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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

Nevoeiro

09.02.12

 

 

 

 

 

Repetem-se à náusea as insuficiências de Cavaco Silva e de Passos Coelho. Compreende-se que as pessoas não gostem de ver os primeiros dignitários do Estado em figuras tão cinzentas, mas, e muito sinceramente, não entendo como se esperava um registo mais entusiasmante.

 

É escusado projectar um qualquer rasgo e dá ideia que desesperam, mais o segundo do que o primeiro, por eliminar de vez a esperança social-democrata num dos países mais desiguais da Europa do sul.

 

Como se sabia, a palavra não é forte em nenhum dos dois e isso não ajuda. É que a esperança alimenta-se também do sonho, seja em prosa ou em poesia. Esperar que aconteça um qualquer discurso empolgante e mobilizador, é o mesmo que ir à procura de um forte nevão no Agosto alentejano; mesmo que profundo.

 

São duas personagens que conjugam muito bem o sacrifício com a austeridade e com o empobrecimento; não saem desse registo e gabam-se: o presidente anda ufano a declarar a inveja dos nossos parceiros e P. Coelho aspira à reencarnação do ilusório "bom aluno", desta vez em nuance invertida.

 

A actual repetição, provocada ou não, dos seus pequenos lapsos ou dislates serve de nevoeiro para as receitas ultraliberais em curso. Só que a névoa nunca foi boa companheira para os regimes políticos. Normalmente sucedem-se longos períodos onde as trevas se ocupam do protagonismo histórico.

75 anos depois

09.02.12

 

 

Crónica de Ferreira Fernandes no DN.

 

 

Não leia, isto é velho de 75 anos.

 

Então, recapitulemos. A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.