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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

decreto regulamentar

30.04.11

 

 

A ordem do dono foi a seguinte: não saiam do decreto regulamentar; e o disciplinado coro deste PS teve de desconhecer qualquer outro argumento na mais recente polémica a propósito da avaliação dos escolhidos. Não podiam caminhar noutros sentidos, mas sabiam que o modelo era mesmo quase fascismo por via administrativa. Tiveram que fingir que professavam um qualquer totalitarismo por causa do emprego. Daqui a uns meses serão taxativos: bem avisei que era mau, mas os laços familiares exigiam solidariedades únicas.

 

É claro que os professores não se esquecerão dos entendimentos, dos acordos, dos adiamentos e das abstenções, mas quando tiverem que escolher não vão perdoar aos autores da monstruosidade.

 

E depois há atitudes que nunca se esquecem e que exigiram um pragmatismo do tipo da defesa dos direitos humanos: todos e já.

 

É. Este modelo de avaliação de professores situa-se nesse nível e impressiona ver pessoas que se acham democratas agarradas à letra do decreto regulamentar. É mesmo imperdoável.

do silêncio

30.04.11

 

 

Numa época de crise financeira e em que se fazem diagnósticos sem fim, é pertinente que nos interroguemos sobre o silêncio à volta de preocupações manifestadas por George Steiner.

 

"George Steiner, considerado um dos mais importantes pensadores actuais, lamentou que se viva um dos períodos mais selvagens da História e em que os dois grandes produtores de dinheiro são a droga e a pornografia. O professor da Universidade de Cambridge, de origem judaica, considerado um humanista pessimista, afirmou que o holocausto mudou o significado da condição humana e que se perderam certos ideais do progresso humano. A condição humana tornou-se profundamente problemática, frisou.(...)"

obstinação, doença, alteridade e bancarrota

29.04.11

 

 

 

Francamente: não se trata de qualquer desistência, mas escrever sobre este modelo de avaliação de professores já faz doer os dedos e os neurónios. Contudo, é difícil ficar indiferente às tiradas da actual CEO do ME: a decisão do tribunal constitucional foi uma vitória para o sistema educativo.

 

Quando tanto se fala em pactos de regime e em continuidade de políticas, é bom puxar pela memória. Em 2005, chegou um governo de maioria que decidiu mudar na Educação tudo o que mexia, fazendo terraplenagem até dos pontos fortes indicados pelos relatórios de avaliação do próprio ME e ignorando a própria lei de bases. Nada disto foi enviado para o tribunal constitucional pelo PR, em respeito pelas decisões da soberana Assembleia da República.

 

Um dos casos paradigmáticos do temporal foi a avaliação de professores. Um modelo comprovadamente inexequível, inaplicável, não testado, injusto e mais-tudo-aquilo-que-se-sabe, que já vai na versão quatro ou cinco, que começou, ou recomeçou, a meio de um ano lectivo mais do que uma vez, que já provocou manifestações incontáveis e com números históricos, que já foi suspenso pela maioria da Assembleia da República a meio de outro ano lectivo, que não regista um parecer técnico positivo nem do próprio conselho científico da avaliação do desempenho, que nunca conseguirá chegar ao fim sem ser em regime de farsa e, mesmo assim, com consequências parecidas com as da France Telecom, é, para o chefe do governo de gestão (pelos vistos um especialista em avaliação de professores) e para a CEO do ME uma coisa que foi derrotada por culpa dos outros.

 

Desculpem ser repetitivo: mas com governantes com estas qualidades de gestão no âmbito do desempenho organizacional, e ainda por cima com sinais de doença por obstinação, era possível escaparmos à bancarrota?

 

efeitos

29.04.11

 

 

 

 

Os spin´s deste PS devem ficar cientes que esta decisão do tribunal constitucional é o pior que lhes podia acontecer em termos de votozinhos. Escusam de tentar atenuar os efeitos. Quem está nas escolas sabe bem como a atmosfera relacional melhorou muito com a suspensão do desmiolo. O regresso, mesmo que temporário, dos procedimentos de quase fascismo por via administrativa voltará a dilacerar o ambiente e terá um novo pico por altura das eleições. 

 

Escusam também de apontar o dedo à oposição. Daqui a umas semanas só prevalecerá, em termos maioritários, claro, um sentimento: derrotar de vez quem inventou esta loucura.

 

E podia acrescentar raciocínios de spin´s de outras cores, dos especialistas em lume brando, por exemplo. Mas fico-me por aqui, porque ninguém lê posts grandes e já confessei o meu primeiro objectivo eleitoral.

tragédia em n actos

29.04.11

 

 

A tragédia é gémea da comédia e a história do modelo quase fascista por via administrativa de avaliação de professores comprova-o. Os episódios mais recentes revelaram o que há muito se escreve: o modelo está derrotado dos mais variados pontos de vista e adia-se o seu desaparecimento através de umas minudências técnicas, como foi hoje o caso.

 

Há sempre vírgulas fora do sítio na nossa comprovada má legislação e dá ideia que a cor com que se tecla origina o envio de decisões para os tribunais e as consequentes deliberações. Desta vez parece que há dúvidas quanto à competência do Parlamento para se intrometer na esfera governativa. Enfim. A casa da democracia é pouco respeitada e não nos podemos admirar com o estado a que chegou a nossa democracia.

