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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

coisas a prazo

15.10.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vi a conferência de imprensa de Vitor Gaspar e fiquei com a sensação que a queda tem sempre mais um patamar abaixo de zero. Às perguntas sobre despedimentos na administração pública, o ministro das finanças passava a palavra ao SE Helder Rosalino (se bem me lembro é esse o nome e não me apetece confirmar ou infirmar).

 

O SE respondia de forma mais acelerada e, por vezes, subia o tom quando justificava o corte nas pessoas. Para tornar mais audível a sua argumentação, incluía uma asserção inevitável: é assim que as empresas fazem.

 

Pois. Os tayloristas, mesmo que abrandados com o empowerment (delegação de poderes e participação) e com o downsizing (achatamento das organizações), acham-se o fim da história e convenceram-se que são menores os que dizem que há outros mundos que requerem sistemas organizacionais diversos. É a tragédia conhecida: governantes demasiado a prazo a decidirem sobre pessoas a quem outorgam o mesmo estatuto.

duas relevâncias

15.10.12

 

 

Ainda sobre os últimos rankings de escolas, o Público disponibiliza uma base de dados interessante e o Rui Ferreira escreve, no blogue de Octávio Gonçalves, um texto imperdível sobre o assunto.

 

Rankings das Escolas 2012

Li tudo ao pormenor e até fiz uma ficha de leitura (mais uma).

A conclusão é mais que a esperada numa realidade caracterizada pela complexidade e dinâmica dos fenómenos que ocorrem:
 
1. Tendo obviamente vantagens que jamais poderão ser escamoteadas, a divulgação dos “Rankings” cavará ainda mais o fosso na assimetria já observada entre as escolas. “A missão é difícil e os rankings não ajudam nada” (Tuna, pp. 18). 

2. Mesmo com a inovação apresentada este ano, os rankings sofrem de uma patologia congénita e sem tratamento, pelo menos para já, entre outras, “haver dois ou três alunos mais interessados numa turma de 15 faz a diferença” (Ribeiro, pp. 20), “bastam 4 ou 5 alunos terem melhores resultados para alterar logo a média” ou “três ou quatro pais mais sensibilizados, mais colaborantes, ela acentua-se” (Rodrigues, pp. 20) e “como temos poucos alunos os resultados são voláteis” (Sampaio, pp. 21). 

3. Os fatores socioeconómicos são preponderantes no (in)sucesso escolar dos alunos. Os gráficos apresentados são esclarecedores. “Os alunos que têm bons resultados são oriundos de famílias bem estruturadas e com condições económicas equilibradas” (Pereira, pp. 2), “A situação social das famílias e da comunidade envolvente tem enorme influência nos resultados” (Viana, pp. 3) e “existe uma elevada influência do contexto cultural e socioeconómico sobre os resultados dos exames” (Azevedo, pp. 5). 

4. Se tudo pode ser mensurável e, por conseguinte, justificado, qual a razão de existirem escolas abaixo e acima do esperado? Mais complexo ainda, qual o motivo que leva uma escola (e são muitas) a subir ou descer cerca de mil lugares de um ano para outro? “Não mudaram nem os professores nem as estratégias de ensino, o que mudou para que a escola saltasse 984 lugares foram os alunos” (Basílio, pp. 20), “os professores são os mesmos mas mudou o público” (Pimenta, pp. 21) e “tem mais a ver com as características pessoais dos alunos e com o funcionamento do grupo” (Vieira, pp. 20). 

5. Da parte da escola, os professores devem nortear a sua ação tendo como referências principais as questões pedagógicas e científicas. 
Ou seja, nada que ainda não se soubesse. Entre muitos, Almeida e Ramos (1992), Benavente et. al. (1994), Sousa (2003), Janosz, Le Blanc, Boulerice e Tremblay (2000), Abbot, Hill, Catalano e Hawkins (2000), Lee e Ip (2003), Christenson e Thurlow (2004), Nowicki, Duke, Sisney, Stricker e Tyler (2004) Beekhoven e Dekkers (2005), a redução do insucesso e abandono escolar apenas poderá ser perspetivada a partir de uma intervenção que abranja todos os sistemas em que o aluno está inserido, o seu sistema familiar, a escola e as políticas educativas a nível nacional. 

Mais uma vez os políticos não ficam bem na fotografia. A nós, aos professores, só nos compete aplicar a política, de preferência, calados. “Mas o que é ainda mais grave é que se criou um lastro escorregadio e muito perigoso de facilitação e até incentivo à proliferação de uma agenda que está a fazer da escola pública uma escola selectiva …” (Azevedo, pp. 5). 

Rui Ferreira

o óbvio é interessante

15.10.12

 

 

 

 

Tinha escrito que não fazia mais textos sobre os últimos rankings de escolas, mas não deixo passar uma peça do último Expresso sobre um antigo liceu da capital que se situa bem perto do parlamento: o Passos Manuel.

 

 

A sua posição no ranking é descrita assim:

 

 

 

 

A actualidade caracteriza-se mais ou menos da seguinte forma:

 

 

 

 

As causas são descritas assim:

 

 

 

 

A primeira conclusão é óbvia: Portugal é um país muito desigual e os concelhos têm realidades muito diferenciadas. Não é preciso sair do país para encontrar de tudo um pouco, até no sentido da lógica de mercado ou da escolha da escola. As análises dos resultados dos alunos em exames são instrumentos que deviam servir para percebermos que muito se joga a montante das escolas e dos professores, que temos um longo caminho a percorrer para eliminarmos o abandono escolar (cerca de 40%, ou mais, dos alunos que iniciam o 1º ano de escolaridade não realizam exames do 12º ano).

 

O exemplo do Liceu Passos Manuel possibilita um conjunto muito interessante de reflexões.