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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

prestação de contas

03.11.11

 

 

 

 

Seria interessante um estudo sobre o financiamento que as escolas do ensino não superior utilizaram durante as últimas duas décadas para as despesas de funcionamento. Tenho ideia que não haverá qualquer "buraco" financeiro e que apenas uma contabilidade atávica terá apurado despesa excessiva depois do fecho dos anos económicos e que terá sido corrigida no ano seguinte. E mais: mesmo com desperdícios vários, o produto dividido pelo o número de alunos envergonharia qualquer arauto do despesismo do sistema escolar.

 

A despesa com os salários dos professores é da exclusiva responsabilidade dos sucessivos governos em anos de eleições. A década de noventa do século XX foi marcante, com destaque para o célebre monstro de Cavaco Silva no início e para a reorganização curricular orientada por Marçal Grilo no final. Esta última, foi megalómana e assentou num conceito que nunca pode ser uma locomotiva curricular: a interdisciplinaridade.

 

Outro argumento esgrimido pelos que repetiram o chavão de que tudo-está-mal-nas-escolas-do-estado foi a sua captura pelos sindicatos. Quem está no terreno sabe que não foi assim. É tão pouco conhecedor como dizer-se que em determinada época os professores foram mais directivos e noutra priveligiaram teses diferentes. A forma com a sociedade encarou a educação foi sempre mais decisiva.

Papandreou tem razão

03.11.11

 

Há, desde logo, uma conclusão: a pressa em que vivemos dá-se mal com a democracia e o capitalismo selvagem ainda mais.

 

 

A incompreensão total que o gesto de Papandreou suscita é igualmente uma incompreensão do espaço público democrático e do facto de a democracia ter um preço que temos de estar dispostos a pagar.

 

Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Frank Schirrmacher

 

Dois dias: foi quanto durou o sentimento de aparente estabilidade reencontrada pelas elites europeias. Dois dias entre a imagem da matriarca Merkel, em quem o mundo inteiro tinha os olhos postos, e a imagem da depressão. Um terapeuta poderia dizer-nos do que se trata: é uma doença. Poderia descrever até que ponto a psique coletiva está doente, até que ponto os fantasmas de grandeza e de autoconfiança que essa psique cria são falsos e enganadores.

Consternação na Alemanha, na Finlândia, em França e até no Reino Unido. Consternação nos mercados financeiros e nos bancos. Consternação em toda a parte porque o primeiro-ministro grego, Georges Papandreou, põe a hipótese de um referendo para obter resposta para um problema decisivo para o destino do seu país.

Esta terça-feira [1 de novembro] pudemos ver, minuto após minuto, os banqueiros e os políticos brandirem a ameaça da queda das Bolsas. A mensagem era clara: se disserem sim, os gregos são idiotas. Quanto a Papandreou, agiu precipitadamente, porque lhes fez a pergunta. No entanto, antes que a espiral do pânico se descontrole, seria sensato tentar compreender, com algum distanciamento, aquilo que está a passar-se diante dos nossos olhos. É o espetáculo do abastardamento dos valores que, em tempos, se considerava serem incarnados pela Europa.

Nos mercados financeiros, alguns protagonistas analisam, sem pestanejar, a história desta decadência anunciada. O britânico The Daily Telegraph dá conta de uma piada que circula nos meios financeiros e claramente, também, no seio do Governo britânico: seria bom se uma junta militar tomasse o poder na Grécia, porque nenhuma junta militar poderia ser membro da UE.

E a Forbes, que não é uma publicação qualquer no mundo das finanças, vai um pouco mais longe: "Esta brincadeira é ainda mais triste e amarga na medida em que, para falar francamente, se nos abstrairmos do ligeiro problema da transformação da Grécia em ditadura militar, essa seria uma boa solução para o país."