 

Sejamos claros. Para além de tudo o que já se escreveu, o PSD atrasou na Assembleia da República o fim do desmiolo. Tanto adiou que acabou por tomar uma decisão que não impediu uma qualquer controvérsia jurídica. Sabe-se que o atraso se deveu à implícita admiração pelas políticas educativas do chefe do governo de gestão, bem demonstradas na cooperação estratégica promovida pelo ainda PR e que agora se voltou a evidenciar.

 

Os professores e as escolas têm que ter uma paciência infinita para aguentar uma gente que levou o país à falência e que andou os últimos anos a usar como arma de arremesso a avaliação dos professores do seu país. Quem está mesmo nas escolas conhece bem o estado de sítio criado e que se volta a prolongar até 5 de Junho. Sem a constituição da nova, salvo seja, Assembleia da República tenho a ideia que nada, em termos legislativos, se poderá fazer.

 

Tribunal Constitucional "chumba" revogação da avaliação de desempenho docente

 

 

uma espécie de contraditório

29.04.11

 

 

Cortesia da Manuela Silveira.


 

“Os professores sabem que as notas não são fiáveis, que não dariam a mesma nota ao mesmo trabalho se lho apresentassem algumas semanas mais tarde e que os seus colegas dariam notas diferentes a esse mesmo trabalho. Eles sabem que são incapazes de precisar, mesmo para si mesmos, os objectivos e critérios de notação. Eles sabem que não sabem em que consiste o «nível» mínimo que permite «passar». Sabem que escapar à média é absurdo. Conhecem os efeitos da estereotipia e de halo. Sabem mas não querem saber que sabem. Sabem inconscientemente. E é por isso que podem em boa fé falar da sua consciência profissional. Ela é, de facto, inocente: trata-se sim do inconsciente!
Mas porquê? O que é que eles defendem com esta resistência? (...) Defendem um prazer. Um prazer de má qualidade mas seguro, garantido, quotidiano. Um prazer que se tem de disfarçar para ser vivido sem culpabilidade (...). Esse prazer, é o prazer do Poder com P maiúsculo. O professor é o mestre absoluto das suas notas. Ninguém, nem o seu director, nem o seu inspector, nem mesmo o seu ministro, podem fazer nada quanto às notas que ele deu. Pois foi de acordo com o seu carácter e a sua consciência que ele as deu. Com o seu diploma, foi-lhe reconhecida a competência de avaliar (o que não deixa de ter graça!). A sua consciência profissional é inatacável. Na sua tarefa de avaliador, ele é omnipotente. E esse domínio significa poder sobre os alunos. A omnipotência de avaliar: um prazer que vem dos infernos e que não podemos olhar de frente...”

 

Patrice Ranjard, 1984, 93-94 

in Philippe Perrenoud, 1992, 169-170

todos?!

28.04.11

 

 

 

 

 

Ando há dias com este post por publicar. Não o fiz antes porque não gosto muito de juízos morais nem de atribuir responsabilidades de forma injusta. Mas que raio: estou cansado de ouvir responsáveis políticos, ex-presidentes da República, por exemplo, apontarem a culpa colectiva pelo estado do país. Devemos fazer um exercício introspectivo e mudar. É isso que tento fazer.

 

Não confio em pessoas que se proclamam imaculadas. Tenho os meus pecados. Sei que por vezes excedo o limite de velocidade nas autoestradas e que nem sempre estaciono o automóvel de modo regulamentar. Por outro lado, há muitos anos que não tenho qualquer empréstimo bancário e só adquiro carros, livros, computadores, viagens, electrodomésticos e por aí fora a pronto pagamento. Nem queria entrar muito por este domínio porque não censuro mesmo quem não o faz. Só me desgostam aqueles que usaram o alguém-que-pague-depois com o resultado que se sabe: pagamos-quase-todos.

 

Tenho orgulho do meu exercício profissional e no modo como me entreguei aos cargos públicos para que fui eleito. Para esses exercícios, nortearam-me dois princípios inabaláveis: o convencimento da minha utilidade e a minha vontade.

 

Dito isto, vamos ao que mais interessa. Portugal está como está também por causas internas. Desrespeito pelo dinheiro que os contribuintes põem ao dispôr dos governantes é o primeiro. O segundo é a corrupção.

 

Para recomeçar temos de mudar de protagonistas, porque a culpa não pode ficar sem dono e ponto final. A democracia é frágil e as ditaduras espreitam em cada esquina. Leio cada vez mais a ideia da necessidade de uma revolução e isso não me agrada. Não é que me assuste. Não me agrada, repito. Sabemos dos perigos que se correm nessas alturas. Mas há uma evidencia: a culpa não é de todos e os que são exímios a advogar na barra dos tribunais não podem branquear os responsáveis. Portugal tem de mudar e devemos continuar a acreditar no valor primeiro da democracia: o voto. O sufrágio directo e universal deve funcionar como advogado de acusação e a democracia será o nosso implacável juiz.

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