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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

arena política

12.02.12

 

 

 

A imagem da escola como arena política é interessante e quase inevitável. Num dos picos da contestação que os professores portugueses exerceram contra os últimos governos do PS, um militante socialista, pessoa informada e preocupada com o desastre das políticas educativas do "seu" governo, disse-me que os professores estavam a errar por "levarem" a política para dentro das escolas. Discordei e expliquei-lhe que era o contrário. Era exactamente o governo quem provocava o fenómeno, de forma consciente ou não. Ainda conversámos sobre a imagem referida no início, mas, e no caso do modelo de gestão, estávamos a observar a entrada nas escolas dos piores hábitos da política partidária.

 

Não nos esqueçamos que os dois maiores partidos portugueses consideram que "colocar" administradores nos hospitais e nas escolas faz parte do seu caderno de encargos.

 

Repare-se nas conclusões deste post do Aventar:

 

"(...)Neste momento há dois elementos que são cruciais para que tudo fique na mesma:

- o poder político (partidário) está a tomar conta da gestão das Escolas. Hoje, os Diretores são, em muitos casos, boys and girls do aparelho local. São eles a guarda avançada de um processo mais amplo de marginalização da Escola Pública – só assim se compreende que Escolas Públicas tenham o descaramento de escolher alunos, deixando alguns outros de fora!

- E “estragar” a Escola Pública é abrir portas ao mercado da Educação!(...)"

 

A proposta do governo sobre gestão escolar, tem, no artigo 6º, aquilo que, neste momento, mais interessa às concelhias e às distritais dos referidos partidos políticos.

 

cyborg

12.02.12

 

 

 

 

Por me interessar por várias coisas ao mesmo tempo, percebi que tinha de me organizar e dediquei-me à construção de bases de dados para os mais variados assuntos. A dos ficheiros secretos tem várias entradas e algumas incluem resumos de conferências.

 

Andava à procura dumas questões que apresentei a Eduardo Prado Coelho e encontrei as que coloquei a Bragança de Miranda na mesma conferência sobre corporeidade, em 7 de Novembro de 1997, na Cruz Quebrada.

 

Muito obrigado. Vou colocar duas questões e gostaria que estabelecesse uma relação entre elas, partindo de três categorias: ideologia, responsabilidade e dor.

Primeira questão: considerando o conceito de ideologia, que por aqui estabelecemos, como um conjunto de interesses inconfessáveis (e pensei no consenso manufacturado de Chomsky e na comunidade que vem de Agamben) quais são os interesses inconfessáveis da ideologia do corpo? Segunda questão: se a responsabilidade das ligações são de cada um dos corpos organológicos, e se o primeiro movimento da responsabilidade é a dor, como será a responsabilidade de um corpo sem dor e a que ideologia isso interessa?

 

A resposta de Bragança de Miranda, depois de sorrir e pensar um bocado, foi sábia: o mundo passa mais pelas palavras do que pela fisiologia.

os dualismos e a gestão escolar

12.02.12

 

 

 

 

A proposta do governo de alteração do modelo de gestão escolar está construída com base num dualismo que não se circunscreve às pessoas que reflectem sistematicamente sobre o assunto. Jornalistas, comentadores e por aí fora assumem com frequência posições favoráveis às dos últimos governos, o que me leva a colocar a interrogação: não sabem do que estão a falar ou são preconceituosos em relação aos professores e à escola? Tenho a sensação que esse mundo está mudar.

 

E quais são as tais posições dualistas?

 

Os que defendem o actual modelo, e o seu aprofundamento, consideram-se avançados, modernos, não despesistas, defensores de exercícios unipessoais e contrários à ideia de poder democrático da escola exercido maioritariamente por professores. Sem qualquer demagogia, podemos afirmar que uma boa parte desses pensadores estão associados às ideias e práticas que nos empurraram para onde estamos.

 

Os que se posicionam de forma crítica em relação ao modelo, são defensores da livre escolha da natureza do órgão de gestão, pretendem que as lideranças se legitimem pelo sufrágio directo e universal e advogam que a confiança nos professores, e a sua autoridade, começa no exercício do poder democrático da escola.

 

A crónica de ontem de Pacheco Pereira no Público, aconselho a leitura integral, encaixa respectivamente nos grupos referidos e começa e termina assim:

 

"Há dias, no programa Prós e Contras, um conselheiro de "empreendedorismo" teorizava, de forma prosélta e desenvolta, sobre as más escolhas de "projecto de vida" que justificariam muito do desemprego actual. Era evidente pela conversa, que existia uma espécie de culpa individual em se estar desempregado. Pelo meio, perguntou, com evidente escárnio, a um desempregado se este tinha tirado o curso de História, uma imprevidência para quem quer ter um emprego. Não tenho dúvida de que quem formulava esta pergunta fazia parte de um dos lados do novo binómio da luta de classes descrito por Passos Coelho, o dos "descomplexados competitivos". O curso de História, se tivesse feito parte do currículo do desempregado, colocá-lo-ia de imediato na categoria de "preguiçoso autocentrado", antiquado e inútil, "piegas" e queixoso, a quem é preciso dar um abanão de pobreza a ver se se torna "competitivo". Estamos perante uma nova forma de luta de classes: a que opõe "descomplexados competitivos" a "preguiçosos autocentrados". Pelos vistos, uma característica destes últimos é que se interessam por história. (...)

Esse momento ainda não se deu, e os papagaios do "pensamento único" repetem este discurso sem pararem para pensar. Ou sequer para ler alguma coisa de História, mesmo com o risco de se tornarem "preguiçosos autoconcentrados"."