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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

cotas

31.01.09

 

 

 

 

 

Temos o hábito de trocar umas impressões no final do dia. Cultivamos a ideia de repartir as venturas e as desventuras das nossas aulas: umas correm bem mas outras nem tanto assim. É mesmo fundamental que uma escola institua esse clima; e na minha pugna-se por isso.

 

Estávamos os dois numa amena troca de dificuldades, quando caímos no duplo sentido das cotas:

  • já não somos nenhumas crianças e o nosso percurso profissional ultrapassou o período do meio - estamos a ficar uns cotas, portanto -;
  • com este modelo de avaliação, assente na ideia das cotas, perder-se-ia o sentido da partilha e da cooperação: seria cada um por si que o outro é apenas mais um competidor.

Esse fechamento difícil de evitar seria um inimigo da profissionalidade docente, principalmente num mundo mais aberto e onde a composição de cada grupo de alunos obedece, cada vez mais, a uma saudável característica: a diversidade.

 

Mas para perceber isso é preciso conhecer a semântica de uma escola e de uma sala de aula.

xadrez

30.01.09

 

 

 

 

 



No seu grave recanto, os jogadores

Deslocam os peões. O tabuleiro

Tem-nos até à alva do altaneiro

Âmbito em que se odeiam duas cores.


Dentro irradiam mágicos rigores

As formas: torre homérica, ligeiro

Cavalo, alta rainha, rei postreiro,

Oblíquo bispo e peões agressores.


Quando os jogadores se houveram ido,

Quando o tempo os tiver já consumido,

Nem por isso terá cessado o rito.


A leste se ateou uma tal guerra

Que hoje se propaga a toda a terra.

Como o outro, este jogo é infinito.



Jorge Luís Borges, poemas escolhidos.

dias alegres (4)

28.01.09

 

 

 

 

A escola onde sou professor, o agrupamento de escolas de Santo Onofre, tem assumido um papel singular nesta luta dos professores: a decisão de não aplicar o modelo inexequível de avaliação de desempenho tem partido sempre, e naturalmente, dos órgãos próprios do agrupamento; sem necessidade de reuniões gerais de professores ou de abaixo-assinados.

 

Ou seja, os responsáveis assumem a sua plena responsabilidade de modo informado e com a consciência de que o fazem pelo simples facto de conhecerem o lado da razão; e a história deste penoso processo tem confirmado as lúcidas alegações.

 

Mas convocou-se, para ontem, uma reunião geral de professores. Sentia-se a necessidade de conversar, de trocar opiniões, de ajudar a esclarecer e, obviamente, de espantar medos diversos.

 

E foi bonito, muito bonito mesmo. Num ambiente sereno, esclarecido e determinado, percebeu-se que a hora é difícil e que a longa luta começou agora a doer: mas nem por isso se vacilou.

 

A história se encarregará de nos esclarecer o lado certo das emoções. De uma coisa estou seguro: tenho orgulho em fazer parte de uma instituição com semelhante cultura de autonomia e de responsabilidade.

 

Bem hajam, colegas.

a luta segue dentro de momentos (5)

28.01.09

 

 

 

 

 

Recebi por email a moção que se segue. Foi aprovada na Câmara Municipal de Évora cuja maioria política pertence ao partido socialista.

 

Ora leia:

 

 

MOÇÃO

 

PELA DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA

 

Considerando que o modelo de avaliação de desempenho dos Docentes - introduzido pelo Decreto-Regulamentar nº2 de 2008, de 10 de Janeiro, conjugado com o Decreto-Lei nº15/2007 de 19 de Janeiro - Estatuto da Carreira Docente - contribuiu para a degradação do Ensino Público, na medida em que criou muitos obstáculos de natureza burocrática e administrativa na acção dos professores, afastando-os da sua verdadeira missão profissional: ENSINAR.

 

Considerando os pareceres do Conselho Científico para a Avaliação dos Professores, a opinião de praticamente todos os docentes portugueses, as posições assumidas pelos órgãos administrativos e pedagógicos das escolas, a posição das estruturas representativas dos Docentes, o posicionamento dos partidos políticos na oposição com assento parlamentar, o modelo de avaliação criado pelo Ministério da Educação caracteriza-se como sendo profundamente injusto, altamente burocrático, incoerente e nada contribuiu para a evolução profissional dos Docentes nem para a melhoria da qualidade das aprendizagens dos destinatários do sistema educativo: Os alunos.

Considerando que os professores portugueses mostram total abertura e interesse para serem avaliados, no quadro de um modelo justo, sem quotas de progressão, rigoroso e formativo que contribua para a dignificação da sua carreira profissional e para o progresso dos processos de ensino - aprendizagem dos estudantes portugueses.

Considerando que o clima de contestação e indignação dos professores, educadores e alunos, a insustentável instabilidade e mal-estar vivido por toda a comunidade educativa, prejudica efectivamente o processo de ensino-aprendizagem no País e, no concelho de Évora, em particular.


