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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

uma decisão justa

19.01.12

 

 

"É de aplaudir a decisão do Tribunal de Trabalho de Lisboa que julgou inconstitucionais os cortes salariais. É evidente que a Constituição não permite o confisco de salários sem indemnização, pelo que nenhum governo estaria legitimado a tomar essa medida, a menos que o estado de emergência tivesse sido decretado. Não o tendo sido, compete aos órgãos de soberania defender a Constituição, não estando os mesmos autorizados a suspender a sua aplicação com fundamento em razões de Estado.

Os trabalhadores do sector público perderam nos últimos dois anos 25% do seu rendimento. Hoje sabe-se que tal não vai servir para nada, pois o sagrado défice orçamental de 4,5% em 2012 já vai em 5,4% nos primeiros dias do ano, porque alguém se esqueceu que a receita extraordinária de 2011 implicava aumento da despesa ordinária já em 2012. Ao mesmo tempo que ninguém assume a responsabilidade por essa desastrosa decisão, insiste-se em retirar aos trabalhadores os salários a que têm direito.

Se nem o Presidente da República nem o Tribunal Constitucional defendem a Constituição, ao menos que o façam os tribunais comuns. Esta sentença pode vir a ser revogada pelo Tribunal Constitucional, mas não deixará de fazer história, demonstrando que no nosso país ainda há tribunais que não transigem com violações da lei fundamental."


Luis Menezes Leitão (Professor FDUL)

| 17-01-2012

sabotador

19.01.12

 

 

 

- O proletariado tem o dever do movimento - informou o activista -, e tudo aquilo que ele encontra pelo caminho é seu: seja a verdade, seja uma peça roubada a uma kulak, tudo vai para o caldeirão organizativo; não reconhecerás nada. E as galinhas apalpaste-as?

- Passei toda a noite a apapá-las, nenhuma delas tem ovo.

O actvista concentrou-se; os seus assistentes também ficaram identicamente pensativos: poderia uma ave ser cúmplice dos kulaks?

- É preciso preparar todas as galinhas, matá-las e comê-las - declarou um dos membros do corpo de activistas depois de ter reflectido.

- E reparaste nos galos? - perguntou o activista.

- Não há galos - disse Voschev. - Um homem que estava deitado no pátio disse-me que tu comeste o último galo numa ocasião em que percorrias o kolkhoze e de repente sentiste fome.

- Importa-nos esclarecer quem comeu o primeiro galo, e não o último - declarou o activista.

- Como é que ele morria por si mesmo? - surpreendeu-se o activista- - Achas que é um sabotador consciente para morrer num momento destes? Vamos fazer um interrogatório abrangente: a base aqui deve ser outra.

Todos se levantaram e foram procurar o pérfido sabotador que, para sua própria alimentação, exterminou o primeiro galo. Voschev e Tchíklin também seguiram atrás do activista.

- O caso é sério - dizia Tchíkilin. - Sem ovos as crianças definham e não chegam a adultos!

- É claro - conformou Voschev, mas ele próprio se atormentava, porque aceitaria viver até à morte sem um ovo de galinha, em troca de conhecer o mecanismo essencial ao mundo.

 

 

Andrei Platónov (2011:93), 

"A escavaçãoAntígona