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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

contra a avaliação de docentes enquanto mistificação

18.06.09

 

 

 

(encontrei esta imagem aqui)

 

 

Pode ler na edição impressa do jornal Público de hoje, aqui, um texto contra a avaliação de docentes enquanto mistificação subscrito por vários autores.

 

Para simplificar a vida aos leitores, colo de seguida o texto em que também sou subscritor.

 

 

"Esta é a declaração de uma intenção tomada em consciência e coerência com as atitudes e posições por nós assumidas num passado recente. Não é um apelo a um qualquer movimento de desobediência civil, nem o seu contrário, assim como também não é uma recusa em nos submetermos à avaliação da qualidade do nosso desempenho enquanto docentes.

É apenas a manifestação pública da impossibilidade, de acordo com princípios de coerência e responsabilidade de que nos orgulhamos, de aceitarmos seguir as directrizes de um modelo de avaliação do nosso desempenho que de forma alguma cumpre os objectivos afirmados pela tutela, em particular no regime simplificado em vigor, de constitucionalidade duvidosa e escassa qualidade técnica.

Em conformidade com posições adoptadas por todos nós em momentos anteriores, os subscritores desta declaração afirmam a sua indisponibilidade para entregar a ficha de auto-avaliação nos moldes predeterminados pelo Ministério da Educação.

Esta posição implica rejeitar a transformação do biénio 2007-09 numa pseudo-avaliação com base em objectivos definidos entre três a cinco meses do final das actividades lectivas deste período. Esta atitude significa a recusa frontal em participar de forma activa numa mistificação pública cujo objectivo é fazer passar por verdadeira uma avaliação falseada do mérito profissional dos docentes, mistificação esta que sabemos ter objectivos meramente eleitoralistas mas que terá consequências profundamente negativas para a qualidade da educação em Portugal.

Estamos conscientes das potenciais consequências da nossa tomada de posição, nomeadamente quanto à ameaça da não progressão na carreira por um período de dois anos lectivos, assim como de um eventual procedimento disciplinar que todos contestaremos em seu devido tempo.Esta é uma atitude cujas implicações apenas recaem sobre nós, estando todos preparados para continuar a lutar pela demonstração da ilegalidade do regime da chamada avaliação simplex.

Estamos ainda conscientes de algumas críticas que nos serão dirigidas de diversos quadrantes. Todas elas serão bem-vindas, venham de onde vierem, desde que se baseiem em argumentos e não em meras qualificações destituídas de conteúdo.

Aos que nos queiram apontar que não compete a cada cidadão definir a forma de cumprimento das leis que se lhe aplicam, poderíamos evocar o artigo 21º da Constituição da República Portuguesa, mas bastará sublinhar o que acima ficou explicitado sobre a forma como encaramos as consequências dos nossos actos. A todos os que considerarem que esta é uma radicalização excessiva do nosso conflito com o Ministério da Educação reafirmamos que o fazemos em consciência e coerência com os nossos princípios éticos, sem calculismos ou outros oportunismos de circunstância.

Por último, salientamos que esta declaração não é um apelo a qualquer tomada de posição semelhante por ninguém, mas tão-só a afirmação da nossa. Não podemos, porém, deixar de constatar que a força de qualquer atitude é tão mais poderosa quanto consciente e esclarecida a convicção de quem a toma.

Ana Mendes da Silva (Esc. Sec. da Amadora), Armanda Sousa, (Esc. Sec./3 de Felgueiras)Fátima Freitas (Esc. Sec. António Sérgio, Porto), Helena Bastos (EB 2/3 Pintor Almada Negreiros, Lisboa), Maria José Simas (Esc. Sec. D. João II, Setúbal), Mário Machaqueiro(Esc. Secundária de Caneças), Maurício de Brito (Esc. Sec. Ponte de Lima), Paulo Guinote(EB 2/3 Mouzinho da Silveira, B. Banheira) Paulo Prudêncio (EBI Santo Onofre, Caldas da Rainha), Pedro Castro (Esc. Sec. Maia), Ricardo Silva (EB 2/3 D. Carlos I, Sintra), Rosa Medina de Sousa (Esc. Sec. José Saramago, Mafra) e Teodoro Manuel (Esc. Sec. Moita).

Público, 13 de Junho de 2009"

 

contas

18.06.09

 

 

 

 

Tudo indica que o dia 7 de Junho de 2009 (eleições europeias) vai ficar marcado, para os professores portugueses, por mais um momento de catarse e de grito. Lutarão sem tibiezas até que haja uma mudança significativa de políticas. Mas gritaram também contra a inexequiblidade de um modelo de avaliação de desempenho que, por ser demasiado incompetente (e também despesista, veja-se lá), cria brutais injustiças. Entre tantas linhas que já escrevi sobre o assunto, quero reforçar a ideia que levou à reforma antecipada de milhares de professores com penalizações até aqui impensáveis; não poderão voltar atrás e ficam, de modo irreversível, julgo eu, com a sua conta do famigerado "accountability".

 

Pois é: este palavrão - responsabilização ou prestação de contas -, gastou-se num ápice. 

