Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a verdade nua e crua

04.11.12

 

 

 

O programa que acabo de ver na SIC generalista sobre os 10000 professores desempregados, o maior despedimento colectivo da história, responsabiliza um Governo que decidiu esmagar as escolas públicas portuguesas e que o fez com base numa série de achamentos de Nuno Crato. O aumento do número de alunos por turma, a nova estrutura curricular, o aumento dos horários dos professores, a gestão escolar e por aí fora empurraram milhares de jovens adultos para este flagelo, que demonstraram nesta reportagem uma elevada profissionalidade e um comovente amor ao país.

 

É importante que os canais generalistas passem programas destes no horário nobre e que façam o serviço público que parece estranho à administração da RTP1. Veremos o que o futuro nos reserva, acreditemos que programas destes tenham consequências e que a opinião pública vá percebendo que os professores portugueses não são apenas a tal corporação que atrapalha os descomplexados competitivos.

 

A referência ao tempo, e à sua supressão, foi bem tratada. Se se disser a alguém que um professor português tem um horário de mil minutos (é tudo em milhares) por semana com uma sobra de vinte que deverá ser somada ao longo de várias semanas para que se possa operacionalizar mais tarde, recomendará aos mentores um qualquer internamento e que encontrem rapidamente a mesma porta por onde entraram.

é a política, estúpidos!

04.11.12

 

 

 

 

 

A imagem que escolhi corre as redes sociais e tem sido partilhada por pessoas de esquerda. É uma adaptação de um texto de Brecht que nos últimos anos tem sido muito usado, também no original, por professores.

 

Dá ideia que o perigo totalitário avança em passo acelerado e é bom recordar a oportunidade perdida por boa parte dessa esquerda que apoiou os governos de Sócrates (o silêncio ensurdecedor é uma forma de apoio). A memória obriga-me a perguntar: onde estavam estas pessoas de 2005 a 2010?

 

Mudámos de Governo e a deriva totalitária acelerou. As cedências graves que antes denunciámos estão na ordem do dia e agravaram-se. A encenação política com o inferno dos números evidencia-se e agora, como antes, nota-se o desespero do mundo financeiro que caiu com o imobiliário e com a construcão civil e que lança as garras aos denominados sectores sociais. Vale tudo. Basta passar os olhos pela imprensa do fim-de-semana para constatar o óbvio: o sistema escolar público não tem o apoio do mainstream que tem governado.

 

Mesmo que o último relatório do tribunal de contas diga que os números de 2009 desfavorecem o sector público se se considerarem os cortes de Nuno Crato e que a realidade nos mostre que no segundo semestre de 2012 foram despedidos 10.000 professores, a coreografia dos actuais mestres do tacticismo político que dominam os partidos do arco do poder afirmarão o despedimento de mais professores de duas formas: por declaração ou por silêncio.

memória em regime dual

04.11.12

 

 

 

 

 

A vida é curta é uma afirmação ainda mais acertada se pensarmos na "impossibilidade" de gravarmos na primeira linha todos os episódios e talvez isso origine outro fenómeno que nos desgosta vezes demais: a memória curta.

 

O regresso ao passado quando estamos desorientados nas políticas educativas é muitas vezes considerado um lugar seguro. Recorremos ao que julgamos conhecer e pomos de lado as circunstâncias em que ocorreu. Passa-se muito isso com a suspensão da democracia e com o desdém dos direitos adquiridos. A história devia remeter para o presente mental a dureza da conquista dos direitos. Se a linguagem conseguisse transmitir a dor histórica das lutas, a noção de equidade veria mais vezes a luz solar.

 

A ideia do ensino dual a partir dos treze anos, já teve adeptos a estabelecer o marco para os dez anos, é aplaudida pelo pragmatismo, mas pode ser perigosa.


Quantos de nós não estariam impedidos de aceder aos saberes civilizacionais que nos fizeram crescer como democracia se Portugal não tivesse questionado o ensino dual mesmo com todas as desvantagens que se podem apontar quarenta anos depois? Se ainda estamos com quase 30% de abandono escolar precoce e se a alfabetização ainda é, em termos históricos e geracionais, demasiado juvenil, há argumentos fortes para afirmarmos que provocaremos um retrocesso civilizacional.

 

Ter no sistema escolar saídas curriculares adaptadas para os casos de insucesso escolar repetido ou ensino profissional a sério, são medidas democráticas muito diferentes da generalização de um ensino dual como dá ideia que se pretende copiar do modelo alemão. Para além de tudo, era fundamental que soubéssemos como vamos recuperar a economia e em que áreas vamos apostar.


O que mais custa observar é que os defensores deste tipo de caminhos misturam-se com os que beneficiaram sem escrúpulos da privatização de lucros no ensino superior e que pretendem alargar a ganância aos outros graus de ensino. Esta última constatação tem uma importância dual: o desemprego em massa dos nossos jovens licenciados é usado com argumento forte para esta corrida desesperada em direcção ao modelo alemão e os mentores nunca poderão dizer que não foram avisados, mesmo com as limitações da memória.