Luta de poder entre economia e política

Não é preciso conhecer todas as ligações de tal piada com o subconsciente para compreendermos que estamos prestes a assistir à destruição massiva dos princípios morais nascidos no pós-guerra, determinada por razões económicas e financeiras superiores. Esses processos desenvolvem-se sub-repticiamente, desenrolam-se nos limites da consciência, por vezes durante décadas, até desembocarem numa nova ideologia. Foi o que se passou durante as fases de incubação dos grandes fenómenos de autoritarismo do século XX.

Há que referir o que disse Papandreou, aquilo que ficou nos ouvidos da Europa como as divagações de um louco imprevisível: "A vontade do povo impor-se-á." Se o povo rejeitar o novo acordo com a UE, esse acordo "não será aprovado". Recorde-se que, ainda há apenas alguns dias, na Alemanha, se entendia por democracia a sanção do poder legislativo. Imposta pelo Tribunal Constitucional e aceite por todos os partidos. Por causa disso, até foi preciso adiar uma cimeira da UE. Hoje, nada disso continua a ser válido para a Grécia.

O que tem a iniciativa grega de insuportável? Resposta: o facto de o primeiro-ministro submeter o destino do seu país ao julgamento do seu próprio povo. Perante essa decisão, os pretensamente cidadãos modelos regrados que são os alemães e os seus dirigentes políticos entram em pânico, mas apenas porque os mercados financeiros entraram em pânico. Porque todos são agora prisioneiros das profecias dos mercados, antes mesmo de estas serem expressas.

Torna-se cada vez mais evidente que a crise que a Europa atravessa não é um problema passageiro mas a expressão de uma luta pela supremacia entre o poder económico e o poder político. Este último já perdeu imenso terreno mas, agora, as coisas acontecem mais depressa.

Papandreou tem razão

A incompreensão total que o gesto de Papandreou suscita é igualmente uma incompreensão do espaço público democrático e do facto de a democracia ter um preço que temos de estar dispostos a pagar.

Não seremos capazes de ver que, cada vez mais, submetemos os processos democráticos à apreciação das agências de notação, dos analistas e dos agrupamentos bancários? Nas últimas 24 horas, todos esses atores foram assaltados com perguntas, como se tivessem alguma coisa a dizer sobre a vontade do povo grego de decidir o seu próprio destino.

A pretensa racionalidade dos mecanismos financeiros revelou velhos atavismos inconscientes. O discurso que consiste em tratar um povo inteiro como um bando de ladrões e preguiçosos parecia ter desaparecido, ao mesmo tempo que o nacionalismo. Hoje, assiste-se ao regresso dessa mentalidade, com o apoio de "provas razoáveis". A deterioração do parlamentarismo, em função das leis do mercado, não justifica apenas as decisões do povo enquanto "legislador extraordinário"; no caso da Grécia, obriga os cidadãos a manifestar a sua vontade. Na Alemanha, todos os deputados que seguem os que a sua consciência lhes dita podem ter a certeza de que, tão depressa, não voltaremos a ver a sua "cara". O que aconteceu a um deputado alemão enquanto indivíduo, diz igualmente respeito a um Estado e, não tardará muito, a toda a Europa.

Papandreou não tem apenas razão para fazer o que fez: também está a apontar uma via para a Europa. A Europa deveria fazer tudo para convencer os gregos de que a solução que apresentou é a melhor. Para isso, teria também de se convencer a si mesma. Para os outros países europeus tão endividados como a Grécia, tratar-se-ia de um excelente meio de dar mostras de lucidez e de defender o preço que estarão dispostos a pagar em nome de uma Europa unida.

 

Contributo da Manuela Silveira. O texto veio daqui.

muito interessante

03.11.11

 

 

O exercício de Rui Tavares anda à volta do exemplo belga e é muito interessante. A Bélgica tinha uma dívida pública maior que a portuguesa e os "mercados" não se comoviam. Mesmo sem governo, a economia belga foi das que mais cresceu na zona euro; sete vezes mais do que a alemã. E porquê? Há quem diga que foi exactamente por não haver governo e por não se poderem decretar cortes.