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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

memórias em memória

30.09.11

 

 

 

 

Hoje foi o último dia de Eduardo Guennes Tavares de Lima (1937-2011), mais conhecido por Duda Guennes. O cronista brasileiro provou que não era necessário um acordo ortográfico para estabelecer a irmandade entre cidadãos. Conheci-o nas suas inesquecíveis incursões no jornal "A Bola".

 

Aprendi a ler esse jornal sem ser às escondidas. Desde pequeno que me habituei que um exemplar de "A Bola" era intemporal e para mais de uma centena de leitores. Encontrava-o no centro lúdico do BNU, na então Lourenço Marques, onde o meu pai trabalhava. Nunca tinha pressa. O trissemanário chegava no dia seguinte e lia-o dias depois para não ser incomodado. Fascinava-me a escrita dos redactores e sorria com a toponímia que vinha da europa. "A bola" instalava no meu imaginário um futebol feito por estrelas.

 

Cheguei a Portugal pouco tempo depois da entrada de Duda Guennes no jornal. Passei a ler "A Bola" no próprio dia, num exemplar pessoal e não transmissível. O encanto foi-se diluindo a exemplo do jogo em forma de constelação. Coisas do novo e rico mundo. Em 1995, perto do auge da abundância, o jornal passou a diário. Desconfiei. Ainda tentei ser um consumidor trissemanal, mas meses depois desisti. Nunca mais o comprei e perdi Duda Guennes.

 

Recordo-o assim:

 

"Argemiro Félix de Senna, o popular Sherlock, famoso árbitro pernambucano da década de 50 e 60, costumava mandar o jogador dar o troco sempre que reclamava da violência de um adversário. Num jogo com o América, Guaberinha, do Santa Cruz, queixou-se de uma entrada ríspida e Sherlock disse para que pegasse outro também. Guaberinha não conversou: na primeira, entrou com fé, esperança e sem caridade no primeiro que apareceu, fazendo-o rolar pelo relvado aos uivos. Imediatamente, Sherlock o expulsou: “Mas foi o senhor quem mandou”, justificou-se Guaberinha.
“Mandei, mas não na minha frente. Aí é desrespeito à autoridade e isso eu não tolero”, respondeu o severo árbitro.". Encontrei aqui.

a ad e o algoritmo

29.09.11

 

 

 

 

A AD está malfadada para concursos. Ninguém se esquece do famoso algoritmo de 2003, que se disse ter resolvido a inenarrável saga concursal dos professores. Os criadores do dito apareceram na abertura dos telejornais com a aura de geniais. O questão foi outra: a má decisão política provocou um loop no sistema de colocações e a coisa não tinha fim. O algoritmo apenas retirou a recuperação de vagas e colocou os opositores. Colocou-os de forma errada, e com prejuízos pessoais incalculáveis, e poucos deram conta. Tenho ideia que o algoritmo é o mesmo.

 

Há outro algoritmo menos intrigante. Sucedem-se os casos que denunciam alunos ainda sem professor e em que os respectivos horários não aparecem a concurso na bolsa de recrutamento, ou de professores que foram afastados das suas escolas com horário zero e que depois vêem serem colocados nessas escolas outros docentes na mesma condição. Este algoritmo tem um nome mais nosso conhecido.

 

Na mudança de século publiquei, numa revista da especialidade, um receituário, com recurso à literatura do benuron, que intitulei de reformas e remédios (1). Mais tarde, em Outubro de 2007, actualizei a prescrição com o reformas e remédios (2). Sobre o assunto em causa, ficou assim:

 

 

Concursos.

Registo da patente: ano de 2002, por decisão do Ministro da Educação David Justino com a participação activa do Secretário de Estado da Administração Educativa Abílio Morgado. É considerado um genuíno estudo de caso, com matéria para investigar durante o próximo meio século.

Composição: conjunto de leis reguladoras, com recurso, na sua aplicação, aos mais sofisticados meios informáticos, de um fenómeno que conseguiu passar para a digitalização informática todas os procedimentos que paralisavam as administrações públicas anteriores à sociedade da informação. 

Indicações terapêuticas: antecipar a necessidade de um plano tecnológico, ao provocar o aparecimento de um inédito algoritmo que é hoje objecto de estudo no pós-doutoramento em sistemas de informação na prestigiada instituição que tem a sigla MIT. Consegue excluir de um concurso mais opositores do que na soma dos 30 anos anteriores.

Contra-indicações: não se aconselha a sua utilização em sistemas de concursos públicos com mais de 2 opositores .

Precauções especiais de utilização: se conceber uma ideia igual corre o risco de se tornar assessor da prestigiada companhia aérea TAP.

Prazo de validade: a estabelecer semanalmente.

editorial (11)

28.09.11

 

 

 

 

Aprecio a coerência não dogmática. Não renego o meu pensamento político, mas procuro libertar-me para pensar e escrever. Não me dispo do aconchego aos meus, nem da minha pele, como todos nós. Contudo, tomo posições que considero justas e que nem sempre me facilitam a vidinha. Os entendidos na nossa idiossincrasia dizem-nos que há muitas Madeiras para além da dita. Não discordo. Habito num parente próximo dessa família e sei com o que posso contar. Confesso que até me divirto o suficiente.

 

Até Junho de 2011, o nosso sistema escolar foi classificado, e muito bem, como um oceano de eduquês, de má burocracia e de inutilidades. Três meses depois, apenas a pequena fatia que se denominava de avaliação do desempenho, foi, naturalmente, vencida. Tratou-se de uma certificação anunciada três anos antes. E mesmo isso, como mais à frente se verificará, tem muito de controverso.

 

Deveria ser incompreensível que a mudança de tonalidade governativa obrigasse a mudanças acentuadas de posição. A eliminação argumentativa dos factores anteriormente denunciados é um silêncio que me escapa. Apenas isso: escapa-me e escapar-me-á; e ainda bem. E quando essa omissão se fundamenta nos fantasmas do costume, recordo-me da frase de Mia Couto: "Nem o avô barbudo deixou descendência".

entenda-se lá este mundo

28.09.11

 

 

Um governo de um partido político denominado de socialista (é um bocado risível e datado, sei disso), e dito de esquerda, instituiu um prémio de mérito para os alunos do ensino secundário. A coisa foi muito constestada, mas a terceira via esteve com modas e estipulou 500 euros. Afinal, tratava-se de um país situado nos primeiros lugares no ranking de auto-estradas e o mais iluminado na área dos centros comerciais.

 

Esse governo estatelou-se e foi substituído por um de direita; de toda a direita mesmo. Dois meses depois de tomar posse, um dos seus ministros mais meritocráticos suspende o prémio e argumenta: "(...) determina-se que os valores em causa, desde que já requisitados pelas escolas, possam ser afectados a situações de apoio aos alunos e às famílias mais carenciadas.(...)"

 

Ministério cancelou prémios de 500 euros a dias de entregá-los aos melhores alunos do país

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