são os dados mais recentes do MECe penso que a tendência agravou-se, os alunos desses Cursos já só eram 39% das pessoas matriculadas em "Educação e Formação" e dentro destes (não existem dados, a menos que não os consiga encontrar) imagino que 20%, se tanto, frequentam o de Humanidades. Dentro de uma década escassearão os professores para estas áreas, mas ainda mais grave será a eliminação do conhecimento e da investigação em saberes dos domínios da História, da Filosofia, da Geografia, da Antropologia e por aí fora e já nem incluo o Latim ou o Grego.

 

É evidente que quanto mais cedo (em relação à idade dos alunos) desprezarmos esses saberes nos currículos, mais se retrocederá. Em última instância, as escolas para ricos disponibilizarão currículos completos e as escolas para pobres especializar-se-ão em currículos alternativos, vocacionais, duais e por aí fora (as mudanças de designação parecem obedecer apenas a destinos financeiros com o aumento do mínimo de alunos para a constituição de uma turma).

 

Pode ver um quadro do link indicado como os dados referentes a 2009.

 

 

 

 

No mesmo site encontrará um relatório com a evolução de 2005 a 2009 donde retirei o quadro seguinte. Fazendo as contas e comparando com o quadro anterior, verifica-se que os números de 2009 não se equivalem. Mas vamos considerar que, no próximo quadro, o ano de 2009 refere-se a 2008/09 e o de cima a 2009/2010. A ser assim, a tendência de quebra acentua-se. Esperemos pelos dados de 2012 e 2013 e será ainda mais elucidativo quando olharmos para os de 2014.

 

 

 

 

 

 

 

do histórico assobio lateral

27.06.13

 

 

 

 

 

 

 

O ultimo relatório da OCDE, "Education at a Glance, 2013", já começou a silenciar a orquestra do anti-escola e anti-professores. Os indicadores evidenciam o que as nossas históricas taxas de iliteracia e abandono escolar já nos ensinaram: as nossas "elites" destroem, logo que possam, um qualquer esforço no sentido da escolaridade para todos; não aguentam muito tempo tanto desvario financeiro.

 

Os nossos professores já estão no topo das piores condições para preparar o ensino (mais alunos, mais horas de aulas, mais horas na escola para satisfazerem traumas diversos dos que têm horror a escolas e a salas de aula e num país em que o faz de conta fez escola e nos desgraçou) e têm a população discente menos "interessada". Os nossos indicadores de iliteracia voltam a contrariar a tendência interessante das últimas décadas e apenas na massa salarial há uma aproximação à média, mas mesmo assim com inexactidões e irrealidades que explicarei, sem ir muito ao detalhe, a seguir.

 

Mais do que afirmar que no citado relatório se constata que entre 2005 e 2011 a massa salarial dos professores subiu 12%,

 

(cada professor sente o inverso na conta bancária, mas tem de se considerar que a carreira eliminou, e muito bem, os três escalões mais baixos, que se criou um no topo onde não está ninguém e que houve uma fuga brutal de professores que estavam nos escalões remuneratórios mais altos; é evidente que se chega a este número dividindo o investimento bruto pelo número de professores por ano e não se comparam os valores de 2005 com 2011 em que se registou uma quebra acentuada),

 

o que me traz aqui é a data da amostra.

 

Os dados são até 2010 e 2011 e todos sabemos dos cortes a eito que se verificaram a seguir. Quando os relatórios incluírem 2012 e 2013 a tal orquestra terá apenas músicos especialistas num único instrumento: assobio lateral. Alguns até passarão para o novo processo revolucionário em curso e os mentores (Passos, Portas, Barroso, Gaspar, Rosalino, Rodrigues, Sócrates, Constâncio, Cavaco e por aí fora) estarão a coberto de uma qualquer comissão europeia (se ainda existir).

 

 

 

do balanço da greve (2)

26.06.13

 

 

 

 

Os balanços desta histórica jornada dos professores são diversos.

 

É evidente que a devastação a que têm estado sujeitos o sistema escolar e o estatuto profissional dos professores já tem uns anos e ficou intocável (não os vou enumerar pela centésima primeira vez e desculpem-me).

 

Como sempre se disse, o denominador comum entre os professores é forte (se calhar até diminuíram os motivos de desunião e estamos numa fase elevada de coesão) e isso é um importante aviso às navegações do presente e do futuro. Há os que entendem que as greves deviam continuar até se atingir o cume, embora achem que o prolongamento desta semana seja escusado e que apenas serve a estratégia da CGTP na luta contra o Governo e estas políticas. Regista-se a contradição. Na minha opinião, teriam terminado no momento do entendimento para vincar bem a vitória dos professores e a greve geral de 27 é já outro assunto onde milhares de professores não terão sequer serviço distribuído (e que me desculpem os sobrecarregados correctores de exames).

 

Perguntam-me: mas terminar sem as questões fundamentais resolvidas? Tendo em conta as circunstâncias, é mais do que razoável. Bem sei que se eliminou a memória, mas nunca pensei que já nem um mesito ou dois se conseguisse recuar.

 

Senão vejamos: alguém duvida que os professores do quadro teriam uma mobilidade de 200 kms com escolha da escola por parte da administração central? Alguém duvida que a componente lectiva ia ser aumentada em 2 ou 3 horas com a passagem para 40 horas e que existiria uma exclusão lectiva das direcções de turma? Alguém duvida que os professores com mais idade ficariam sem a justa redução da componente lectiva (a legalidade com este Governo já se sabe o que é)? Alguém duvida que as eufemísticas requalificacões se aplicariam já em Setembro como ante-câmara do despedimento de milhares de professores (e de mais fugas para a reforma com brutais penalizações) que se somariam à tragédia de mais uma vaga de desemprego para milhares de professores contratados?

 

O que se conseguiu foi pouco? Se se renovou a esperança de milhares de contratados e se se atenuou a dor de milhares de professores do quadro, não foi pouco não. Sim, é pena como disse Wittgenstein, que a linguagem não transmita literalmente a dor. Às tantas, e como alguém disse, a esmagadora adesão dos professores deveu-se ao facto de ninguém se sentir a salvo. Que seja. É também, e por incrível que pareça, um excelente sinal para o futuro da resistência do grupo profissional a que me orgulho de pertencer (e se pertencesse a outro teria decerto o mesmo sentimento).

 

 

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