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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

do controlo sobre as pessoas

14.06.11

 

 

Há muitos que ainda não entenderam que na génese da propalada accountability está uma "nova" gestão dos serviços públicos que tem como alicerse o controlo dos sujeitos, que nada de tem de novidade e que tudo nos diz sobre os caminhos silenciosos do totalitarismo.

 

"O que havia de tão novo nestes projectos de docilidade que interessava tanto o século XVIII? Havia a escala do controlo: era uma questão não de tratar o corpo, num grupo, "por atacado", como se se tratasse de uma unidade indissociável, mas de trabalhá-lo "a retalho", individualmente, de sobre ele exercer uma coerção subtil, de obter domínio sobre ele ao nível do próprio mecanismo - movimentos, gestos, atitudes, rapidez: um poder infinitesimal sobre o corpo activo. Depois havia o objecto do controlo: não eram ou não mais eram os elementos significadores do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficiência de movimentos, a sua organização interna; a única cerimónia verdadeiramente importante é a do exercício. Por último, há a modalidade: implica uma coerção ininterrupta e constante, a supervisão do processo da actividade e não tanto o seu resultado, e é exercida de acordo com uma codificação que reparta, tão proximamente quanto possível, tempo, espaço, movimento. Estes métodos, que tornaram possível o controlo meticuloso do corpo, que asseguraram a sujeição constante das suas forças e lhes impuseram uma relação de docilidade-utilidade, poderão ser chamados de "disciplinas".(...)"

 

Jardine (2007:57), Foucault e Educação. 

estranho conceito de escola

14.06.11

 

 

 

"O actual modelo de gestão das escolas diminuiu o peso dos professores da escola nos órgãos de gestão dessa escola. Esclareço a aparente redundância trazida pela insistência no vocábulo "escola" na construção da frase. É que a lei torna possível que um professor de qualquer escola, mesmo que seja privada, concorra a director de qualquer outra, pública, mediante "um projecto de intervenção na escola". Que estranho conceito daqui emana! Como pode alguém que não viveu numa escola, que não se envolveu com os colegas e com os alunos dessa escola, que não sofreu os seus problemas nem respirou o seu clima, conceber "um projecto de intervenção na escola"? Foi a filosofia da ASAE transposta pelas escolas.(...)"

 

Este parágrafo que acabou de ler é da autoria de Santana Castilho (2011:63) e pode lê-lo no "O ensino passado a limpo". A ideia é determinante para quem queira perceber outra variável fundamental que desgraça as nossas escolas: ausência de autoridade democrática e de liderança.

Tenho ideia que foram poucos os atrevidos que se prestaram, e foram eleitos, a ocuparem lugares de directores em escolas em que não eram professores. Os casos que conheço acabaram em tragédia, naturalmente. São exemplos do que não deve ser feito. Dizem-me que chega a ser caricato ler os projectos de intervenção, que nem se percebe como foram eleitos e que só mesmo os fenómenos que nos empurraram para a bancarrota explicam essas situações meio esquisitas.

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14.06.11

 

 

Tem sido risível assistir ao reino dos palpites sobre o próximo ministro da Educação; um movimento estonteante a que nem os próprios governantes têm escapado. Começaram pela promessa da dezena de ministros e já a reduziram ao regime de ministros com mais responsabilidade por causa da morosidade das novas leis orgânicas. Mas não sabiam que era assim? Se não pensaram nisso não é lá muito bom sinal.

 

Têm razão os que dizem que na Educação há milhares, sim milhares, de pessoas nos serviços centrais e desconcentrados que devem regressar às salas de aula. Uma pessoa que tenha exercido uma qualquer função de nomeação política nestes serviços, acha-se no direito, e propaga-o com a maior das naturalidades, de por lá ficar quando o seu governo cessa funções. É uma espécie de prateleira dourada, salvo seja, que depaupera as contas da traquitana do Estado. Se são professores, o seu lugar é nas salas de aula.