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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

obstinação, doença, alteridade e bancarrota

29.04.11

 

 

 

Francamente: não se trata de qualquer desistência, mas escrever sobre este modelo de avaliação de professores já faz doer os dedos e os neurónios. Contudo, é difícil ficar indiferente às tiradas da actual CEO do ME: a decisão do tribunal constitucional foi uma vitória para o sistema educativo.

 

Quando tanto se fala em pactos de regime e em continuidade de políticas, é bom puxar pela memória. Em 2005, chegou um governo de maioria que decidiu mudar na Educação tudo o que mexia, fazendo terraplenagem até dos pontos fortes indicados pelos relatórios de avaliação do próprio ME e ignorando a própria lei de bases. Nada disto foi enviado para o tribunal constitucional pelo PR, em respeito pelas decisões da soberana Assembleia da República.

 

Um dos casos paradigmáticos do temporal foi a avaliação de professores. Um modelo comprovadamente inexequível, inaplicável, não testado, injusto e mais-tudo-aquilo-que-se-sabe, que já vai na versão quatro ou cinco, que começou, ou recomeçou, a meio de um ano lectivo mais do que uma vez, que já provocou manifestações incontáveis e com números históricos, que já foi suspenso pela maioria da Assembleia da República a meio de outro ano lectivo, que não regista um parecer técnico positivo nem do próprio conselho científico da avaliação do desempenho, que nunca conseguirá chegar ao fim sem ser em regime de farsa e, mesmo assim, com consequências parecidas com as da France Telecom, é, para o chefe do governo de gestão (pelos vistos um especialista em avaliação de professores) e para a CEO do ME uma coisa que foi derrotada por culpa dos outros.

 

Desculpem ser repetitivo: mas com governantes com estas qualidades de gestão no âmbito do desempenho organizacional, e ainda por cima com sinais de doença por obstinação, era possível escaparmos à bancarrota?

 

efeitos

29.04.11

 

 

 

 

Os spin´s deste PS devem ficar cientes que esta decisão do tribunal constitucional é o pior que lhes podia acontecer em termos de votozinhos. Escusam de tentar atenuar os efeitos. Quem está nas escolas sabe bem como a atmosfera relacional melhorou muito com a suspensão do desmiolo. O regresso, mesmo que temporário, dos procedimentos de quase fascismo por via administrativa voltará a dilacerar o ambiente e terá um novo pico por altura das eleições. 

 

Escusam também de apontar o dedo à oposição. Daqui a umas semanas só prevalecerá, em termos maioritários, claro, um sentimento: derrotar de vez quem inventou esta loucura.

 

E podia acrescentar raciocínios de spin´s de outras cores, dos especialistas em lume brando, por exemplo. Mas fico-me por aqui, porque ninguém lê posts grandes e já confessei o meu primeiro objectivo eleitoral.

tragédia em n actos

29.04.11

 

 

A tragédia é gémea da comédia e a história do modelo quase fascista por via administrativa de avaliação de professores comprova-o. Os episódios mais recentes revelaram o que há muito se escreve: o modelo está derrotado dos mais variados pontos de vista e adia-se o seu desaparecimento através de umas minudências técnicas, como foi hoje o caso.

 

Há sempre vírgulas fora do sítio na nossa comprovada má legislação e dá ideia que a cor com que se tecla origina o envio de decisões para os tribunais e as consequentes deliberações. Desta vez parece que há dúvidas quanto à competência do Parlamento para se intrometer na esfera governativa. Enfim. A casa da democracia é pouco respeitada e não nos podemos admirar com o estado a que chegou a nossa democracia.

 

Sejamos claros. Para além de tudo o que já se escreveu, o PSD atrasou na Assembleia da República o fim do desmiolo. Tanto adiou que acabou por tomar uma decisão que não impediu uma qualquer controvérsia jurídica. Sabe-se que o atraso se deveu à implícita admiração pelas políticas educativas do chefe do governo de gestão, bem demonstradas na cooperação estratégica promovida pelo ainda PR e que agora se voltou a evidenciar.

 

Os professores e as escolas têm que ter uma paciência infinita para aguentar uma gente que levou o país à falência e que andou os últimos anos a usar como arma de arremesso a avaliação dos professores do seu país. Quem está mesmo nas escolas conhece bem o estado de sítio criado e que se volta a prolongar até 5 de Junho. Sem a constituição da nova, salvo seja, Assembleia da República tenho a ideia que nada, em termos legislativos, se poderá fazer.

 

Tribunal Constitucional "chumba" revogação da avaliação de desempenho docente

 

 

uma espécie de contraditório

29.04.11

 

 

Cortesia da Manuela Silveira.


 

“Os professores sabem que as notas não são fiáveis, que não dariam a mesma nota ao mesmo trabalho se lho apresentassem algumas semanas mais tarde e que os seus colegas dariam notas diferentes a esse mesmo trabalho. Eles sabem que são incapazes de precisar, mesmo para si mesmos, os objectivos e critérios de notação. Eles sabem que não sabem em que consiste o «nível» mínimo que permite «passar». Sabem que escapar à média é absurdo. Conhecem os efeitos da estereotipia e de halo. Sabem mas não querem saber que sabem. Sabem inconscientemente. E é por isso que podem em boa fé falar da sua consciência profissional. Ela é, de facto, inocente: trata-se sim do inconsciente!
Mas porquê? O que é que eles defendem com esta resistência? (...) Defendem um prazer. Um prazer de má qualidade mas seguro, garantido, quotidiano. Um prazer que se tem de disfarçar para ser vivido sem culpabilidade (...). Esse prazer, é o prazer do Poder com P maiúsculo. O professor é o mestre absoluto das suas notas. Ninguém, nem o seu director, nem o seu inspector, nem mesmo o seu ministro, podem fazer nada quanto às notas que ele deu. Pois foi de acordo com o seu carácter e a sua consciência que ele as deu. Com o seu diploma, foi-lhe reconhecida a competência de avaliar (o que não deixa de ter graça!). A sua consciência profissional é inatacável. Na sua tarefa de avaliador, ele é omnipotente. E esse domínio significa poder sobre os alunos. A omnipotência de avaliar: um prazer que vem dos infernos e que não podemos olhar de frente...”

 

Patrice Ranjard, 1984, 93-94 

in Philippe Perrenoud, 1992, 169-170