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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

desplante

15.12.09

 

Foi daqui.

 

 

 

 

Fiz há dias um tipo de benchmarking com um amigo que se movimenta no universo da gestão das empresas privadas e que não percebia lá muito bem o que se passa na nossa Educação. Dei-lhe dois maus exemplos de gestão, muito mediatizados, no âmbito do ministério da Educação: concursos de professores e avaliação do desempenho.

 

Em ambos os casos tentou-se generalizar novos modos de operar sem testar em amostras significativas.

  • Nos concursos de professores de 2003 o caos foi o que se sabe com uma aplicação informática construída sem bases de profissionalismo e em desrespeito pelos sistema escolar.
  • Na avaliação de professores de 2008 fez-se o mesmo: um modelo incompetente foi objecto de uma tentativa de imposição e logo a 140 mil professores ao mesmo tempo; um desastre total como se sabe e que dois anos depois ainda não tem fim à vista e proporciona momentos inacreditáveis de farsa e de fingimento.

 

O meu amigo nem queria acreditar (ele até vive em Portugal, percebi que estava a dissimular o desconhecimento, mas fui tolerante com um homem que tem com o partido a mesma fidelidade que manifesta ao clube de futebol). Disse-me que na área em que se movimenta tal seria impossível. Contou-me o caso de uma empresa onde era membro do um conselho de administração e que, e num momento de crise, uma parte desse órgão decidiu-se por mudar as lideranças executivas e intermédias. Os neófitos não tardaram em impor uma série de procedimentos administrativos também sem a submissão a um processo de teste e com o argumento de serem os únicos instrumentos que conheciam. A coisa correu mal, acabaram todos despedidos, tiveram de indemnizar a empresa e repor os recursos financeiros que tinham auferido.

 

Nada que se compare com o que se passa no sistema escolar, chegámos ambos à conclusão. Também lhe disse, que, e ao julgo saber, os responsáveis pelos desastres que relatei, não indemnizaram quem quer que fosse e ainda foram ocupar lugares (sim, lugares, porque liderança é outra coisa, mais rara e requer legitimação à séria) em executivos de empresas públicas - ou privadas mas com a mesmas fontes de financiamento das públicas -, ou noutras pastas nos governos seguintes ou ainda em assessorias dos órgãos de soberania.

o palhaço

15.12.09

 

 

Um excelente texto de Mário Crespo, no JN Online, aqui e também de seguida.

 

 

O palhaço

Ontem

"O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.

O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.

Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.

E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.

Ou nós, ou o palhaço."