  • Quem não se lembra dos inúmeros momentos mediáticos em que os especialistas mais variados repisavam a palavra-chave?
  • Quem não se lembra da ideia esmagadora que conferia aos professores portugueses o privilégio de vida em roda livre e sem "accountability"?
  • Quem não se lembra dos arautos do modelo de avaliação do desempenho que, e no meio de tanta prosápia, e para convenceram os ignores, já tinham baptizado o monstro com um valor até aí desconhecido: "accountability"?

Assistimos nos últimos anos a uma transferência brutal de recursos financeiros das classes média e baixa para os altos negócios. Associada a essa panaceia de controle das despesas, introduziram-se mecanismos de má, asfixiante e férrea, burocracia sobre grandes grupos profissionais (em Portugal, os professores portugueses foram o grupo eleito). Ou seja, sem o "accountability" desses profissionais não haveria paz na terra e felicidade para todos.

  • E agora?

Podemos inverter o sentido do "accountability", devolvendo-o aos que nos deram tantas "lições" na matéria.

  • Onde está o "accountability" de quem promoveu e apoiou o monstruoso modelo de avaliação de desempenho dos professores portugueses?
  • Onde está o "accountability" dos lucros privados?

Não aceitamos que sejam os grandes grupos profissionais da classe média que terão o "accountability" de contribuir para a próxima nacionalização dos prejuízos.

 

Os professores portugueses iniciaram a sua verdadeira prestação de contas, sem nunca esquecerem o seguinte:

 

em rede com a sua avaliação está um sem número de ideias congéneres que se iniciaram noutro desígnio: por mais que os governantes portugueses teimem em afirmar o contrário, instituiu-se, passo a passo, degrau a degrau, a ideia de derrube do poder democrático das escolas, tentando fundar a prazo um ensino privado para os ricos - privatização dos lucros - e uma escola estatal massificada para os pobres - nacionalização dos prejuízos -. E quando o "homem novo", o actual chefe do governo, classifica o actual modelo de avaliação como exigente, complexo e burocrático está a ser sibilino e demonstra um péssimo perder. Ao dizer exigente, quer passar uma mensagem: os professores não tinham competência para uma coisa tão avançada. Ora isso é monstruoso e falso; e imperdoável.

 

as redes sociais e o cérebro

18.06.09

 

(encontrei esta imagem aqui)

 

 

 

"Comportamento. Neurologista inglesa alerta para consequências do Facebook

O Facebook e o Twitter estão a mudar a forma como pensamos. Ao que parece, literalmente. Uma prestigiada neurologista britânica diz que os efeitos culturais e psicológicos das relações online vão mudar o cérebro das próximas gerações: menos capacidade de concentração, mais egoísmo e dificuldade de simpatizar com os outros e uma identidade mais frágil são algumas das consequências que Susan Greenfield antecipa.

O alerta da especialista surge na mesma semana em que foi divulgado que Portugal é o terceiro país europeu que mais utiliza as redes sociais na Internet - de acordo com a Marktest, só em Março passado, os portugueses dedicaram quatro milhões de horas a estes sites. "Uma geração que cresce com novas tecnologias e num ambiente cultural diverso vai ser naturalmente diferente: da forma como processa os pensamentos, à moral e comportamentos", concorda o neurologista Lopes Lima. No entanto, será uma geração mais adaptada às circunstâncias actuais - "faz parte da evolução humana", diz.

Também o psiquiatra Álvaro de Carvalho considera que é inevitável que esta adesão às redes sociais e ás novas formas de comunicar "induza uma forma de funcionamento mental diferente: que tem aspectos negativos, mas também positivos.". Na Câmara dos Lordes inglesa, Susan Greenfield salientou os negativos: a directora do reputado Royal Institution of Great Britain acredita que a exposição das crianças à rapidez da comunicação pode acostumar o cérebro a trabalhar em escalas de tempo muito curtas e aumentar as distúrbios de défices de atenção. Além disso, salienta a preferência pelas recompensas imediatas, ligada às áreas do cérebro que também estão envolvidas na dependência de drogas. 

"Há o risco de não valorizar aspectos da vida que não são atractivos no imediato, enquanto se vai mais atrás do prazer rápido", concorda Álvaro de Carvalho. "Nas crianças, aquilo que é óbvio é que as novas formas de comunicação, menos presenciais, criam um modelo de interacção menos humanizado, muito menos rico a nível emocional, já que a capacidade de sentir o outro é limitada", diz o psiquiatra.

Ou seja, a capacidade de desenvolver empatia pelos outros também pode ser afectada. Esta mudança preocupa o neuropsicólogo Manuel Domingos. "Há pessoas que privilegiam a conversa atrás do teclado, onde podem ficar escondidas", diz. Por isso, apesar de aparentemente facilitar a comunicação, acaba por a simplificar de mais, argumenta.

Para Álvaro de Carvalho, neste momento, ainda estamos a assistir à implementação de um novo modelo e por isso há muita especulação. "Há mais perguntas que respostas", reconhece o psiquiatra."