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Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

hierarquias

08.10.08

 

 

 

 

Desidério Murcho escreve às terças-feiras no caderno P2 do jornal público. Já por aqui dei conta da excelência das suas crónicas e do lugar que veio preencher: aquele que estava reservado ao saudoso Eduardo Prado Coelho. O fio do horizonte era diário e merecia uma leitura obrigatória. Era por ali que começava sempre a leitura do jornal. Nesta altura, as terças-feiras obedecem ao mesmo ritual.

 

Desidério Murcho escreveu ontem mais uma pérola. O seu conteúdo também pode ser aplicado ao ambiente que se vive nas escolas portuguesas.

 

Ora leia.

 

 

"Uma das características humanas mais desprezíveis é o sentido das hierarquias, que se faz sentir onde seria de esperar alguma sensatez. Para muitas pessoas, a ortografia, a pronúncia, as referências livrescas ou culturais são meros adereços sociais que se usam unicamente com o fim de exibir imaginadas superioridades sociais. Prostitui-se assim a cultura, as artes, as ciências e até a própria língua, pondo todas estas coisas ao serviço do que não devia ter qualquer importância e devia ser encarado como uma repreensível mania infantil, imprópria para pessoas adultas. A situação é sempre condenável e por vezes risível: o objecto de tão desapropriadas atitudes é muitas vezes um artista ou filósofo que não tinha sangue azul, não era particularmente culto excepto na sua própria área, e sobretudo não era rico nem poderoso.

Esta concepção algo aristocrática das artes, da filosofia e das ciências é comum. O que está em causa é a síndrome humana do Toque de Midas do Avesso, que consiste em tornar em esterco simiesco mais ou menos tudo aquilo em que toca: algumas pessoas elegem como o mais importante da vida a questão infantil de saber quem é mais catado e por quem, ou quem sobe mais alto na árvore social e à custa de espezinhar quem. Política, vida empresarial e pessoal, vida académica e artística, blogs, livros, dinheiro e tudo o mais pode ser prostituído, transformando-se em mero instrumento de exibição de estatuto social.

Este tipo de prostituição é mais comum nas artes, filosofia e humanidades do que nas ciências. Quando se lê Carl Sagan ou outros grandes divulgadores de ciência, compreende-se que estamos perante aspectos cognitivos dos mais sofisticados que os seres humanos alguma vez produziram; no entanto, tais conhecimentos são-nos oferecidos com clareza e simplicidade e o leitor não se sente colocado numa situação de inferioridade cognitiva. Em contraste com isto, basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata. A filosofia, a história ou a teoria da literatura não são vistas como áreas acessíveis a todos, como a biologia, mas antes como disciplinas de cultura geral cuja vagueza de contornos é cuidadosamente acoplada à lama gramatical para assim poder servir de instrumento de opressão social e psicológica.

Encarar a filosofia, as artes e as actividades cognitivas em geral como instrumentos de opressão social e pessoal é um sinal da insaciável estupidez humana. O facto de este tipo de actividade ser comum em escolas, universidades, jornais e debates públicos só agrava a afronta. Era tempo de pensar outra vez se é realmente para isto que serve a cultura."

 

 

 

 

(Agradeço a Desidério Murcho a possibilidade

que me deu de publicar, deste modo,

os seus escritos).

o muro dos professores portugueses (reedição)

08.10.08

 

 

Há muros por tantos lados que o seu porvir é tão diverso quanto os propósitos das suas edificações. Quando a liberdade dos homens esbarra num qualquer aglomerado, de tijolos ou de verdades incontestáveis, e por muito consistente que seja a argamassa que as compõe, o obstáculo acaba por ceder e cai de modo drástico e estrondoso.

O que mais impressiona nas quedas, e remeto-me para a do muro de Berlim, é a incredulidade dos que estiveram anos a fio do lado errado: em muitos casos, começaram por crer nas virtudes das dogmas; depois, sustentaram as suas vidas na acomodação aos manipulados e "cinzentos" privilégios dos funcionários médios e superiores dessas sociedades; por fim, acabaram como defensores acérrimos de burocracias monstruosas, repetitivas e desprovidas de qualquer sentido libertador da condição humana. Um logro difícil de aceitar.

A situação dos professores portugueses pode explicar-se do mesmo modo: imersos num tentacular assombro burocrático, que começa no "muro" da 5 de Outubro para alastrar-se aos restantes patamares da máquina administrativa, os professores, indignados e saturados, e sem liberdade para ensinar, ecoam os seus protestos dos lugares mais recônditos do país até ao histórico Terreiro do Paço.

Incrédulos, os funcionários do chamado "eduquês", ("uma industria que move milhões", como alguém disse) estão atónitos, surpresos, mas ainda esperançosos: têm, na equipa que governa o ministério da Educação, uma força de vanguarda e um último e desesperado bastião. Não é fácil assistir a uma queda sem fim e presenciar a ruína das convicções mais profundas, trabalhadas árduamente durante décadas.

E tu professor? Qual é o teu lado do muro?








(Reedição. 1ª edição em 14 de Março de 2008.
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