Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

o ministro e os números

31.10.11

 

 

 

 

"(...) Quase metade (46,7%) do pessoal da administração central está no Ministério da Educação. É um valor extraordinário. (...)", diz Nuno Crato na edição impressa do Público de hoje. E depois? E se fossem 43% ou 54%? É um argumento repetido e sem evidências que determinem o seu valor negativo. Não adianta comparar com o resto da Europa porque as divisões administrativas são incomparáveis. Na Espanha, por exemplo, muitos professores não estão vinculados à administração central, mas às regiões autónomas.

 

Os 53,3% restantes são muitos ou poucos? Qual é a percentagem que se tem de reduzir nos professores? 4%? A implosão do MEC e das inutilidades corresponderia a que valor despesista? Ou os coffee breaks já atenuaram o ímpeto?

 

Quem exerce funções nas escolas do estado conhece bem essa realidade. 98% da despesa anual é consumida em salários.

 

Dirigi uma escola em que dos 4 milhões de euros anuais, apenas 80 mil se destinavam às despesas de funcionamento. Uma gestão financeira rigorosa e inapelável com as inutilidades permitia "milagres" de investimento, um quotidiano civilizado e excelentes resultados dos alunos.

 

E não me esqueço: o ministro da educação da altura, 2004, também usava uma argumentação semelhante. Certa vez, ladeado pelo guru (não é para rir, não) João Rendeiro do BPP, afirmou que só não contratava gestores para as escolas porque não tinha dinheiro para lhes pagar. Hoje percebe-se bem a lógica de quem exigia pagamentos dourados para gerir a coisa pública. A ladainha de que os professores são demasiados e caros está datada e era esperada noutros tempos e latitudes.

reduzir?

31.10.11

 

 

A supressão curricular tem na EVT uma elucidação: termina uma disciplina para nascerem duas. A educação visual e tecnológica dá lugar à educação visual e à educação tecnológica. Esta redução invertida da dispersão é um eufemismo e um regresso ao passado. É obrigatório ouvir Passos Coelho e Paulo Portas. Há uns meses, poucos, eram acérrimos defensores da EVT e do par pedagógico.

exercícios

31.10.11

 

 

 

O desnorte contabilístico é grande e a recapitalização da banca será feita à custa das classes média e baixa. Mesmo que as tesouras tenham alguma consciência, a localização e a dimensão dos cortes obedecerá ao registo deixa-ver-se-pega-ou-como-reagem. Quando escrevi este post com estas frases, "(...) O momento sobreaquecido obriga a um aviso: agora será ainda mais quente e as nêsperas serão decerto trituradas. A luta de classes veio para ficar e o cruzar de braços será descontinuado (...)", pressentia que algum recuo se poderia registar no sistema escolar depois do anúncio de que afinal a supressão dos subsídios seria a solução mais horizontal.

 

As TIC e a EVT ficaram no corredor fatal. Há outros saberes que parece terem escapado a tempo. Já dei alguma conta do estado da EVT. As TIC tinham a vantagem de quebrar a ideia eduquesa e desistente que nomeia um conteúdo de ensino como horizontal e não disciplinar. Tenho ideia que se associa as TIC ao desempenho nas plataformas do modismo comunicacional, ao domínio dos sistemas operativos sem gestão em rede e à velocidade no uso do teclado ou na manipulação do rato. Essa pequena parte é importante, mas está muito longe das potencialidades da disciplina e, para além disso, o país é muito desigual socialmente.

 

Por outro lado, há imensos jovens com formação em informática que se dedicaram ao ensino das TIC e que suportam os sistemas de informação, mesmo que incipientes, das organizações escolares. De um momento para o outro, e em plena sociedade da informação e do conhecimento, abdicamos da sua profissionalidade.

depois da roda

31.10.11

 

 

 

 

Quem comparar a organização curricular europeia depois da invenção da roda, verificará que as diferenças são mínimas. Ha um outro detalhe mais ligado à história dos países e às suas idiossincrasias a par de um ou outro devaneio docimológico ou ideológico. E tem existido uma progressão que até parece concertada.

 

Por isso é que me indignam as máscaras curriculares, sejam elas de origem financeira ou não. Quando o actual governo afirmou em campanha eleitoral a sua adesão ao par pedagógico em EVT, alimentou a esperança profissional de muitos professores. Nem vou discutir nesta altura a pertinência de uma parceria nesta leccionação. O que é inadmissível é um governo, uns meses depois das eleições, afundar em angústia a vida pessoal e profissional de muitas pessoas com um regresso eufemístico à divisão disciplinar. Não se faz e ponto final.