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Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

Correntes

da pedagogia e em busca do pensamento livre

cotas

31.01.09, Paulo Prudêncio

 

 

 

 

 

Temos o hábito de trocar umas impressões no final do dia. Cultivamos a ideia de repartir as venturas e as desventuras das nossas aulas: umas correm bem mas outras nem tanto assim. É mesmo fundamental que uma escola institua esse clima; e na minha pugna-se por isso.

 

Estávamos os dois numa amena troca de dificuldades, quando caímos no duplo sentido das cotas:

  • já não somos nenhumas crianças e o nosso percurso profissional ultrapassou o período do meio - estamos a ficar uns cotas, portanto -;
  • com este modelo de avaliação, assente na ideia das cotas, perder-se-ia o sentido da partilha e da cooperação: seria cada um por si que o outro é apenas mais um competidor.

Esse fechamento difícil de evitar seria um inimigo da profissionalidade docente, principalmente num mundo mais aberto e onde a composição de cada grupo de alunos obedece, cada vez mais, a uma saudável característica: a diversidade.

 

Mas para perceber isso é preciso conhecer a semântica de uma escola e de uma sala de aula.

xadrez

30.01.09, Paulo Prudêncio

 

 

 

 

 



No seu grave recanto, os jogadores

Deslocam os peões. O tabuleiro

Tem-nos até à alva do altaneiro

Âmbito em que se odeiam duas cores.


Dentro irradiam mágicos rigores

As formas: torre homérica, ligeiro

Cavalo, alta rainha, rei postreiro,

Oblíquo bispo e peões agressores.


Quando os jogadores se houveram ido,

Quando o tempo os tiver já consumido,

Nem por isso terá cessado o rito.


A leste se ateou uma tal guerra

Que hoje se propaga a toda a terra.

Como o outro, este jogo é infinito.



Jorge Luís Borges, poemas escolhidos.

dias alegres (4)

28.01.09, Paulo Prudêncio

 

 

 

 

A escola onde sou professor, o agrupamento de escolas de Santo Onofre, tem assumido um papel singular nesta luta dos professores: a decisão de não aplicar o modelo inexequível de avaliação de desempenho tem partido sempre, e naturalmente, dos órgãos próprios do agrupamento; sem necessidade de reuniões gerais de professores ou de abaixo-assinados.

 

Ou seja, os responsáveis assumem a sua plena responsabilidade de modo informado e com a consciência de que o fazem pelo simples facto de conhecerem o lado da razão; e a história deste penoso processo tem confirmado as lúcidas alegações.

 

Mas convocou-se, para ontem, uma reunião geral de professores. Sentia-se a necessidade de conversar, de trocar opiniões, de ajudar a esclarecer e, obviamente, de espantar medos diversos.

 

E foi bonito, muito bonito mesmo. Num ambiente sereno, esclarecido e determinado, percebeu-se que a hora é difícil e que a longa luta começou agora a doer: mas nem por isso se vacilou.

 

A história se encarregará de nos esclarecer o lado certo das emoções. De uma coisa estou seguro: tenho orgulho em fazer parte de uma instituição com semelhante cultura de autonomia e de responsabilidade.

 

Bem hajam, colegas.

a luta segue dentro de momentos (5)

28.01.09, Paulo Prudêncio

 

 

 

 

 

Recebi por email a moção que se segue. Foi aprovada na Câmara Municipal de Évora cuja maioria política pertence ao partido socialista.

 

Ora leia:

 

 

MOÇÃO

 

PELA DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA

 

Considerando que o modelo de avaliação de desempenho dos Docentes - introduzido pelo Decreto-Regulamentar nº2 de 2008, de 10 de Janeiro, conjugado com o Decreto-Lei nº15/2007 de 19 de Janeiro - Estatuto da Carreira Docente - contribuiu para a degradação do Ensino Público, na medida em que criou muitos obstáculos de natureza burocrática e administrativa na acção dos professores, afastando-os da sua verdadeira missão profissional: ENSINAR.

 

Considerando os pareceres do Conselho Científico para a Avaliação dos Professores, a opinião de praticamente todos os docentes portugueses, as posições assumidas pelos órgãos administrativos e pedagógicos das escolas, a posição das estruturas representativas dos Docentes, o posicionamento dos partidos políticos na oposição com assento parlamentar, o modelo de avaliação criado pelo Ministério da Educação caracteriza-se como sendo profundamente injusto, altamente burocrático, incoerente e nada contribuiu para a evolução profissional dos Docentes nem para a melhoria da qualidade das aprendizagens dos destinatários do sistema educativo: Os alunos.

Considerando que os professores portugueses mostram total abertura e interesse para serem avaliados, no quadro de um modelo justo, sem quotas de progressão, rigoroso e formativo que contribua para a dignificação da sua carreira profissional e para o progresso dos processos de ensino - aprendizagem dos estudantes portugueses.

Considerando que o clima de contestação e indignação dos professores, educadores e alunos, a insustentável instabilidade e mal-estar vivido por toda a comunidade educativa, prejudica efectivamente o processo de ensino-aprendizagem no País e, no concelho de Évora, em particular.


A Câmara Municipal de Évora:


Reconhece a dedicação e o empenho que estes profissionais têm demonstrado têm demonstrado no exercício das sua profissão, apesar de todas as adversidades e da intensa campanha ideológica que o actual governo tem desenvolvido tentando assim ferir a sua imagem junto da opinião pública. 

Reconhece a luta corajosa, determinada, persistente e responsável travada pelos Docentes Portugueses em defesa dos seus interesses - indissociáveis da Defesa da Escola Pública. 

Vem requerer, junto do Governo, a suspensão da aplicação do Decreto-Regulamentar nº2/2008, bem como a legislação aprovada posteriormente, na tentativa de aplicar um modelo de avaliação simplificado - que continua a comportar um enorme potencial de contradições e problemas de aplicação - gerador de injustiças e instabilidade nas escolas.


A Câmara Municipal de Évora.

14 de Janeiro de 2009

 

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