Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Correntes

em busca do pensamento livre

Correntes

em busca do pensamento livre

sua excelência e os impressos

27.09.08

 


Sua Excelência acordou frenético: tinha mais três anos de mandato e já tinha esgotado o programa previamente planificado; por outro lado, tinham-lhe cometido a responsabilidade de dar vida ao ponto três do plano económico - e transversal - do governo a que pertencia:

viabilizar a nova e hodierna empresa produtora de papel que, por sua vez, fornecia a desorientada imprensa nacional - equipada cinco anos antes, por decisão sua quando fazia a próspera carreira de funcionário superior, com o mais moderno parque de impressão de impressos normalizados que há memória - que tinha acabado de perder, para o estouvado processo digital, a edição do Diário da República.

Apesar de terem estado umas horas a tentar convencer Sua Excelência da indulgência desta última decisão, Sua Excelência não estava completamente convencido do intento ambiental que se estabelecia entre a edição digital do citado diário e a poupança anual de 28 mil eucaliptos.

Sua Excelência, contristado mas não subjugado, convocou uma reunião de emergência e assentou: "escreva-se um decreto que determine o impresso m-318456/A para o registo dos planos de aula de todos os docentes do continente e das regiões autónomas que anunciem previamente as suas faltas."

“E se anunciam no próprio dia?"-  perguntou, temeroso, um dos seu ajudantes.

Sua Excelência, depois de invectivar o seu ajudante com o mais reprovável dos olhares, sorriu, e anunciou: “impresso m-318456/B".

O ajudante, encheu-se de uma coragem reforçada pelo sorriso de Sua Excelência, e questionou com um ar judicioso e inovador: “e se o docente se indispõe e anuncia na própria hora?”

Sua Excelência: “m-318456/C, que raio".

 

(reedição. Quer ler o que já escrevi sobre educação?
Clique aqui.)

café e cigarros

27.09.08

 

 

 

 

No meu regresso às salas do CCC dei com um filme surpreendente. São 11 quadros distintos, todos a preto e branco, mas com uma circunstância comum: à mesa do café juntam-se, sempre duas ou três pessoas, e bebem muito café e fumam muitos cigarros. Com um elenco de actores - muitas caras conhecidas - que muda sempre em em cada um dos 11 momentos, "café e cigarros" é um filme bem disposto com uma narrativa que tem tanto de inteligente e séria como de absurda e trivial. O absurdo é mesmo a impressão que se me evidenciou com mais frequência.

 

Sem ser nada de especial, é um filme que se vê.

 

Encontrei o seguinte texto de Eurico de Barros:

 

Publicado no Diário de Notícias a 10 de Junho de 2004. 

Cafeína, nicotina e conversa fiada 

Juntamente com Kurt Russell e Arnold Schwarzenegger, Jim Jarmusch deve ser um dos últimos fumadores descarados do cinema americano, como ficou demonstrado em «Blue in the Face», de Wayne Wang e Paul Auster, a continuação de «Smoke», onde se elogiava o prazer do tabaco, entre muita conversa fiada. 

Tabaco e conversa fiada, acompanhados por café - baldes de café - são o fio condutor de «Café e Cigarros», um conjunto de 12 sketches a preto e branco filmados entre 1986 e 2003 por Jim Jarmusch, tendo como comparsas nomes da música como Iggy Pop, Tom Waits e os Wu-Tang Clan, e do cinema como Bill Murray, Cate Blanchett ou Steve Coogan. 

É um filme dedicado às pessoas de meia dúzia de "bicas" e pelo menos dois maços de cigarros (ou um charuto, ou meia caixa de cigarrilhas) por dia, um panegírico da cafeína e da nicotina, com o aditivo da palheta. Os assuntos das conversas não se limitam ao fumo e ao café, que nalguns casos até são apenas adereços. Há ainda teorias da conspiração ligadas a Elvis Presley ou as vantagens de se se conhecer Spike Jonze. 

Muito ou pouco improvisados, os sketches são necessariamente desiguais, tal como o seriam os esboços do caderno de um desenhador. E um dos piores, curiosamente, é o de Iggy Pop e Tom Waits, tudo menos cool, como se poderia esperar. 

Os actores saem-se bastante melhor, nomeadamente Bill Murray, que se interpreta a si mesmo, num sketchcom os rappers GZA e RZA, como um tipo tão viciado em cafeína que arranjou um part-time de empregado de café para o poder beber à vontade - até directamente do pote. O humor de cara séria e a resvalar para ononsense de «Café e Cigarros» tem aqui a sua expressão maior. Murray vai entrar no novo filme de Jim Jarmusch, e a julgar por esta amostra, não podemos esperar para o ver pronto.