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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

um país para professores?

18.03.12

 

 

 

A comovente carta da Sara Fidalgo despertou uma série de sentimentos que espera-se que não sejam esquecidos pela voracidade da comunicação. Quando os professores alertavam para a atmosfera dilacerante que as políticas educativas estavam a criar, as vozes acusadoras de corporativismo tomaram conta da agenda mediática. O exemplo da France Telecom não se projectou apenas nos professores, mas estes foram os escolhidos, como se tem comprovado, na nossa História mais recente. Para além disso, podemos escrever sobre o que conhecemos melhor.

 

Os professores com mais idade foram empurrados para fora da carreira. Os descomplexados competitivos que advogaram a supressão, argumentaram com a despesa salarial e com outras coisas que não me apetece recordar. Talvez tenham feito mal as contas, uma vez que as pensões não são pagas pelo além. As contas derraparam, o sistema escolar perdeu conhecimento que demorou décadas a construir e os fugitivos receberam da nação uma ingratidão para a eternidade. E pior: sabiam que o que mais os afectava não tinha qualquer relação com o financiamento do sistema escolar.

 

As medidas mais nefastas acomodaram-se na inveja social. A legitima redução da componente lectiva à medida que a idade avançava foi preenchida por inutilidades que desgastaram, e desgastam, mais do que a sala de aula (e sublinhe-se que é cada vez mais exigente a leccionação a centena de alunos por ano numa atmosfera, relacional e organizacional, difícil). Não será por acaso que com tantos defensores de mais-trabalho-para-os-professores-com-mais-idade ainda não se tenha legislado nesse sentido, embora os mais novos aguardem que o tempo, e o Estado de direito, lhes faça justiça. Onde é que isto já estava se os professores não têm exercido o seu dever de cidadania?

 

É bom observar as diversas posições. Há muitos que, nos tempos dos governos socialistas, vociferavam, e bem, contra as inutilidades e que agora as eliminaram dos seus discursos. É certo que as ditas acentuam o seu registo de farsa, mas quem tem dignidade profissional suporta cada vez menos o regime de fingimento como nos relatou a Sara Fidalgo.

prova dos sentidos

18.03.12

 

 

 

 

Definitivamente, e nem sei se será o ADN, o meu fio do horizonte é o que une o céu e o mar. Mas gosto das cidades. Quanto mais cosmopolitas melhor e se permitirem ver o tal fio desde as suas avenidas, então o Nirvana estará próximo.

 

A cidade onde vivo, as Caldas da Rainha, não é grande, não é à beira-mar - mas o mar está bem à mão - nem cosmopolita e não tem sido cuidada como merecia. Mas recomenda-se. Há tempos, subia da rotunda da Rainha para a praça da fruta e dei, do lado direito, com a "prova dos sentidos" (link do facebook). Bonita decoração porque os olhos também alimentam, serviço que alia o profissionalismo com a simpatia, música audível, wireless gratuito, cozinha portuguesa e internacional de boa qualidade e a bons preços. No dia da imagem, a escolha recaiu numa lasanha com muitos legumes que lhe deu um toque singular e muito agradável.

como foi isto possível?

18.03.12

 

 

Recebido por email.

 

 

"Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.

 

As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passou das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos. Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero. Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março. Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci,  o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem. A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar, levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andou. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça. Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos. De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver. E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda. Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor. Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.

 

Sara Fidalgo

 

P.S. – Não posso deixar de agradecer a todos os que nos ajudaram neste momento de dor *"