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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

por que é que podem falhar umas negociações?

26.11.09

 

 

 

Foi daqui.

 

 

 

Se olharmos para o conflito israelo-palestiniano poderemos afirmar que é por uma causa primeira: os extremismos de ambos os lados. E apesar de todas as outras nuances, importa centrar aí a nossa atenção de modo a aprendermos com esses erros.

 

Noutra escala, evidentemente, a guerra entre o governo e os professores tem contornos semelhantes. Neste caso, os extremismos são de origem financeira. Apesar de muitas vezes dissimulado, é esse o constrangimento essencial e já tem história.

 

O primeiro acto dos governantes, foi, em 2005, retirar dos horários dos professores a redução da componente lectiva para o exercício da maioria dos cargos. Os professores aceitaram a redução de 20.000 professores em nome do desígnio nacional de combate ao défice.

 

Quatro anos depois, conhece-se o desmando e o fartar vilanagem de quem se move na quase intocável alta finança e com a conivência dos governos. Com estes exemplos, como é que se quer que a classe média continue a aceitar o encargo de ser a única a custear os desvarios?

 

 

 

 

manha e falso prestígio; os dois males de que sofre a vida portuguesa

26.11.09

 

Foi daqui

 

 

Sei que é um texto longo para este formato, mas leia até ao fim que vale a pena.                              

 

 

"Há, sim senhor!

Há um Portugal sério, um Portugal que trabalha, que estuda; curioso, atento e honrado! Há um Portugal que não perde o seu tempo com inimigos fantásticos e cujo único desejo é apenas e grandemente ser Ele próprio! Há um Portugal, o único que deve haver e que afinal é o único que não anda por causa dos vários Portugais inventados de todos os lados de Portugal! Há um Portugal profissionalista, civil e insubornável! Há, sim meus senhores!

 

Mas entretanto…Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falso prestígio. É o que mais há agora por aí em Portugal: os falsos prestígios.

E vai-se dizer de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa, é só nossa! Não há nenhum português, nem o escolhido entre os melhores, que não tenha forte parte nesta culpa. Porque os portugueses, os bons, os melhores, os sérios, os inteiros, enfim os portugueses (se se entendesse bem esta palavra) não sabem, ou melhor, não desejam lutar contra a manha dos que chegam a ser ou favorecem os falsos prestígios. Ora, a maneira de lutar contra a manha não é manha e meia, antes pelo contrário, é a de detestá-la absolutamente, e mais, desmascarando-a publicamente e ali mesmo. Senão ouvi: É completamente impossível esmerar-se cada qual apenas no que produz de correcto dentro da sua profissão. Para que fosse possível seria necessário que o conjunto colectivo correspondesse de facto à qualidade de toda e qualquer profissão. Impossível aqui em Portugal. O momento tem a realidade imperativa do seu instante. Aqui não se distingue o correcto do impróprio. É necessário vir explicá-lo na praça pública.

 

Todo aquele que cuide que lhe bastará para progredir na sua profissão o ser probo nos seus estudos e produções, engana-se terrivelmente, pois que lhe falta ainda e sobretudo o seu dever cívico de encarreirar as gentes e livrá-las dos glosistas, pasticheurs e até mixordeiros de toda e qualquer profissão. É urgente e actualíssimo vir até ao público e denunciar-lhe como o comem por parvo com falcatruas, e lhe dão gato por lebre.

 

Efectivamente o único complicado aqui é a maneira de liquidar os manhosos. É complicado porque eles escapariam até aos gases asfixiantes! É complicado porque eles conhecem a fundo e melhor do que ninguém como funciona a superstição sentimental das gentes e, confessamo-lo, servem-se dela admiravelmente. Tão admiravelmente que ganham sempre com as recansadas fórmulas que ainda são inéditas para tantos: oficiais do mesmo ofício, invejas, concorrências, etc… evitando simplesmente a polémica técnica e a discussão do mérito. E francamente, eles não deixam de ter carradas de razão, carradíssimas de razão ao confiar em que isso do mérito em Portugal é questão de cara ou coroa. Pois apesar disso ainda fazem batota por cima. Por cima, não, por baixo: de cócoras, beijoqueiros, manteigueiros e por último descarados. Um autêntico e constante desfile de atropeladores à coca do lugar de falso prestígio. E chegam lá. Depois rebentam.

 

A culpa de ser a nossa querida terra tão propícia à vegetação dos manhosos e à arribação dos falsos prestígios, essa culpa é incomparavelmente menos misteriosa do que possa parecê-lo à simples vista. Ela não está na inocência dos simples e dos leigos que servem sem querer e sem saberem de trampolim elástico para o salto mortal dos cambalhoteiros. A culpa, meus senhores, é de nós todos e sobretudo nossa. Nossa porque tivemos sempre muitíssima mais razão do que serenidade para dizermos com toda a claridade a razão que temos. Esta nossa falta de serenidade tem sido, oiçam-nos bem, meus senhores, a grande vantagem, a maior de todas, e da qual os manhosos melhor se servem para acabar de convencer o público lá pelos seus processos nada invejáveis. Este terreno é deles e são naturalmente dos maitress chez soi. Façamo-los vir para o nosso. E não esqueçamos tão pouco que eles sabem muito bem que o público se convence melhor com o sonoro do que com o mudo. Sejamos, pois, tão sonoros como eles mas nitidamente contrários.

