Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

oh anjos

01.04.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A poesia de Rainer Maria Rilke não é fácil; demora a perceber. Ler Rilke dá trabalho: é preciso reler algumas vezes. O resultado é sempre sublime. É um dos meus poetas preferidos.

 

Uma das suas obras maiores, "As elegias de Duíno", confunde-se com a aura do local onde o poeta a iniciou: o castelo de Duíno (na imagem que acompanha este texto) que se situa perto da cidade de Trieste e sobre o mar Adriático. Como pode ver na imagem, o castelo é magnífico e fica quase inacessível.

 

Deixo-vos uma parte - na tradução de Maria Teresa Dias Furtado - da primeira elegia.

 

 

 

Se eu gritar quem poderá ouvir-me, nas hierarquias

dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse

para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua

natureza mais potente. Pois o belo apenas é

o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,

e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha

destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

 

Por isso me contenho e engulo o apelo

deste soluço obscuro. Ai de nós, mas quem nos poderia

valer? Nem Anjos, nem homens,

e os argutos animais sabem já

que nós no mundo interpretado não estamos

confiantes nem à vontade. Resta-nos talvez

uma árvore na encosta que possamos rever

diariamente; resta-nos a rua de ontem

e a fidelidade continuada de um hábito,

que a nós se afeiçoou e em nós permaneceu.

 

Oh, e a noite, a noite, quando o vento, cheio de espaço do universo

nos devora o rosto -, por quem não permaneceria ela, a desejada,

suavemente enganadora, que com tanto esforço se ergue em frente

do coração isolado? Será ela para os amantes menos dura?

Ah, um com o outro eles se ocultam da sua própria sorte, apenas.(...)

um dia

01.04.10

 

 

Foi daqui

 

 

 

 

Cortesia de Manuela Silveira.


 

 

 

 

Um dia,

os intelectuais
apolíticos
do meu país
serão interrogados
pelo homem simples do nosso povo.

Serão perguntados
sobre o que fizeram
quando a pátria se apagava lentamente,
como uma fogueira frágil,
pequena e só.

Não serão interrogados
sobre os seus trajes,
nem acerca das suas longas
sestas após o almoço,
tão pouco sobre os seus estéreis
combates com o nada,
nem sobre sua ontológica
maneira de chegar às moedas.

Ninguém os interrogará
acerca da mitologia grega,
nem sobre o asco
que sentiram de si,
quando alguém, no seu fundo,
dispunha-se a morrer covardemente.
Ninguém lhes perguntará
sobre suas justificações absurdas,
crescidas à sombra
de uma mentira rotunda.

Nesse dia virão
os homens simples.
Os que nunca couberam
nos livros e versos
dos intelectuais apolíticos,
mas que vinham todos os dias
trazer-lhes o leite e o pão,
os ovos e as tortilhas,
os que costuravam a roupa,
os que manejavam os carros,
cuidavam dos seus cães e jardins,
e para eles trabalhavam,
e perguntarão,


“Que fizestes quando os pobres
sofriam e neles se queimava,
gravemente, a ternura e a vida?”

Intelectuais apolíticos
do meu doce país,
nada podereis responder.

Um abutre de silêncio vos devorará
as entranhas.
Vos roerá a alma
vossa própria miséria.
E calareis,
envergonhados de vós próprios.

 

 

Otto Rene Castillo

 

a desgraça da avaliação externa

01.04.10

 

 

 

Foi daqui

 

 

 

Já escrevi por diversas vezes e já tive a oportunidade de o dizer nos locais "próprios" e cara-a-cara: a avaliação externa das escolas portuguesas é uma desgraça, como pode ler aquidá um forte contributo para o mergulho na papelada inútil que alimenta o metabolismo das nossas escolas e atinge um pico descomunal no final dos períodos lectivos ou nas semanas que antecedem a presença dos ditos avaliadores - as fotocopiadoras costumam gemer de tanto fumegar -. Mas não se podia fazer de outro modo? Claro que sim; não só podia como se devia. Embora, e no que diz respeito à gestão escolar, remeter a avaliação externa para uma política de poupança vegetal, de saúde mental e psicológica, de eficácia organizacional e de respeito e confiança nos professores dê algum trabalho na fase inicial.

 

Mas foquemos o pensamento no cerne da questão. Dizia uma especialista em qualidade total da gestão das organizações e que tem trabalho realizado com a inspecção-geral da Educação, que as correntes actuais de avaliação externa sugerem que o fundamental é ir à procura do modelo organizacional, da sua coerência e eficácia, de cada instituição. Para além disso, devem estimular procedimentos modernos na gestão da informação e nunca o contrário - mas como se sabe, ninguém estimula o que desconhece -. O que acontece em Portugal é exactamente o contrário: a inspecção-geral define expressamente, e de modo impresso, o que quer obter para justificar a sua existência e as escolas ficam alienadas com a obtenção de informação que não utilizam e que repetem até à exaustão. Mas mais: para que nada falhe, os membros da direcção das escolas são avaliados pelo grau de proficiência na acumulação do desperdício e agora também na gestão do silêncio: uma tragédia, como se comprova no que pode ler a seguir.

 

Pais dizem que escolas que denunciam violência são penalizadas na avaliação