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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

amos oz

18.10.08


 




"Contra o fanatismo"
é belíssimo. Este pequeno livro de Amos Oz é arrebatador: afinal existe sanidade mental no meio do grave conflito israelo-palestiniano. Este escritor é natural de Jerusalém e apresenta uma iniciação racional para ajudar a resolver o problema. É fascinante o modo como Amos Oz penetra nos alicerces das manifestações fanáticas e radicais. Recomendo: é uma leitura obrigatória, se me permite, meu caro leitor: tem um alcance e uma lição de vida que deve ser útil para cada um de nós.

"A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar... O fanático é uma das mais generosas criaturas. O fanático é um grande altruísta".



(reedição em homenagem ao trágico momento que se vive em Gaza,
estranhamente, ou talvez não, silenciado.)

mais de 100 mil professores em rede (reedição)

18.10.08



 

Saimos das Caldas da Rainha às 11h30. Fomos no nosso automóvel: a ideia era aproveitar a noite para ir ao cinema e ver o filme dos irmãos Cohen.

Entrámos na capital pela Calçada de Carriche e o movimento automóvel escoava sem grandes constrangimentos. Íamos na direcção de Entrecampos, quando começámos a circular enfileirados em dezenas de autocarros. Virámos para a Avenida de Roma e estacionámos perto da Praça do Saldanha. O relógio marcava 12h45.

Começámos a caminhada mais impressionante que temos memória. Quando entrámos na Fontes Pereira de Melo o trânsito automóvel já estava infernal e engarrafado. O mar de professores vestidos de preto começava a encher-se de ondas e mais ondas de indignação. Almoçámos por ali, numa rua paralela. Dei com um colega, que nunca tinha visto na vida, e que logo me disse: "venho de Fafe, sai de manhã muito cedo, e voltarei as vezes que forem necessárias". O colega não era nenhum jovem, longe disso, e não merecia esta canseira toda num sábado de manhã. Estava dado o mote.

Quando voltámos à Fontes Pereira de Melo, meia-hora depois, já se caminhava com muita dificuldade. Estávamos no meio de pessoas, professores na sua esmagadora maioria, com toda a certeza, de semblante feliz. Os cartazes diziam, obviamente, o contrário.

Entrámos no Marquês de Pombal e logo deduzimos: isto vai fazer história: vai ser um protesto de professores como nunca se viu. O nosso local de encontro, a zona em frente ao edifício do Jornal de Notícias, no início da Avenida da Liberdade, não foi de fácil acesso. Como não conseguíamos circular pelos passeios, tivemos de chegar ao local num cívico serpenteado pelos automóveis que aproveitavam as últimas oportunidades de circulação.

Os cumprimentos e os abraços sucediam-se. À medida que o tempo passava, chegavam todos.

Mais de um hora depois, cerca das 15h15, começava a manifestação. Já com a Avenida da Liberdade à pinha, íamos recebendo informações que antecipavam o que viria a acontecer horas depois: havia professores do Terreiro do Paço ao Saldanha e muitos mais a caminho.



 

Partimos na direcção do Terreiro do Paço. Foram cerca de 2 horas num ambiente indescritível: serenos, preenchidos por uma cívica tranquilidade, saudávamos os inúmeros cidadãos que aplaudiam os nosso nobre gesto.



 

Sucediam-se as informações que confirmavam as melhores expectativas. Estávamos orgulhosos e começávamos a perceber: perderíamos o "Este não é um país para velhos" mas confortava-nos uma outra ideia: "Este é um país de professores".

 






Colegas que conheço bem, que dão os últimos passos da sua carreira e que mereciam uma vida mais descansada, manifestavam a sua alegria e mantinham firme o propósito de resistir até onde for necessário.

 

 

Quando chegámos ao Terreiro do Paço, os professores já inundavam a praça dos ministérios. Comentávamos uns para os outros: "como é possível que duas ou três pessoas façam tanto mal a um país?"

Ouvimos as intervenções, aplaudimos e cantámos tudo o que havia para cantar. Respeitámos um tempo de silêncio em memória dos professores que faleceram em situações que a mediatização tratou de dar a conhecer, e terminámos com o hino nacional.

Os colegas da minha escola que se deslocaram de autocarro, partiram à procura do meio de transporte que os traria de regresso às Caldas da Rainha. Estavam um pouco apreensivos: o estacionamento ocupava o espaço entre o Cais do Sodré e a ponte 25 de Abril.


Iniciámos, com mais 3 amigos, o regresso a casa. Caminhávamos numa das ruas que liga o Terreiro do Paço ao Rossio, quando nos apercebemos duma manifestação que decorria, em sentido contrário, na Rua do Ouro. Eram cerca de 19h00. Fomos para lá. Eram os colegas do norte. Manifestavam a ideia de chegar ao Terreiro do Paço, desse como desse. E iam imparáveis. Em linhas compactas, enérgicos, de braço dado e com palavras de ordem ditas em conjunto e com uma força surpreendente para quem se deslocara da tão longe. Ficámos a aplaudir, arrepiados e acompanhados por todos os que por ali passavam. Horas depois, soubemos que as intervenções do Terreiro do Paço tiveram uma natural repetição.
 
Apanhámos o metro nos Restauradores. Ainda houve tempo para uma apressada visita à renovada estação ferroviária do Rossio.

Valeu a pena. Foi um dia inesquecível. A consciência dizia-nos: os professores portugueses, unidos como nunca, estão preparados para lutar.

O dia seguinte está aí.





(Reedição. 1ª edição em 9 de Março do 2008)