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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

a derrota é uma coisa preciosa

14.10.09

 

 

Foi daqui.

 

 

 

Uma boa crónica de Rui Tavares - deputado europeu pelo bloco de esquerda - foi publicada na edição impressa de 14 de Outubro de 2009 do jornal Público.

 

Ora leia.

 

"O Bloco de Esquerda levou a primeira grande lição da sua história de dez anos. Foi mesmo o principal derrotado das últimas eleições autárquicas (o CDS não conta, porque praticamente nem foi a jogo).

Isto é interessante. Mesmo as pessoas que gostam do BE e que acham que ele tem um papel essencial na política portuguesa - eu incluído - certamente não acham boa ideia que um partido tenha o crescimento por garantido, o que faria dele acrítico, teimoso e desatento.

Uma derrota é uma coisa preciosa, e a sua lição não deve nunca ser desperdiçada. O próprio Bloco de Esquerda deveria sabê-lo bem, uma vez que é, de certa forma, filho de uma derrota - a do primeiro referendo do aborto, que precedeu e influenciou directamente a fundação do partido em 1999. Dez anos depois, tendo feito mais pela alteração do panorama político português do que provavelmente qualquer outro partido, e no fim de um ano brilhante em termos eleitorais, esta derrota vem no momento menos mau.

Mas não pode ser desvalorizada. As eleições locais não são eleições menores. Provavelmente, é mesmo por aí que o Bloco de Esquerda poderia começar. As eleições locais têm uma lógica própria que não deve ser subalternizada pelas eleições nacionais - são demasiado importantes para isso. Um partido de esquerda, com raízes urbanas e com objectivos de modernização do país, precisa de ter a cabeça mais aberta quando pensa a política local. E não é só o Bloco.

Nas próximas eleições locais, entre os 305 presidentes de câmara, metade não poderá recandidatar-se. O país deveria aproveitar para iniciar uma autêntica revolução no poder local, feita de um novo discurso urbano e de uma nova prática cívica. A preparação dela começa agora.

Um novo discurso urbano começa por duas dimensões aparentemente simples: onde as pessoas moram e como elas se movem. Mas as suas ramificações têm consequências enormes. Num tempo de crise, é comum falar-se dos efeitos "multiplicadores" do investimento público. É bom lembrar que, em política urbana, os multiplicadores vão muito para além da economia. É investimento público que gera novo investimento, é certo, mas igualmente importantes são os seus multiplicadores culturais e sociais. Em cidades com centros degradados com as nossas, são também multiplicadores de qualidade de vida. Em cidades dominadas pelo automóvel, as políticas de transportes públicos são também multiplicadores ambientais. E promover a participação política local é talvez um dos mais poderosos multiplicadores cívicos.

Aqui entra o segundo plano. Uma nova prática cívica significa promover mais debate local, ter mais abertura, criar mais momentos de deliberação. As pessoas podem não saber tudo sobre macroeconomia ou direito internacional, mas em geral têm uma ideia muito concreta de como querem mudar a sua vida na cidade. Ao discuti-lo não só preparam o caminho para essa mudança como melhoram a qualidade da democracia.

É agora que é preciso começar a fazê-lo, abrindo espaço para iniciativas radicais como a elaboração de programas políticos em fóruns comuns e, apenas mais tarde, a realização de eleições primárias locais. A esquerda - toda ela - deve ser pioneira nisto. Eu não quero apenas que, daqui a quatro anos, metade dos presidentes de câmara tenha uma cara nova; quero que eles tenham sido escolhidos de uma outra maneira, mais inteligente, mais exigente - e que saibam melhor o que fazer."

 

não tarda e voltamos ao país da tanga e do corte urgente nas despesas para os do costume mas de roda livre para os mesmos de sempre

14.10.09

 

 

Foi daqui.

Défice público nos 9, 2%

"Nos primeiros seis meses do ano, o buraco das contas públicas atingiu os 7330 milhões de euros, o que corresponde a um défice acumulado de 9,2% do PIB, revela o relatório da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) da Assembleia da República sobre a execução orçamental até ao 2º trimestre de 2009. Este é, aliás, o segundo valor mais elevado da década.

Os números mostram que as necessidades de financiamento do Estado se agravaram “significativamente”. Por isso, o défice poderá tornar-se na maior condicionante do próximo Governo.(...)"

 

 

as negociações evoluem?

14.10.09

 

 

Foi daqui.

Ferreira Leite não quer nem coligações nem acordos com o PS

 

"Duas vezes não. Nem coligações nem acordos parlamentares. Manuela Ferreira Leite, líder do PSD, foi a primeira a ouvir a pergunta de José Sócrates sobre a disponibilidade para uma coligação ou um acordo de incidência parlamentar. O PSD, afirmou Ferreira Leite, fará uma “oposição responsável” e afirma-se indisponível para os tais acordos com os socialistas.

Esta recusa não quer dizer que os social-democratas vão rejeitar todas as propostas do Governo “só porque são do Governo” ou que vá avançar com ideias que não sejam exequíveis. O PSD, como força de alternativa, não pode defraudar as expectativas dos eleitores que votaram no partido. “A estabilidade governativa consegue-se com a qualidade da governação”, afirmou.(...)"

pertenças

14.10.09

 

(encontrei esta imagem aqui)

 

 

 

"(...) Afinal, onde pertencemos exactamente? Talvez não pertençamos a lugar nenhum. Nem isto, nem qualquer outra coisa, tem uma resposta a preto e branco. Eu cresci num contexto de ambivalência, de ambiguidade, de emoções misturadas, de relações amor-ódio e de amor não correspondido. E o meu bairro estava cheio de "potenciais reformadores do mundo", idealistas e ideólogos. Todos com a sua fórmula pessoal de redenção instantânea. Todos grandes oradores, mas ninguém os escutava. O bairro estava cheio de tolstoianos - pessoas que acreditavam na ideologia de Tolstoi -, alguns até tinham o mesmo aspecto e vestiam-se como Tolstoi. Deixavam crescer a mesma barba branca e usavam uma espécie de toga russa cingida por uma corda. Pareciam mais tolstoianos que o próprio Tolstoi. Quando, pela primeira vez, vi uma fotografia de Tolstoi na contracapa de um dos seus romances, estava convencido de que era alguém do nosso bairro. Não o vira eu muitas vezes? E não apenas a ele, mas também à família, aos irmãos. Era um dos nossos. Deste modo, eram tolstoianos, mas muitos deles tinham saído directamente de uma romance de Dostoievski porque tinham uma mente e uma alma muito torturadas, cheias de contradições, de raiva e de conflito. Diria até mais: aqueles doistoievskianos tolstoianos pertenciam, na realidade, a uma história de Tcheckov. O espírito real do bairro não era nem Tolstoi nem Doistoievski: era Tchekov. A nostalgia dos lugares longínquos. Em algum lugar para lá do horizonte estava a amada cidade de Moscovo, Moscovo...

Mas essa Moscovo - que podia ser Berlim, Viena, Paris ou Vaarsóvia, ou qualquer outra -, essa "Moscovo para lá do horizonte", não amava aqueles judeus. Queria-os longe da vista, longe da mente, longe do mundo, em alguns casos. Eles nem sequer podiam confessar o seu amor pelas culturas que tinham deixado para trás.(...)".

 

Amos Oz,  "Contra o fanatismo",

edições ASA, páginas 72 e 73.