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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

gralha?!

23.07.12

 

 

É interessante a notícia de hoje do Ionline sobre a o financiamento do Estado ao ensino "privado". Para além de outros aspectos, o jornal escreve que "(...)Estes contratos são celebrados com colégios que se situam em zonas onde existe oferta pública e a percentagem paga pelo Estado depende do rendimento do agregado familiar e do ciclo de escolaridade.(...)" em vez de escrever que "(...)Estes contratos são celebrados com colégios que se situam em zonas onde não existe oferta pública e a percentagem paga pelo Estado depende do rendimento do agregado familiar e do ciclo de escolaridade.(...)". Pode ser uma gralha ou uma informação desviante por parte do MEC. Ao que jugo saber, e se a lei não foi alterada, não deve existir ensino "privado" financiado pelo Estado onde existe oferta pública.

 

Estado subsidiou 20200 alunos de escolas privadas investindo cerca de 18 milhões

isto é uma vergonha

23.07.12

 

 

 

Já nem sei que diga mais. Ajudei alguns professores com mais de 30 anos de serviço a concorrerem por causa dos desmiolados horários zero. Não o faziam há anos e foram sujeitos a uma humilhação inaudita. Estavam naturalmente nervosíssimos e a base de dados dos concursos é inenarrável. É um complicómetro que resulta de uma comprovada incompetência técnica misturada com a familiar incompetência política e acrescentada de atrevimento e de outras coisas mais.

 

Agora são 40 mil professores contratados entregues à sorte de um país que nos envergonha. Tenho muito orgulho nestes mais de 30 anos como professor em Portugal, mas fico sempre perplexo com o comportamento dos "sistemas".

 

 

Sindicatos da Fenprof e da FNE alertam professores contratados para "confusão" nos concursos 

 

"Dois sindicatos de professores do Norte, um afecto à Federação Nacional de Professores (Fenprof) e o outro à Federação Nacional de Educação (FNE), estão a avisar os cerca de 40 mil ‘professores contratados’ de que não deverão submeter já as suas candidaturas ao concurso para a manifestação de preferências. “A confusão é enorme, as dúvidas imensas – disse ao PÚBLICO João Paulo Silva, dirigente do Sindicato dos Professores do Norte (SPN/Fenprof)(...)"

uma onda que promete

23.07.12

 

 

Recebi por email a seguinte informação do professor João Daniel Pereira, o texto foi construído para a página do facebook, sobre o desenvolvimento do movimento "Em defesa da escola pública" que se criou na zona Oeste na semana passada e que tem sede nas Caldas da Rainha:

 

"Colegas, realizou-se hoje, na Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, a primeira reunião da comissão de representantes. 

Foi feito o ponto da situação e foram definidas e agendadas as próximas actividades e iniciativas. Sempre que houver uma acção realizada em nome deste "grupo"/movimento, conhecerá aqui a sua apropriada divulgação.

A comissão pede a todos que se mantenham atentos. 
Estamos convictos que só com a nossa união, tenacidade e firmeza de convicções poderemos alcançar resultados concretos e duradouros. 

O tempo é de cerrar fileiras e de esquecer divergências. Não devemos ceder a motivações políticas ou ideológicas. 

Esta nossa batalha é uma luta pelo futuro dos nossos filhos e dos nossos alunos e pela defesa da dignidade da Escola Pública e de todos os agentes educativos. 

Neste momento, é fundamental que os encarregados de educação contribuam de forma activa e consciente para este movimento. 

Neste momento, é imprescindível que nos façamos ouvir. Em casa, na rua, nas escolas, em qualquer lado... Temos de sensibilizar as pessoas para a justeza das nossas posições.

Todos seremos poucos e cada um de nós é importante!"

começa a ser difícil

23.07.12

 

 

O descontentamento com as políticas para o sistema escolar é evidente e já nem a tradicional FNE servirá para esconder a realidade.

 

 

Sindicatos, pais e directoreres ameaçam faltar a reunião com ministro da Educação

 

"O Ministro da Educação, Nuno Crato, poderá esperar em vão, esta segunda-feira à tarde, pelos representantes dos sindicatos de professores, das associações de directores de escolas e das confederações de associações de pais, que se manifestam indignados por aquele ter respondido a um pedido de reunião conjunta com a marcação de encontros separados.(...)"

confirmação

23.07.12

 

 

A rede escolar portuguesa, seja no ensino superior ou nos outros graus de ensino, tem relações nem sempre claras entre o público e o privado. São ainda menos claros (para ser brando), os contratos entre o Estado e o "privado" alimentado pelo orçamento de estado. O grau de clareza vai desaparecendo ainda mais quando se mistura tudo isto com o clientelismo partidário; está mais do que documentado.

 

Os rankings escolares portugueses têm contribuído para "enganar" a denominada opinião pública.

 

Estudo conclui que alunos do particular têm sido beneficiados

 

 

"Uma equipa de investigadores da Universidade do Porto esteve a analisar as bases de dados dos exames nacionais do ensino secundário, que são a matéria-prima para a elaboração dos rankings das escolas, e concluiu que os alunos das escolas particulares têm sido favorecidos por comparação com os que frequentam o ensino público.

Esta conclusão tem por base a diferença entre a média que os alunos obtêm nas provas nacionais (classificação externa) e aquela que lhes é atribuída nas suas escolas de origem (classificação interna), dados que também estão disponíveis nas bases de dados dos exames. Depois de compararem os dados existentes entre 2002 e 2010, os investigadores Tiago Neves, João Pereira e Gil Nata verificaram que estes mostram "que de forma sistemática existe um padrão de diferença entre a classificação interna e a classificação externa que tem favorecido os estudantes das escolas privadas", explicaram ao PÚBLICO. "Este facto é particularmente acentuado nas classificações onde mais se joga o acesso ao ensino superior", sublinham.(...)"

depoimentos

23.07.12

 

 

 

A saga dos horários zero é a mais grave humilhação a que vi sujeitarem os professores portugueses. Só quem está pelas escolas é que consegue perceber o efeito dilacerante da incompetência do MEC associada aos cortes na carga curricular, ao aumento do número de alunos por turma, à agregação de escolas e ao aumento do horário lectivo dos professores.

 

O Público recolheu quatro depoimentos que ajudam a perceber a desumanização em curso.

 

Adormeceram professores e acordaram sem turma

é a falta de cultura, estúpido!

23.07.12

 

 

Chegou-me uma crónica de Clara Ferreira Alves publicada na última edição do Expresso (o bold foi uma opção minha).

 

 

"É a falta de cultura, estúpido!


Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.

Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.

 

Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.

 

A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0'Neill).

 

Em "Memorial do Convento", Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o "Rei Lear" de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (descritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.

 

A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidaria, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.

 

O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o 'mercado', tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.

 

A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, "Invictus", conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram "Júlio César" ou "Macbeth", "Hamlet" ou "Ricardo III" que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.

 

Os 'heróis' portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de "agradar ao mercado", transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.

 

Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset."