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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a educação física e a média

14.06.12

 

 

 Notícia de um jornal diário.

 

E de repente, as classificações dos alunos no acesso ao ensino superior estão a gerar uma acesa e pouco edificante discussão por causa desta "eliminação" das notas em Educação Física. Num sistema escolar comprovadamente desmiolado, é natural que o acesso ao ensino superior cumpra a regra.

 

Tenho lido os posts e os respectivos comentários na blogosfera. O Miguel Pinto traça aqui quatro cenários muito bem fundamentados e o Paulo Guinote, com a sensatez habitual, insere o seguinte comentário, que é uma espécie de oxigénio ao caos e em que aprecio a simplicidade como resultado do conhecimento e do estudo, neste seu post:

 

"Quando entrei na Faculdade a fórmula permitia deixar para trás a nota mais baixa do 12º ano. E eram apenas 3 disciplinas.
O modelo poderia ser esse."

 

Pode saber mais aqui.

 

da intemporalidade

14.06.12

 

 

 

E lembrei-me de novo do argumento do quarto chinês de John Searle a propósito do estado de sítio do nosso sistema escolar. Nada há a fazer. É como o analista e programador de sistemas de informação que cria uma formulação que ninguém consegue utilizar, que se apressa a responsabilizar os utilizadores pelo insucesso e que não concebe sequer que escolheu o caminho errado.

 

A tragédia criada por um grupo de "sábios" está longe do fim. Nem sei se está para breve a saída dos escombros ou se se mantém um estado de guerra ao ensino público. Pelo que vamos percebendo, a agenda neoliberal apressa-se a deixar o sistema escolar em cacos e a entregá-lo de mão beijada à privatização de lucros.

 

O MEC não conhece a semântica que envolve as escolas portuguesas: fica-se, quando muito, pela sintaxe. Não tarda e teremos taxas de abandono escolar precoce acima dos 30 %, lá teremos de novo de "massificar", que é diferente de democratizar, o ensino básico e secundário e a democracia verá a sua crise acentuada.

 

 

"A razão por que nenhum programa de computador pode alguma vez ser uma mente é simplesmente porque um programa de computador é apenas sintáctico, e as mentes são mais do que sintácticas. As mentes são semânticas, no sentido de que possuem mais do que uma estrutura formal, têm um conteúdo.

Para ilustrar este ponto, concebi uma certa experiência intelectual. Imaginemos que um grupo de programadores de computador escreveu um programa que capacitará um computador para simular a compreensão do chinês. Assim, por exemplo, se ao computador se puser uma questão em chinês, ele conferirá a questão com a sua memória ou a base de dados e produzirá respostas apropriadas para as perguntas em chinês. Suponhamos, em vista da discussão, que as respostas do computador são tão boas como as de um falante chinês nativo. Ora bem, entenderá o computador, nesta base, o chinês tal como os falantes chineses entendem o chinês?

Bem, imaginemos que alguém está fechado num quarto e que neste quarto há vários cestos cheios de símbolos chineses. Imaginemos que alguém, como eu, não compreende uma palavra de chinês, mas que lhe é fornecido um livro de regras em português para manipular os símbolos chineses. As regras especificam as manipulações dos símbolos de um modo puramente formal em termos da sua sintaxe e não da sua semântica. Assim a regra poderá dizer: «Tire do cesto número 1 um símbolo esticado e ponha o junto de um símbolo encolhido do cesto número 2.» Suponhamos agora que alguns outros símbolos chineses são introduzidos no quarto e que esse alguém recebe mais regras para passar símbolos chineses para o exterior do quarto. Suponhamos que, sem ele saber, os símbolos introduzidos no quarto se chamam «perguntas» feitas pelas pessoas que se encontram fora do quarto e que os símbolos mandados para fora do quarto se chamam «respostas às perguntas». Suponhamos, além disso, que os programadores são tão bons a escrever programas e que alguém é igualmente tão bom em manipular os símbolos que muito depressa as suas respostas são indistinguíveis das de um falante chinês nativo. Lá está ele fechado no quarto manipulando os símbolos chineses e passando cá para fora símbolos chineses em resposta aos símbolos chineses que são introduzidos. [...].

Ora, o cerne da história, é apenas este: em virtude da realização de um programa formal de computador, do ponto de vista de um observador externo, esse alguém comporta se exactamente como se entendesse chinês, mas de qualquer modo não compreende uma só palavra de chinês. [...] Repetindo, um computador tem uma sintaxe, mas não uma semântica. Tudo o que a parábola do quarto chinês pretende é lembrar um facto que já conhecíamos. Entender uma língua ou, sem dúvida, ter estados mentais, implica mais do que a simples posse de um feixe de símbolos formais. Implica ter uma compreensão ou um significado associado a esses símbolos. (John Searle, Minds, Brains and Science, Cambridge [Mass.], Harvard University Press, 1984, pp.31-33; Mente, Cérebro e Ciência, trad.port., Lisboa, Ed.70, 1987, pp.39-41).


 

evolui, apesar de tudo

14.06.12

 

 

 

Daniel Dennett é um relevante filósofo americano. "A liberdade evolui" é o título de uma das suas obras. Tem uma pequena história que merece uma atenta reflexão.

 

"A Orquestra Sinfónia de Boston é conhecida por fazer a vida difícil aos maestros convidados até que estes dêem provas de que merecem ocupar o lugar. Perante a sua estreia à frente da orquestra, e conhecendo a reputação da mesma, um jovem maestro decidiu tentar um atalho para conseguir ser respeitado. Estava programado que dirigisse a estreia de uma obra contemporânea inaudivelmente dissonante, e enquanto lia a partitura ocorreu-lhe um estratagema brilhante. Encontrou um crescendo no início, em que toda a orquestra produzia um som estridente em mais de doze notas discordantes, e reparou que o segundo oboé, uma das vozes mais suaves da orquestra, estava programado para tocar um Si natural. Agarrou na partitura para o segundo oboé e inseriu cuidadosamente o sinal para bemol - a partir de agora era indicado ao segundo oboé que devia tocar um Si bemol. No primeiro ensaio, conduziu energicamente a orquestra até ao crescendo adulterado. "Não!", berrou, parando a orquestra abruptamente. Depois, com o sobrolho enrugado e em profunda concentração disse: "Alguém, vejamos, sim, deve ser... o segundo oboé. Devia tocar um Si natural e tocou um Si bemol". "Não pode ser", respondeu o segundo oboé. "Eu toquei um Si natural. Um idiota qualquer tinha escrito aqui Si bemol!"."

 

 

 

 

(Não é a primeira vez que

transcrevo esta história

num post).