A Câmara Municipal de Évora:


Reconhece a dedicação e o empenho que estes profissionais têm demonstrado têm demonstrado no exercício das sua profissão, apesar de todas as adversidades e da intensa campanha ideológica que o actual governo tem desenvolvido tentando assim ferir a sua imagem junto da opinião pública. 

Reconhece a luta corajosa, determinada, persistente e responsável travada pelos Docentes Portugueses em defesa dos seus interesses - indissociáveis da Defesa da Escola Pública. 

Vem requerer, junto do Governo, a suspensão da aplicação do Decreto-Regulamentar nº2/2008, bem como a legislação aprovada posteriormente, na tentativa de aplicar um modelo de avaliação simplificado - que continua a comportar um enorme potencial de contradições e problemas de aplicação - gerador de injustiças e instabilidade nas escolas.


A Câmara Municipal de Évora.

14 de Janeiro de 2009

 

e ainda e novamente os objectivos individuais

27.01.09

 

 

 

 

 

 

Este folheto à volta dos objectivos individuais tornou-se mesmo uma coisa patológica.

Leio no blogue do Paulo Guinote, aqui, mais uma útil informação.

 

 

O post tem o seguinte título:

 

De Acordo Com O Próprio ME Não Há Lugar A Procedimento Disciplinar, Certo?

A entrega dos objectivos individuais é uma responsabilidade do docente?

 

"Sim. O prazo para entrega dos objectivos individuais deve estar definido no calendário aprovado pela escola. Nas situações em que esse prazo não seja cumprido, deverá o director/presidente do conselho executivo notificar o docente desse incumprimento, bem como das respectivas consequências, ou seja, o período sem avaliação não será considerado para efeitos da evolução na carreira do docente. No entanto, uma vez que, quando existe falta de acordo, prevalece a posição do avaliador, poderá o director/presidente do conselho executivo fixar os objectivos ao avaliado, tendo por referência o projecto educativo e o plano anual de actividades da escola.
 

Isto significa serem infundados receios de:

Instauração de processos disciplinares.

Não contagem do tempo de serviço para efeitos de concurso."

 

 

Os interessados têm ainda informação mais detalhada no excelente blogue do Francisco Santos, aqui.

 

tragédia ou comédia

27.01.09

 

 

 

 

 

Pelo que li no blogue do Ramiro Marques, aqui, o famigerado relatório da OCDE a páginas tantas diz assim:

 

 

"As principais alavancas do processo, tais como a Ministra e os Directores Regionais, não são funcionários públicos independentes, mas políticos nomeados e sintonizados com os objectivos da política governamental. São apoiados por serviços de dados actualizados ao minuto, que permitem uma tomada de decisão inteligente e bem informada."

propaganda e outras coisas mais...

27.01.09

 

 

 

Os média "mainstream" faziam ontem notícia da apresentação de um relatório, da OCDE, muito elogioso para o conjunto de políticas educativas do actual governo em relação ao 1º ciclo de escolaridade.

 

Vi, a propósito, o primeiro-ministro tecer rasgados elogios ao que se tem feito nessa área da Educação, com saliência para as características de personalidade da actual ministra da Educação: determinada, corajosa, resistente e outras adjectivações do género. Ao que me pareceu ouvir, o primeiro-ministro teve uma grande satisfação em trabalhar com a actual responsável pela pasta da Educação.

 

Fui ler o famigerado relatório, aqui, e ao passar pelos blogues dei com duas análises. Uma de José Matias Alves, aqui, e outra de Ramiro Marques, aqui. Em ambas verifiquei críticas essenciais: relatório pouco rigoroso, parcial (parece uma coisa encomendada), com conclusões claramente abusivas e precipitadas. Enfim. Os mais interessados devem passar pelos links que recomendo e tirarem as suas próprias conclusões.

 

Depois li uma nota de imprensa do sindicato dos inspectores da Educação e do Ensino. Fiquei estupefacto. É grave o que ali se pergunta

 

Se cruzarmos as conclusões do citado relatório com o conteúdo desta nota, ficamos com a óbvia impressão de que há ainda mais mundo para além da propaganda.

 

NOTA DE IMPRENSA

Sete (7) perguntas ao Senhor Secretário de Estado da Educação.

A notícia inserta na página 12 do “Público” do passado  dia 22, com o título “Ministério da Educação vai avaliar a qualidade «interna e externa» dos cursos profissionais” , suscita-nos algumas perguntas, que gostaríamos de ver respondidas.  Citamos da notícia:“O Ministério da Educação (ME) vai arrancar em breve com a avaliação aos cursos profissionais das escolas públicas. A garantia foi dada pelo Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos (…). «O contrato está pronto e a adjudicação vai ser feita muito em breve», sublinhou Lemos (…)”. Esta notícia, como se vê, coloca inúmeras questões. Entre outras, e não sendo exaustivos:

1. Por que está a Inspecção-Geral da Educação (IGE) arredada de todo este  processo?;

2. De que contrato, com que caderno de encargos,  e de que adjudicação se está a falar?;

3. A IGE possui competências legais e técnicas, e meios e experiência, para, no âmbito de uma redefinição das suas prioridades e do urgente reforço dos seus quadros, fazer esta avaliação - por que é que a não faz?;

4. Assim sendo, qual o fundamento legal, técnico, orçamental e financeiro que justifica esta externalização do serviço?;

5. A IGE já desenvolveu e aplicou um Programa de Avaliação Integrada das Escolas, a IGE já fez a avaliação de escolas profissionais públicas, a IGE está a aplicar neste momento um programa de Avaliação Externa das Escolas - e é colocada à margem desta avaliação aos cursos profissionais das escolas públicas, assim se propiciando “contratos” e“adjudicações”?;

6. A IGE, para além de credível e competente, também sai naturalmente mais barata aos contribuintes, pelo que uma outra pergunta se torna inevitável: quais os custos deste contrato, isto é, quem ganha e quem perde com este negócio?;

7. A aplicação de um processo de avaliação promovido pelo Ministério da Educação pode ser um negócio?

Pel’A Direcção do Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino. José Calçada (Presidente).

 

limpidez

27.01.09

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Sindicato de Professores do Norte (SPN) faz um esclarecimento que deve ser lido com toda a atenção.

 

Ora leia.

 

ENTREGAR OS OBJECTIVOS INDIVIDUAIS SIGNIFICA:

ajudar agora o ME a implementar o seu modelo de avaliação e a consolidar o seu ECD;

aceitar que, no próximo ano lectivo, o modelo imposto pelo ME se aplicará na sua versão integral;

conformar-se com a existência de titulares e de quotas;

colaborar na degradação da escola e da profissão docente;

desperdiçar toda a força acumulada nas grandiosas manifestações de 8 de Março e 8 de Novembro e nas históricas greves de 3 de Dezembro e 19 de Janeiro.

 

NÃO ENTREGAR OS OBJECTIVOS INDIVIDUAIS SIGNIFICA:

· rejeitar o modelo de avaliação do ME e continuar a contestação.
 

Mesmo correndo riscos, eles serão sempre insignificantes se comparados com os prejuízos provocados pela aplicação deste modelo, sobretudo tendo em conta que, neste momento, o risco será sempre muito limitado, porque:

A entrega dos objectivos não tem carácter obrigatório, portanto, não dá lugar a qualquer sanção disciplinar.

A não entrega dos objectivos não impede a continuação do processo de avaliação, já que a auto-avaliação, apesar de ser meramente consultiva, é considerada um dever, tenha-se ou não apresentado objectivos.

Os parâmetros da ficha do Presidente podem ser pontuados com ou sem objectivos definidos.

A avaliação não terá qualquer efeito nos concursos para o próximo ano lectivo.

Mesmo que assim não fosse, os professores são mais de 140 mil… Alguém imagina possível a instauração de processos disciplinares ou mesmo a assunção da não contagem do tempo de serviço a dezenas de milhar de docentes?!

Por isso, a questão central, neste momento, é a seguinte:

VAMOS DEIXAR RUIR A UNIÃO E A FORÇA QUE TÃO DURAMENTE CONSTRUÍMOS?

O SPN e a FENPROF apelam a todos os professores para mostrarem a este Governo intransigente e incompetente que a dignidade não tem preço.

Nas escolas onde não for possível aprovar esta posição, isso não impede os colegas em minoria de afixar na sala dos professores uma Declaração de não entrega de objectivos. A contabilidade da não participação neste modelo far-se-á não só pelo número de escolas, mas também pelo de professores que, em todo o país, dele claramente se demarcaram.

do momento

27.01.09

 

 

Vive-se uma fase do tipo "a luta segue dentro de momentos" na vida profissional dos professores portugueses em defesa da escola pública.

 

Encontrei umas ideias que, com alguma imaginação, podem ajudar a perceber alguns dos aspectos que rodeiam o momento e contribuir para dois estados de espírito: por um lado serenar os ânimos e por outro reafirmar o óbvio: a luta é longa.

 

Ora leia:

 

 

A distorção da empatia.


  • Johnny deixa o seu melhor amigo brincar com a sua bola nova. Mas o amigo não teve cuidado e perdeu a bola. E não quer dar outra ao Johnny.
  • O amigo do Johnny, com quem ele gostava muito de brincar, mudou-se. O Johnny não pode brincar com o seu amigo.

 

Daniel Goleman, Inteligência social, a nova ciência das relações humanas;

Círculo de Leitores; Lisboa 2006; tradução de Mário Dias Correia;

pág. 249

 

 

"(...) A teoria evolucionária afirma que a nossa capacidade de sentir quando devemos desconfiar tem sido tão essencial para a sobrevivência da espécie como a capacidade de confiar e cooperar."

 

 

Daniel Goleman, Inteligência social, a nova ciência das relações humanas;

Círculo de Leitores; Lisboa 2006; tradução de Mário Dias Correia;

pág. 40

 

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