 

Declaremos a guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inimizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra e faz medrar a marmelada nacional. E, sobretudo, com toda a serenidade, lancemo-nos definitivamente ao ataque dos manhosos e dos prestígios, esta vergonha maior de Portugal, e que seja tão nítido o nosso ataque, tão clara a nossa razão e tão serena a nossa atitude, que, nunca mais aconteça o que até aqui, em que a nossa indignação e protesto eram movidos com tão justo calor português que nem se davam conta das falhas que arrasta consigo a serenidade, essas falhas legitimamente nossas e que as sabem tão bem pescar os manhosos, ou como diz o povo, os aldrabões!

 

A verdade é esta: o nosso combate aos manhosos até hoje teve o triste resultado de se poder confundir com o dos caluniadores e dos invejosos. Façamos grandemente atenção a isto mesmo e teremos liquidado o último recurso dos manhosos. Estamos a nós próprios um desaire a que estão sujeitos os caluniadores e os invejosos, os quais são, bem contrariamente, o único gás com que afinal sobe de verdade o aeróstato do falso prestígio!

 

Conheceis certamente aquela história da Antiga Grécia, onde um homem que tem de castigar um escravo é tomado de ira, de tal maneira que é forçado a suspender o castigo, dizendo-lhe: o que a ti te vale é eu estar tão irado, senão, se eu tivesse serenidade neste momento, não perdias nenhuma das que eu te queria dar.

Ora, meus senhores, nem toda a gente é susceptível de dispor de serenidade, e os menos susceptíveis de todos são francamente os manhosos."


 

 

 

José de Almada Negreiros.

No Diário de Notícias

de 3 de Novembro de 1933.

Cortesia de Manuela Silveira.

proposta do ME para a revisão do estatuto da carreira dos professores

26.11.09

 

 

 

Foi daqui.

 

 

 

Esta proposta prevê uma carreira única, desaparecendo a categoria de professor titular, que se desenvolverá em dez escalões.

 

Tem vários aspectos positivos e outros nem tanto assim. Prevê a criação de um contigente de vagas nos acessos ao 3º, 5º e 7º escalões, onde também existirá um processo de observação de aulas. Parece-me sensata a articulação da avaliação com a progressão na carreira apenas no último ano de permanência no respectivo escalão. Também me parece mais claro, como sempre defendi, que se estabeleçam vagas no acesso aos escalões por motivos financeiros do que se "mascare" a decisão com espúrias divisões funcionais entre os professores. Todavia, parece-me exagerado criar três patamares de contingência. Mais: o processo de criação de vagas tem de ser muito estudado e com mecanismos muito transparentes.

 

Prevê ainda o estabelecimento de conteúdos funcionais nos últimos dois escalões e uma prova de ingresso na carreira. São propostas que devem ser muito esmiuçadas. Um prova de ingresso na carreira comum para todos os professores? Não me parece curial.

 

Vamos acompanhar as negociações. A última nota de imprensa do ministério da Educação (ME) foi escrita com um espírito completamente diferente; sem a arrogância e o desígnio de propaganda que se verificou nos anos anteriores. A intenção é clara e bem expressa: conseguir acordos com um elevado respeito por todos os negociadores.

 

Tem a proposta do ME aqui.

 

A referida nota de imprensa diz assim:

 

"Declaração do Secretário de Estado Adjunto e da Educação

O Ministério da Educação reuniu hoje, de novo, com as organizações sindicais representativas dos professores e educadores de infância. Quero registar o enorme passo de aproximação do Governo relativamente às posições defendidas por estas organizações.

Assim, no decorrer deste processo negocial, esperamos assistir à aproximação dos sindicatos às posições defendidas pelo Governo, nomeadamente no que se prende com as consequências da avaliação. 

Pretende-se que a avaliação contribua para a melhoria da escola pública. 

Pretende-se um sistema de avaliação que devolva a serenidade às escolas. 

Pretende-se que distinga a qualidade e promova a excelência. 

Não haverá aspectos inconciliáveis, porque ambas as partes pretendem alcançar estes objectivo.

Esta foi apenas uma de várias reuniões. Estamos em pleno processo negocial. Trata-se de uma negociação global, em que se cruzam aspectos da Avaliação e do Estatuto da Carreira Docente. 

Aproveito para assinalar a atitude construtiva manifestada pelas organizações sindicais representativas dos professores e educadores de infância. Estou certo de que conseguiremos chegar a bom porto e que alcançaremos soluções em que a escola pública seja valorizada.

Lisboa, 25 de Novembro de 2009

o gabinete de comunicação"