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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a vergonha das cópias

15.06.11

 

 

Fiz o estágio para professor no biénio 1983 a 1985, em Chaves. Era um jovem de 24 anos e com poucos anos de serviço docente. Éramos 24 professores em profissionalização em exercício. Reuni toda a documentação e passei o verão a elaborar o Plano Individual de Trabalho (PIT). Entreguei-o em Setembro de 1983. Fui o único não aprovado pelo Conselho Pedagógico, porque não respeitava a grelha estabelecida sem qualquer inscrição legal. Não desisti. Depois de uma longa saga em que só o meu orientador me apoiava, a escolástica cedeu em Abril do ano seguinte e após a assertiva intervenção da Inspecção-Geral da Educação. Durante o processo, os inquisidores não pararam de me sugerir: faça como é comum: copie, que assim ficamos seguros na aprovação. Senti-em honrado com o desfecho da coisa nos mais variados domínios.

 

Desde aí que o meu juízo deu voltas sem fim com a desgraça das cópias que proliferam entre professores. Voltei a sentir a síndrome ao longo dos anos. Para não ferir susceptibilidades, não relato mais exemplos. Ainda há dias um blogger descreveu estas coisas abjectas sobre a avaliação de professores. O mundo da papelada no sistema escolar faz corar qualquer um. Não é de estranhar, portanto, o que vai ler a seguir. Portugal está também na bancarrota moral.

 

Futuros magistrados apanhados a copiar tiveram todos dez

"Indícios de que 137 auditores que estão no Centro de Estudos Judiciários (CEJ) a formarem-se para serem magistrados copiaram num teste levou à anulação do exame. Face à impossibilidade de encontrar uma data para repetir o teste a direcção da instituição decidiu atribuir nota dez a todos os futuros magistrado."

 

 

nem tudo foram rosas

15.06.11

 

Os últimos seis anos revelaram inúmeros tiques totalitários. Haverá quem pense que estou a exagerar, mas a atenção aos factos, aos detalhes e ao conhecimento não se pode elidir. A formulação é simples: para um poder quase fascista (mesmo que em inconsciência) só uma resistência extrema. "(...)Foucault reconheceu, igualmente, que existe resistência onde o poder é exercido, caso contrário, seria um caso de obediência.(...)" Jardine (2007:147).

 

Os totalitarismos medram sempre no somatório de figuras menores, acobardadas e imaturas. Sei do modo como muitos bloggers foram intimidados. É um longo percurso de combate e de resistência que a história se encarregará de esclarecer. Foi por cá e não noutro mundo. É evidente que para os historiadores será fundamental o acesso às fontes e não sei se os bloggers estarão para isso. Talvez não queiram dar importância a quem não o merece e reconheçam que a democracia é uma construção diária e que os déspotas não se circunscrevem a nichos; não se importaram de custear o preço da liberdade. Pela minha pequena parte é simples: guardo com cuidado uma série de emails, mas jamais tomarei a iniciativa de os publicar; fiquem descansados e poupem as unhas, outrora aguçadas, ao efeito roedor.

da culpa

15.06.11

 

 

Há uma culpa indesculpável pelo estado de bancarrota, que deve ser atribuída ao egoísmo e ao despautério de uma parte de umas gerações que gozam de um regime de benesses ilimitadas. O uso e abuso da traquitana do estado, desde as mordomias às chorudas reformas e passando pelo carreirismo mais oportunista, deu no que deu. Há também outra consequência que só a sente mesmo quem está todos os dias nas escolas. Uma boa parte dos petizes e dos adolescentes, foram educados no excesso de consumo e na lógica da criança-rei. É nesse sentido que leio este oportuno desenho. A tecnologia, esse poderoso instrumento didáctico, foi resgatada com uso totalitário para as lógicas de entretenimento, demissão parental e exibicionismo material.

 

 

acordo de regime

15.06.11

 

 

 

 

 

O último partido político que pode exigir um acordo de regime para as políticas educativas é o PS. Tomou o poder em 2005 e terraplenou tudo o que estava para trás, mesmo o que tinha avaliações positivas como era o caso da gestão escolar. Havia um desígnio freudiano venerador da ideia headmaster, e dos salões onde se movimenta o verniz, que lhes curvou a cervical.

 

Depois de tanto disparate comprovado, o PS não se pode resguardar atrás de uma qualquer ideia fixa como se as suas decisões recentes tivessem sido o fim da história. As derrotas em toda a linha exigem humildade; ao menos isso.